Azrael
O campo de batalha estava impregnado com a tensão sufocante da derrota iminente. Zenith o observava com olhos arregalados, cheios de medo, enquanto o desespero manchava sua expressão. A derrota já havia se instalado nela. Azrael não precisou ler seus pensamentos para entender o que Zenith sentia. O medo e a falta de esperança estavam estampados em seu rosto. Ele cerrou os dentes, frustrado. Ela já aceitou o fim..., pensou com raiva. Sua companheira havia perdido a fé na vitória.
Virou-se então para Naara. Ela também estava estranha. O sorriso destemido que costumava iluminar seu rosto no campo de batalha havia desaparecido, deixando apenas uma expressão de resignação. Seus movimentos eram lentos, hesitantes. Naara está planejando se sacrificar, percebeu Azrael, com uma dor silenciosa crescendo em seu peito. Ela estava disposta a dar a vida para que os outros escapassem.
Quatro Cavaleiros não são suficientes? pensou ele, lembrando-se do quão invencíveis tinham sido outrora. Agora, diante de um inimigo poderoso, parecia que as vitórias fáceis de antes haviam sido a razão de sua fraqueza. Nos tornamos complacentes, acostumados a vencer sem esforço. Agora, diante desse oponente, vejo o quão fraco realmente sou...
Mas ele não permitiria que a derrota os consumisse. Não ali. Não agora.
Azrael ergueu sua espada negra, e uma aura pulsante de poder começou a se expandir ao redor da lâmina. Ele sentiu o peso familiar da arma em suas mãos, um símbolo de sua força. Não podia permitir que aquele sentimento de fraqueza o dominasse. Sou Azrael, o Cavaleiro Negro do Apocalipse. Não serei derrotado!
Uma esfera de energia negra começou a se formar na ponta de sua espada, aumentando em tamanho e intensidade. Com um movimento poderoso, ele a lançou em direção ao inimigo, e a explosão que se seguiu sacudiu o campo de batalha. O impacto foi devastador, varrendo tudo ao redor e destruindo qualquer coisa que estivesse no caminho.
“Eu sou Azrael!” sua voz ecoou como um trovão, carregada de fúria e determinação. “O Cavaleiro Negro do Apocalipse! Não serei derrotado pelo líder da Aliança!”
O campo de batalha pareceu reagir àquela declaração. Zenith, que antes estava mergulhada em medo, esboçou um sorriso sarcástico, enquanto o brilho maléfico nos olhos de Naara retornava, sua confiança restaurada. Eles haviam recuperado a fé. O poder de Azrael reacendera a chama em seus corações.
“Acabem com o exército,” ele ordenou, sua voz firme. “O líder é meu.”
O corpo de Azrael começou a pulsar com uma quantidade imensa de mana. Ele sabia que era hora de liberar sua segunda forma, algo que não fazia desde um evento anterior. A forma que usei apenas uma vez... agora, ela será necessária para garantir a vitória.
Seu poder começou a se acumular, mas uma lembrança invadiu sua mente, quebrando sua concentração por um breve momento. Ele lembrou-se de uma voz suave, carregada de desespero. Me prometa... me prometa que sobreviverá, não importa o que aconteça., a memória trouxe consigo a visão de alguém chorando, implorando para que ele saísse vivo da batalha.
Azrael sentiu uma dor aguda ao relembrar aquele momento. Como eu queria ter a sua confiança..., pensou, com uma amargura profunda tomando conta dele. Como eu queria ser forte o suficiente para proteger todos à minha volta.
Seus pensamentos viajaram para uma cena distante em suas memórias, uma garotinha de cabelos brancos acorrentada, seus olhos marejados. Ele se lembrava nitidamente de suas palavras sussurradas naquela época: Você deseja vingança?
As lembranças continuavam a se projetar na mente de Azrael, uma após a outra, como fantasmas de seu passado que ele preferia esquecer. Na próxima imagem, uma jovem garota de cabelos negros estava diante dele, e seu rosto pálido e desesperado era incapaz de esconder o medo e a impotência. Uma cobra, com pouco mais de dois metros de comprimento, estava enroscada no braço da garota, seus dentes afundados profundamente em sua pele. O veneno da serpente era mortal e, até aquele momento, não havia antídoto. De joelhos, Azrael não podia fazer nada além de assistir, impotente, enquanto a pessoa que ele mais amava naquele momento agonizava lentamente devido ao veneno.
Ele desviou os olhos, incapaz de suportar a cena por mais tempo. A próxima projeção era um campo vasto, coberto de flores mortas e espadas fincadas no solo. As lâminas reluzentes de armas magníficas estavam espalhadas por toda parte, espadas dignas de reis e nobres. Azrael se lembrou daquele dia. Em sua mão, no entanto, não havia uma espada esplendorosa, mas uma lâmina velha, sem fio, desgastada pelo tempo. Ele poderia ter escolhido qualquer uma daquelas armas reluzentes, mas havia optado por aquela... Uma boa lembrança, pensou com um leve sorriso, quase irônico.
