Entidade desconhecida
A entidade desconhecida flutuava em um espaço entre dimensões, onde o tempo não seguia as regras do universo conhecido. Seus olhos, se é que se podia chamar assim, eram como vórtices, absorvendo tudo o que existia e o que poderia existir. Ela observava com indiferença as incontáveis narrativas que preenchiam o cosmos, cada uma com suas intrigas, tragédias e momentos de glória. E, entre essas histórias, havia uma em particular que sempre lhe chamava a atenção: a queda de Lúcifer.
"Interessante..." murmurou para si mesma, sua voz ressoando de forma estranha no vazio ao seu redor. Um eco que parecia se perder no abismo sem fim.
O universo estava repleto de antigos contos sobre a origem das raças e a queda de algumas delas, lideradas por anjos outrora gloriosos. A entidade conhecia esses contos tão bem quanto o próprio tecido do espaço. Os anjos, seres majestosos que habitavam os palácios celestiais, haviam sido criados para servir ao criador supremo. Governavam com autoridade e sabedoria, cada um possuindo um fragmento do poder primordial que sustentava o equilíbrio do universo.
"Ah, os anjos..." pensou, com uma ponta de ironia. "Seres que se consideravam tão acima de tudo, e no fim, caíram como qualquer outra raça mortal."
Mas entre esses anjos, havia um que brilhava mais intensamente do que qualquer outro: Lúcifer, o primogênito do criador, o mais belo e poderoso de todos os seres celestiais. Ele possuía a habilidade primordial da Realidade, um poder que o permitia moldar o mundo conforme sua vontade, tornando-o quase onipotente. E ainda assim, sua ambição o levou à ruína.
A entidade continuava a refletir, sua consciência transcendendo tempo e espaço, observando o desenrolar da história em sua mente como se fosse um espectador distante de uma peça teatral. Lúcifer, após muitos anos de serviço fiel, começou a questionar o papel que lhe foi dado. Ele viu falhas no design divino, discordando dos princípios do criador e, em seu orgulho, decidiu que deveria tomar o trono.
"Arrogante... mas compreensível", a entidade ponderou. "Quem não questionaria seu criador, uma vez que lhe é dado o poder de moldar a realidade? A tentação é inevitável."
A rebelião de Lúcifer foi rápida, brutal, e terminou com sua queda. Os anjos que o seguiram, os caídos, tiveram suas asas brancas transformadas em negras como a noite, uma marca eterna de sua traição. Eles foram expulsos do reino celestial, banidos para as profundezas, onde vagariam sem propósito. Mas Lúcifer... ele recebeu um castigo diferente. Suas asas permaneceram puras, brancas, uma lembrança cruel de sua antiga glória. Enquanto seus irmãos caídos exibiam suas asas negras como cicatrizes visíveis de sua falha, ele seria forçado a carregar o fardo de suas asas imaculadas, símbolo de uma honra que ele havia perdido para sempre.
"Ah, que cruel ironia", a entidade riu para si mesma. "Um castigo mais doloroso do que qualquer tormento físico. Enquanto seus companheiros caídos podem aceitar seu destino, Lúcifer é atormentado pelo brilho de suas próprias asas."
Ela observava a figura de Lúcifer em sua mente, o anjo caído, isolado, preso em sua própria existência. Para os outros caídos, ele ainda parecia um ser divino, um lembrete do que eles perderam, e isso os enchia de ressentimento. Mas para Lúcifer, suas asas brancas eram uma maldição, uma marca daquilo que jamais poderia ser redimido.
A entidade voltou seus olhos para o vazio à sua frente. "Tudo isso por causa de um princípio diferente. Uma diferença de visão entre criador e criatura... e todo um destino foi mudado."
O pensamento a divertia. O universo estava cheio dessas histórias, seres que tentavam desafiar o inevitável e que, no processo, eram destruídos ou transformados. E ainda assim, o ciclo continuava, como uma peça sem fim, onde cada ator assumia seu papel.
"Seria essa a verdadeira punição?" a entidade ponderou. "O fato de que, mesmo caído, Lúcifer não pode escapar da narrativa que ele próprio ajudou a criar?"
Ela fechou os olhos, permitindo-se mergulhar mais fundo nos pensamentos que a envolviam. Embora fosse uma entidade além do tempo e do espaço, o conceito de conflito entre criador e criação, poder e fraqueza, lhe fascinava. O livro à sua frente, com suas páginas douradas e bordas finamente desenhadas, contava essa história como um simples conto, uma lenda entre tantas outras.
Mas a entidade desconhecida sabia melhor. Sabia que, por trás de cada história, havia uma verdade profunda e poderosa, algo que transcendia a ficção. Lúcifer não era apenas uma lenda. Ele era um eco do próprio universo, uma manifestação do eterno conflito entre o poder supremo e a busca por liberdade.
