...Xiang...
Sempre me tinham dito que amar em segredo uma pessoa era a coisa mais difícil que se podia fazer. O sofrimento de ter um amor unilateral era dilacerante para quem o vivia, pois era uma dor atrás da outra, era um sentimento bastante agridoce. Eu sabia como era. pois vivia assim já à alguns anos.
No dia em que conheci o Dei foi no orfanato onde nós estávamos: eu era um miúdo que não me dava com ninguém, estava sempre fechado no meu quarto, ou quando as freiras me diziam que eu tinha de ir brincar com as outras crianças eu fazia o sacrifício de sair para apanhar um pouco de sol, mas mesmo assim ficava isolado no pátio.
O Dei, bem, com ele tudo era diferente. Os miúdos andavam sempre de volta dele, ele era giro,por isso chamava imenso à atenção. Os cabelos loiros dele faziam-no ser diferente de nós os miúdos chineses, só porque ele tinha ascendência americana. A mãe biológica dele era americana e o pai chinês. Ele era o centro das atenções, e quanto mais longe eu me mantivesse dele melhor. Mas não era bem assim que funcionava. O Dei estava sempre a livrar-me de confusões quando as crianças mais velhas se metiam comigo e quando eu ia de castigo ele fazia questão de me arranjar nem que fosse um bocado de pão seco para eu comer. Foi nessa altura que me apaixonei por ele.
Sim, eu sei. Sou um péssimo irmão, só lhe dou respostas más e deixo ele a pensar que ele é a última pessoa que quero ter na minha vida, mas isso é precisamente o contrário. Só preciso dele para ser feliz.
Um dia, estava eu sossegado no pátio a aproveitar a luz do sol e a ver ele a jogar à bola com alguns amigos quando recebi a notícia que tínhamos sido adotados. O meu mundo caiu naquele momento: eu nunca poderia dizer a ele que o amava, nem mostrar algum tipo de afecto sem ser o de irmão. Segundo as irmãs do orfanato era um pecado enorme. Eu ia acabar no inferno por causa disso. Por isso, desde esse dia que a minha vida virou um inferno.
Tive uma "sorte"enorme que o Dei também não gostou da ideia de ser meu irmão, pois mal começámos a viver juntos ele todos os dias fazia questão de me dizer que me odiava. Eu tinha a minha vida facilitada. Limitei-me a deixar que ele me odiasse. Dessa maneira não nos íamos aproximar e nem ia haver o risco de eu ceder aos meus sentimentos por ele.
Os anos foram passando e nós fomos crescendo. Eu tornei-me o irmão que ele nunca quisera ter e eu aprendi a esconder o que sentia por ele bem demais.
Quando estávamos na escola se ele se metesse em algum tipo de confusão eu tinha sempre algum amigo meu que me vinha avisar,e eu mais tarde ou mais cedo acabava por resolver a situação à minha maneira. Eu era o anjo da guarda dele invisível. Mas á frente dele eu não mostrava qualquer tipo de preocupação. Até podia ver ele apanhar de alguém que não me metia, mas no final do dia essa pessoa ia com certeza acabar no hospital da zona. Tinha de ser assim.
Um dia, do nada, reparei que ele estava a querer aproximar-se de mim. Andava sempre junto a mim; queria fazer parte do meu grupo de amigos e até almoçava comigo. Achei estranho isso, ele não era assim. Algo se passava. Nós não podíamos ser amigos.
Foi nessa altura que a Hannah apareceu na minha vida e me ajudou a voltar a ser a pessoa que o Dei mais odiava.
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Atualizado até capítulo 60
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