Na imagem seguinte, ele se viu em uma sala semelhante a uma biblioteca. Um jovem nobre conversava com ele. Enquanto falavam, a porta da sala se abriu e uma mulher linda, carregando uma criança nos braços, apareceu. O coração de Azrael parou por um segundo. Ele não esperava vê-la ali. A surpresa o deixou sem reação. Ela... nunca imaginei que a encontraria nessas circunstâncias, pensou, mas manteve a calma, encerrando rapidamente a conversa e indo em direção à saída.
No entanto, nas escadas, a mulher o encontrou novamente. Ela começou a falar com ele, sua expressão triste e carregada de melancolia. Mas Azrael se manteve frio, seus olhos vazios e sem vida. Algo dentro dele parecia ter morrido naquele dia.
A cena mudou novamente. Agora, ele estava em uma sala real, dentro de um palácio, seu primeiro encontro com uma mulher de cabelos vermelhos. A imagem pulou para um cenário completamente diferente — uma vasta caverna de gelo, repleta de garrafas de vinho espalhadas por toda parte. A mulher abriu uma das garrafas e começou a beber alegremente, seu sorriso iluminando o ambiente gélido.
Mais uma imagem apareceu, mas desta vez, foi uma que Azrael jamais poderia esquecer. Ele viu um carro destruído, seus destroços espalhados pelo chão. Dentro, o corpo pálido de uma mulher. Ele a retirou dos escombros com cuidado, segurando-a em seus braços, enquanto lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto. Aquela cena estava marcada em sua memória, um erro do qual ele nunca conseguiria escapar. Eu nunca vou me perdoar por isso, pensou amargamente.
“Você deveria parar de se torturar assim.”
A voz interrompeu as imagens, e Azrael ergueu os olhos, percebendo a presença de um ser à sua frente. Ele parecia ter pouco mais de 28 anos, com uma aparência esbelta e andrógina, os olhos ocultos por uma venda. Seus traços femininos poderiam facilmente enganar quem o visse, mas Azrael sabia exatamente quem ele era.
“Suspiro... Me desculpe por isso,” respondeu Azrael com um tom sarcástico, que apenas provocou um sorriso no rosto do ser.
“Veja só, Legion! Ele continua se prendendo a essas lembranças...”
Outro homem emergiu das sombras, seus olhos negros como a noite o observando com desdém. Ele usava um terno negro simples, e seu semblante era uma versão mais velha de Azrael, com traços semelhantes, mas com uma aparência de alguém em seus 30 anos.
“Azrael, você não deveria ficar preso nisso. Se martirizar por algo que não é sua culpa só vai destruir seu espírito,” disse o homem, sua voz calma, contrastando com o tom sarcástico de Nêmesis.
“Tá vendo? Eu sempre tenho razão,” acrescentou Nêmesis com um sorriso malicioso.
Azrael suspirou, exasperado. “Vamos, eu estava apenas relembrando o passado,” disse, tentando minimizar a situação.
“E essas lágrimas?” perguntou Legion, sua voz carregada de preocupação.
Azrael tocou seu rosto e percebeu que lágrimas silenciosas haviam escorrido sem que ele percebesse. Legion, sempre tão atento, tentava ajudá-lo, mas Nêmesis continuava com seu humor ácido.
“Ta vendo, Legion? Ele nunca me escuta e acaba assim. Reuniremos os outros e daremos uma boa surra no Az, assim ele aprende um pouco de consciência.”
“Nêmesis, não é assim que devemos lidar com isso. Azrael é apenas uma criança.”
“Criança? Então sou um padre!” retrucou Nêmesis com deboche.
“Pensei que você fosse um deus...” murmurou Legion, claramente aborrecido.
“Você não devia levar tudo tão a sério, Legion,” respondeu Nêmesis, irritado.
“E onde você aprendeu a falar assim?” perguntou Azrael, intrigado.
Nêmesis fez uma expressão de nojo. “Você é idiota? Eu sei tudo o que você sabe. É óbvio que eu aprenderia quando você aprende.”
Azrael balançou a cabeça, exasperado. Nêmesis sempre foi um idiota, pensou, um pouco cabisbaixo ao ver como até Nêmesis parecia evoluir enquanto ele se afundava em suas próprias memórias.
“Legion, Az está com pena de mim!!” Nêmesis disse com falsa indignação.
“Azrael, não implique com o Nêmesis,” Legion tentou apaziguar.
Virou meu pai agora? pensou Azrael, um leve sorriso amargo aparecendo em seus lábios. Mas, por mais caótico que fosse, aquele lugar trazia certa paz.
Seu mundo interno. Apenas seis seres em todo o universo possuíam essa habilidade. Cada “Mundo Interno” era uma extensão da personalidade do usuário, moldado para trazer conforto e se adaptar aos seus pensamentos.
O mundo de Azrael era uma vasta caverna, com lava fervente escorrendo pelas paredes e formando rios de fogo ao longo do chão. No centro, uma plataforma de rocha era o seu único refúgio, o único lugar seguro, afastado da lava. A paisagem refletia o próprio usuário: imponente e intimidadora. Azrael observava em silêncio. Apesar da grandiosidade do seu mundo interno, ele não conseguia sentir alegria. A comparação com os outros mundos que conhecia destacava a desolação do seu próprio.