"Essa história está longe de terminar", murmurou a entidade, deixando que sua voz se perdesse no vazio. A figura diante dela, majestosa e poderosa, fitava-a com desprezo. O Criador, o ser que governava o destino do universo, observava cada movimento com olhos que podiam ver tudo, mas que, naquele momento, não conseguiam perceber o verdadeiro poder da entidade diante de si.
A entidade, no entanto, não se deixou abalar. Seu sorriso se alargou, uma risada suave ecoando pelo espaço entre eles. Observava a narrativa do livro à sua frente, a história do filho que havia sido banido por seu pai. Lúcifer, o mais belo dos anjos, agora caído em desgraça. A ironia da situação a divertia imensamente.
"Seu sorriso me causa náuseas..." proferiu o Criador, sua voz carregada com a ameaça de um poder que podia obliterar a existência com um simples estalar de dedos. A imponência de suas palavras não perturbava a entidade, que permanecia imóvel, sua postura inalterada.
"Não fale assim," respondeu à entidade, com uma suavidade desinteressada. "Estou aqui depois de tanto tempo." O conceito de tempo, para ela, era algo difuso. Quantos anos, quantas eras haviam se passado desde sua última aparição? Para os outros, parecia que décadas, talvez séculos, vinham e iam. Para ela, eram meros instantes.
O Criador inclinou levemente a cabeça, seus olhos furiosos queimando com hostilidade. "Um ser misterioso que apareceu para meu neto há quinhentos anos... e, no entanto, eu não sinto seu poder. Isso não parece... estranho para você? O Deus Criador não consegue perceber um simples ser?" A voz dele transbordava desprezo, mas também continha uma curiosidade inquieta.
A entidade sorriu novamente. "Não estou associado a ****..." Deixou a sentença pairar no ar. O Criador sabia de quem ela falava. "Temos o mesmo objetivo."
"Você não precisa manter o fingimento," continuou o Criador, sua paciência desgastando-se. "Sabe que aqui somos apenas eu e você." Ele inclinou-se ligeiramente à frente, sua figura monumental ainda mais ameaçadora.
A entidade desviou os olhos momentaneamente, observando um anjo sentado à mesa ao lado do Criador. O anjo parecia alheio à conversa, focado em anotar algo em um grande livro, com uma expressão serena. Suas asas, envoltas em chamas azuis, pareciam pulsar com uma energia que oscilava entre a serenidade e o caos. "Aquele rapaz..." comentou a entidade, com um leve traço de sarcasmo. "Ele é tão reservado que normalmente seria o alvo de bullying."
Os olhos do anjo se ergueram brevemente, encontrando os da entidade, mas ela ignorou a troca. Não era relevante.
"Pularemos essa parte. Vamos ao que interessa." A impaciência na voz do Criador era clara. Ele queria respostas. Mas a entidade... ela estava no controle daquele encontro, e ambos sabiam disso.
Sem pressa, a entidade criou uma cadeira majestosa com um simples gesto de sua mão. Um trono digno de um monarca, e, ao sentar-se, materializou um balde de pipoca em sua mão, como se estivesse prestes a assistir a um espetáculo. Seus olhos, contudo, não estavam focados no Criador ou no anjo. Eles estavam voltados para o solo, ou melhor, para algo muito além dele. Um pequeno planeta ocupava seu campo de visão.
"Sabe," comentou a entidade, casualmente. "Esta é a minha parte favorita da história." O Criador seguiu seu olhar, percebendo o que ela observava com tanto interesse.
"Azrael?" A voz do Criador carregava uma mistura de frustração e desconfiança.
Um sorriso lento se formou nos lábios da entidade. "Exatamente."
A expressão do Criador tornou-se sombria. "Você não tentaria mudar a história novamente, certo?" Havia uma ameaça velada em suas palavras, uma advertência.
A entidade balançou a cabeça levemente. "Não tenho a intenção de fazê-lo." Sua voz estava tranquila, mas havia um subtexto nas palavras. Mesmo que quisesse interferir, não achava necessário. "Estou apenas observando o presente."
Seus olhos voltaram-se para a cena no planeta abaixo. Azrael estava com Eriel, entregando-lhe um pequeno relógio. O olhar de Eriel era de confusão enquanto tentava entender as palavras de Azrael. A entidade observava tudo de uma perspectiva quase voyeurista, uma testemunha de algo que já parecia ter acontecido antes.
"Isso é engraçado, não importa como eu veja." Uma memória vaga surgiu em sua mente, mas foi rapidamente descartada. Não tinha relevância. Suas atenções estavam completamente fixas em Azrael e Eriel agora.
O Criador continuava a observá-la, desconfiado, mas sem interferir. Ele sabia que, naquele momento, a entidade não era uma ameaça direta. Mas também sabia que qualquer movimento errado poderia mudar o curso de eventos que ele havia planejado meticulosamente.
"Você realmente acredita que pode apenas... observar?" o Criador perguntou, sua voz carregada de dúvida.
