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O caminho até casa foi silencioso, mas só mesmo para Lei, porque eu podia jurar que conseguia ouvir o bater do meu coração. Já não era a primeira vez que Xiang se metia em confusões e quem acabava por o ir ajudar era eu, mas desde que ele tinha começado a ajudar o nosso pai em algumas transações ele corria sempre um risco maior, porque já era conhecido como o representante dele e que quem o quisesse atingir bastava atingir o Xiang.

- Ele foi a uma reunião com o novo líder da gangue de Jiaxing. O sujeito não é de confiança e eu já tinha avisado o teu pai, mas ele por vezes ignora o que lhe digo e mandou o teu irmão. Algo aconteceu...

- Jura... -disse irritado. - Ele para me ter dito para não comentar nada com o meu pai é porque ou está ferido, ou houve confusão.

- Vamos ter de informar o vosso pai. - disse-me Lei enquanto guiava a grande velocidade.

- Se o fizeres vai haver retaliação, vai haver uma guerra... - avisei Lei.

- Eu sei. Quando chegarmos ao pé do menino vemos o que se passou e aí tomamos uma decisão. Liga para ele para sabermos mais pormenores... - ele pediu-me.

- Já tentei. - respondi irritado, naquele momento eu já estava a imaginar todos os cenários possíveis, os mais sangrentos, tudo. Eu odiava que ele me deixasse preocupado com ele daquela maneira!

Chegámos a casa e  eu saí do carro mal ele o estacionou correndo para dentro de casa em desespero, mas mal entrei em casa vi pingas de sangue no chão que eram continuas até ao nosso quarto. Lei vinha logo atrás de mim e desviou o caminho dele até á cozinha.

- Vou buscar o kit de primeiros socorros! - gritou para que eu continuasse até ao quarto.

Sou sincero, antes de entrar no quarto respirei fundo, o meu coração estava apertado, eu estava em desespero, mas não sabia se tinha coragem ou se até mesmo ia aguentar ver a gravidade dos ferimentos de Xiang.

Entrei no quarto e as luzes estavam acesas, Xiang estava deitado em cima da minha cama, tinha golpes de faca no rosto, mas não eram profundos e num dos braços no antebraço tinha um golpe profundo. Ele tinha posto compressas para travar o sangramento, mas as compressas já estavam ensopadas em sangue.

- Ei!!! - chamei-o quando me cheguei ao pé dele. -Acorda! Chamaste-me para te ajudar e agora estás a durmir! - ele não abria os olhos e eu já estava a entrar em pânico. Lei entrou no quarto com o kit e viu que ele estava adormecido.

- Menino acorde. - disse ele calmamente sacudindo ligeiramente Xiang, mas ele continuava a durmir.- Se ele continuar a durmir vamos ter de chamar o vosso pai. - disse-me Lei preocupado.

- Nada de pai... - ouvimos ele dizer baixo.

- O que aconteceu? - perguntei mal o ouvi falar.

- Nada demais, depois falamos sobre isso. - ele disse para tentar desviar o assunto. Eu ia a insistir, mas Lei fez-me sinal para que eu não puxasse muito por ele.

- Preciso que me diga onde estão os ferimentos. É só no braço? - perguntou Lei e Xiang acenou com a cabeça. - Vou ter de chamar o médico que normalmente nos trata quando são estas situações. Não o sei cozer. - Lei ia a levantar-se para chamar ajuda quando Xiang abriu os olhos e com uma mão puxou-me pelo casaco falando-me ao ouvido.

- Não o deixes chamar ninguém.

- Estás delirante! - reclamei ao tentar que ele me soltasse.

- Faz tu! - ele pediu a olhar sério para mim -  Não consigo fazê-lo sozinho. O médico é amigo do nosso pai, em menos de nada ele vai saber o que se passou.

- Há aqui algo que ainda não percebeste! - exclamei.-  O pai vai saber o que se passou de qualquer maneira! Foi uma briga dentro do nosso gangue! Era uma negociação de território que correu mal!

- Não... - ele disse- Foram situações diferentes...

- Como assim? - perguntei ao mesmo tempo que Lei ficava parado que nem uma estátua ao pé de mim para conseguir ouvir a explicação dele.

- O líder aceitou os territórios todos que propus, e podes ter a certeza que ele não vai falar do assunto com mais ninguém...

- Estou a perder a paciência contigo, fala de uma vez o que se passou senão ligo já para o pai!

Xiang revirou os olhos e suspirou irritado.

- Ele queria que eu durmisse com ele. Assim que entrei no território dele ele viu-me como a próxima presa dele. Ele é um predador, apenas isso, mas correu-lhe mal. Eu odeio que se metam comigo dessa maneira, muito menos um homem.  - ele respondeu envergonhado.

Sensações, resultados, sentimentos, sei lá. Naquele momento havia ali muita coisa misturada quando voltei a falar: orgulho, e tristeza. Orgulho por ele ter sabido defender-se daquela situação e não ter deixado um louco tocar nele; e tristeza por ter pensado que algum dia ele poderia vir a olhar para mim, sem ser como um irmão, quando claramente não ia acontecer.

- Certo, contigo ninguém se mete. - acabei por lhe dizer enquanto Lei me passava agulha e linha.- Acho que ele vai manter-se calado, tens razão.

Quando a agulha perfurou a pele dele eu não senti nada: parecia que o meu coração tinha deixado de sentir o que quer que fosse e ver a expressão dele de dor não alterou isso em nada. Era por isso que eu o odiava tanto: ele tinha-me feito amá-lo em vão.

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