“Legion, como os outros se parecem?”, Legion entendeu a pergunta de Azrael e, por um momento, sua expressão mudou. Seus olhos se tornaram distantes, como se enxergasse algo que apenas ele podia ver. Era um olhar para um passado distante e intangível, um vislumbre de algo que não podia ser plenamente refletido.
“Um dia você conhecerá todos… Conseguirá resposta com o passar do tempo.”
Azrael olhou para um local afastado de onde estavam. Noir estava deitada em uma cama de mana, um leve sorriso estampado em seu rosto. Ela estava diferente de sua forma habitual, mais velha, aparentando ter pouco mais de 20 anos. Seus longos cabelos passavam facilmente dos joelhos, e sua presença emanava uma aura divina, a marca de um deus reencarnado no corpo de uma jovem garota.
Enquanto dormia, Noir transmitia uma paz reconfortante. Azrael, perdido em pensamentos, relembrou tudo o que havia acontecido no passado, todas as vitórias e derrotas que compartilharam. Noir sempre estivera ao seu lado em sua longa jornada.
De repente, um leve brilho chamou sua atenção. Uma grande porta branca surgiu, iluminando a caverna com uma luz forte e pura. A porta tinha runas antigas que brilhavam como ouro e tinha mais de três metros de altura. A mana de luz que emanava dela era uma assinatura que Azrael conhecia bem, uma assinatura de mana perfeita que ele havia aperfeiçoado ao longo dos anos.
“Parece que você recebeu permissão para entrar.” Legion observava a enorme porta com uma expressão de familiaridade, não surpreso com sua aparição. Já haviam visto essa porta antes em diversas ocasiões. Era o início de uma nova jornada para Azrael, e, mesmo sabendo que logo tudo chegaria ao fim, seu espírito estava em paz.
“Você quer me acompanhar? Ver ela após tanto tempo pode alegrar seu coração.” Legion olhou para a porta branca, seus olhos brilhando por um momento, mas logo seu rosto assumiu uma expressão solene.
“Não… Você foi convidado, não eu… Teremos bastante tempo no futuro…” Legion parecia triste com suas próprias palavras, mas Azrael sabia que não poderia forçá-lo a acompanhá-lo.
“Noir!” Azrael chamou, e Noir acordou de seu sono. Ao ver a porta em frente, ela esfregou os olhos e se aproximou. Com um simples movimento de sua mão, sua aparência mais velha mudou completamente. Ela se transformou na criança que escolhera ser. Seu rosto puro e imutável trazia um conforto familiar a Azrael.
“Vamos…” Azrael disse, e juntos, passaram pela porta branca. Do outro lado, a primeira coisa que Azrael notou foi o rosto familiar de uma mulher. Ao olhar diretamente para ela, sentiu todas as suas forças desaparecerem. De joelhos, ele viu o sorriso carinhoso dela e logo sentiu seu corpo ser envolto em um abraço.
O abraço era, ao mesmo tempo, acolhedor e devastador. Seu coração parecia se partir em pedaços, e tudo o que queria dizer parecia inalcançável. As palavras ficaram presas em sua garganta, e até sua respiração parou momentaneamente.
“Como é bom te ver após tanto tempo… Você se tornou um belo homem… Meu querido…”
Ao mesmo tempo, Azrael notou Eriel sentada em uma cadeira um pouco à frente. O tempo estava congelado para ela devido à habilidade ‘Lorde do Tempo’, e ela estava alheia ao que estava acontecendo. O contraste entre a cena emocional que vivia e a imobilidade de Eriel fez os olhos de Azrael se encherem de lágrimas novamente.
“Me perdoe… Eu… Eu… Se eu não tivesse me atrasado, se eu…”
A dificuldade em encontrar as palavras era evidente. Não importava o quanto tentasse, ele não conseguia expressar o peso da culpa e do arrependimento que carregava. O olhar gentil e o sorriso da mulher eram como facas afiadas, cortando seu coração com cada palavra não dita.
“Meu querido, não precisa se desculpar.”
A mulher desviou seu olhar para Eriel por um momento, seus olhos refletindo uma compreensão profunda e uma tristeza compartilhada.
“Foi uma escolha… Não era possível mudar a opinião dela… Foi uma escolha difícil, eu sei, mas ela fez isso pensando em você.”
Zoe passou a mão gentilmente pelo rosto de Azrael, enxugando as lágrimas com um gesto suave e carinhoso.
“Vamos, ela vai te ver chorando se continuar assim. Mostre-lhe que você é um homem.”
Azrael ergueu-se, enxugou as lágrimas com determinação renovada e respirou fundo. Forçando um sorriso gentil, ele se preparou para enfrentar o momento com uma nova perspectiva.
“Mais uma vez, Bem-vindo, meu querido Azrael.”
“Voltei, Zoe…”
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 30
Comments