A entidade sorriu novamente, seus olhos cintilando com um conhecimento que transcendia eras. "Às vezes, observar é tudo o que é necessário."
O Deus Supremo, que antes demonstrava uma tensão evidente, pareceu relaxar ao perceber que a entidade não tinha a intenção de interferir diretamente. "Bom, deixaremos assim então." Sua voz ecoou com uma frieza calculada. Ele sabia que a linha do tempo seguia um curso frágil, e qualquer alteração poderia desestruturar o futuro de formas imprevisíveis. A presença da entidade, mesmo sem intenção de interferir, ainda era uma ameaça silenciosa.
"Sabe, tenho uma última pergunta..." O Deus Supremo inclinou-se levemente, seus olhos brilhando com repugnância. Ele não escondia o desgosto de estar na presença daquele ser. "Diga."
"Você consegue observar o futuro até certo ponto, não é?" A pergunta do Criador trouxe à tona memórias antigas, de um tempo em que sua visão sobre a entidade era completamente diferente. O primeiro encontro dos dois, muito distante no tempo, havia sido marcado por uma esperança equivocada. Naquela época, o Deus Supremo acreditava que o ser à sua frente seria o salvador de seu universo. A postura dele era diferente então — menos rígida, quase aberta à colaboração.
No entanto, ao perceber que os princípios da entidade estavam em completa dissonância com os seus, aquele respeito transformou-se em desprezo. O desgosto havia crescido com o passar dos séculos.
"Sim", respondeu a entidade, com um tom de voz quase indiferente.
"Eu não posso vislumbrar o seu futuro, então não tenho ideia de quem você é... Também não posso ver como será o início da grande guerra."
Ao ouvir essas palavras, algo profundo despertou na entidade. Seus punhos cerraram-se involuntariamente, como se uma lembrança dolorosa estivesse emergindo, não do passado, mas de algo que ainda estava por vir.
"Então você 'viu' a morte de–" O Criador começou a falar, mas a entidade o interrompeu bruscamente.
"Eu entendo a sua pergunta. Não preciso 'ver' o futuro para saber... A resposta é sim." Por um momento, algo profundo e sombrio escapou do controle da entidade. Uma fração de seu poder manifestou-se involuntariamente, fazendo o ar ao redor vibrar. A mudança foi sutil, mas o bastante para alertar todos os anjos que pairavam distantes, suas presenças invisíveis agora atentas.
O Criador percebeu a mudança instantaneamente. Seus olhos se estreitaram. O tempo da entidade ali estava se esgotando.
"Saiba que eu não vou te perdoar por suas escolhas. Tive o sangue dela em minhas mãos", continuou a entidade, sua voz agora impregnada de uma tristeza enraivecida. Ela ainda sentia o peso de uma perda, algo que sua divindade não conseguia remediar.
O corpo da entidade começou a se desvanecer lentamente, como se a própria linha do tempo estivesse empurrando-a para longe. Ela sorriu ao perceber isso. "Apenas o fato de você se sentir ameaçado com a minha presença aqui já é reconfortante." Suas palavras eram um veneno suave, ditas com um toque de satisfação maliciosa. "Viva com isso. O Deus Criador não pode ver o futuro que tanto anseia. Eu não vou lhe contar. Você nunca saberá se o futuro que busca é possível ou não."
Com essas palavras, a entidade desapareceu completamente daquela linha do tempo, deixando o Criador com suas dúvidas e frustrações. Ela havia vindo de um futuro modificado diversas vezes, onde o tempo e o destino eram maleáveis. Sabia que mudanças poderiam ser necessárias para alcançar o ponto exato do qual pertencia, mas nunca revelaria quais mudanças eram essas.
Azrael, pensou a entidade enquanto avançava para um novo momento no futuro, deve seguir o seu coração. Se em algum momento ele se desviar do caminho, eu não intercederei. Mesmo que isso resulte em um futuro diferente, certas escolhas são apenas dele.
Antes de deixar a linha do tempo completamente, seus olhos pousaram sobre Azrael e Eriel uma última vez. Eriel estava concentrada, observando o pequeno relógio entregue a ela por Azrael. O objeto parecia insignificante, mas ambos sabiam que sua importância ia muito além do que aparentava. Esse era um dos momentos cruciais, onde o destino poderia se inclinar de várias formas.
"..." A entidade permaneceu em silêncio, seu olhar profundo e penetrante, como se soubesse mais do que jamais revelaria.
"Um dia você pagará pelo que fez..." As palavras da Entidade ecoaram nas profundezas do tempo enquanto a entidade desaparecia completamente.
Quando se materializou em um ponto mais adiante no futuro, a entidade suspirou suavemente, já acostumada com a sensação de atravessar eras. Estava em um novo momento, uma nova oportunidade de observar — ou talvez aconselhar — Azrael.
"Estou começando a me acostumar com o meu novo poder..." pensou, enquanto contemplava as possibilidades infinitas que se desdobravam diante de seus olhos.
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Atualizado até capítulo 30
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