Estava pensando há semanas em ir até as autoridades, mas Juliana me desencorajou. Ela, junto com as garotas do prédio, seria incriminada, já que os documentos que assinaram as envolvem de alguma maneira. Não seria possível formalizar uma denúncia.
— Estou indo, não me espere acordada. — Juliana saiu, toda arrumada.
Eu me arrumei e pedi um carro por aplicativo para ir até a boate.
Quando cheguei, não fui barrada na porta. Estranhamente, parecia que os seguranças já me conheciam.
Andei pelos corredores até chegar ao bar da pista de dança. Sentei-me e observei os camarotes nos mezaninos.
— Estou bem aqui, está me procurando? — A voz de Jason, bem próxima ao meu ouvido, fez meu corpo arrepiar.
Virei-me e o encarei, com um sorriso discreto e um olhar de desejo. Minha boca secou ao olhar para aquele homem.
— Não. Vim ver Amélia. Pode chamá-la para mim, querido? — Toquei levemente o peito dele, sentindo seus músculos firmes.
Ele respirou fundo e tocou o rádio no ouvido.
— Dama no bar — disse ele.
— Podemos sair daqui depois, ou, se quiser, nem precisamos sair — disse ele, com um sorriso. Seu olhar percorreu meu corpo, e senti um calor tomar conta de mim.
— Ma chère, que bom te ver por aqui!
Amélia apareceu na frente de Jason e falou em português, com um sotaque carregado.
— Tenho um assunto para tratar com a senhora — falei, e ela sorriu.
— Me chame de Amélia, chère. O dinheiro que gasto no meu rosto é para não me chamarem de senhora!
Ela fez sinal para que eu a seguisse. Jason ficou no bar, e trocamos alguns olhares antes de eu desaparecer com ela por uma porta ao lado.
Eu nunca tinha sentido essa tensão, esse desejo. E logo eu, que fui tão apaixonada antes.
Entramos em uma sala decorada em vermelho e preto, moderna e elegante. Ela se sentou em uma poltrona grande e fez sinal para que eu me sentasse em frente a ela.
— Então, ma chère, qual é o seu desejo? — Ela cruzou as mãos, mostrando suas longas unhas pintadas de vinho.
— Tenho uma proposta para você! — Ela sorriu, esperando mais detalhes.
— Quer ser minha danseur de feu? "Bailarina de fogo?"
Ela abriu um sorriso ainda maior, como se tivesse ganhado na loteria.
— Sim — respondi.
— Ótimo. Tenho alguns documentos para você assinar e vou precisar ver seu passaporte, ma chère.
Sorri.
— Não!
Ela me olhou surpresa.
— Comment pas? Vous vous moquez de moi, ma chère?
— Como assim não? Está brincando comigo, minha querida?
Ela ficou um pouco vermelha, e acho que, se não fosse pelos procedimentos estéticos, suas feições estariam bem diferentes.
Respirou fundo e voltou a me olhar, agora com menos simpatia.
— O que você veio fazer aqui? — Ela se levantou e se apoiou na mesa, na minha frente.
— Quero saber se posso dançar, mas apenas para pagar o contrato de Juliana — ofereci. Ela cruzou os braços e me olhou dos pés à cabeça.
— E você sabe dançar, ma chère? — Cruzei as pernas, mostrando minhas coxas na fenda da saia.
— Não viria com essa proposta se não soubesse.
Não sei de onde surgiu essa nova atitude em mim, mas estou determinada a ajudar minha amiga.
— Vamos fazer o seguinte: um teste. Vou te colocar no palco principal hoje. Se for bem aceita, voltamos a conversar.
Não imaginava que ela me colocaria para dançar hoje. Nem ensaiei! Como vou fazer isso?
— Ainda dá tempo de desistir, ma chère! — Eu firmei o sorriso e me levantei.
— Não, eu não volto atrás no que digo!
Ela sorriu como se tivesse encontrado algo de muito valor.
Segui-a pelos corredores escuros da boate até que paramos em frente a uma porta com a placa "costume" (figurino).
— Entre e escolha o que quer usar. Em vinte minutos, mando um segurança te buscar.
Assenti e entrei. Havia uma moça sentada ali, provavelmente para ajudar a escolher ou vestir as fantasias. Pelas araras carregadas, tinha de tudo.
Entrei e fiquei indecisa. Como cheguei aqui?
Eu vou fazer isso!
Eu vou tirar a Juliana desse lugar!
— Posso te ajudar?
A voz doce da francesa chamou minha atenção.
— É minha primeira vez, não sei o que escolher.
Ela pegou um cabide coberto e me mostrou.
— Recomendo esse. Você vai se sentir mais confortável para subir ao palco.
Analisei as peças, me vesti e me senti outra pessoa.
Reforcei a maquiagem e escolhi uma máscara. Seria essa minha apresentação.
Vinte minutos depois, a porta se abriu. Jason, agora de terno preto, parecia sério.
— Vamos, vou cuidar de você.
Ele deixou a porta aberta e me deu passagem. Saí da sala e ele indicou o corredor à direita.
Caminhei, ouvindo o som dos meus saltos no chão de mármore.
— As regras são: ninguém te toca sem permissão. Você pode tocar neles, se quiser. E, se aceitar algum programa, a casa fica com setenta por cento.
Congelei no lugar e ele esbarrou em mim.
— O que foi? Achou que seria fácil?
Virei-me e o encarei, estreitando os olhos, aproximando meu rosto do dele. As luzes vermelhas do corredor permitiam ver seu olhar focado na minha boca.
— Não gosto de nada fácil. Não estou acostumada a isso!
Aproximei-me mais, e tenho certeza de que ele queria me beijar.
Virei-me de repente e segui em frente, agora com mais confiança.
— Essa não sou eu! — repeti para mim mesma, me aproximando da porta com o número um.
Jason tomou a frente e abriu a porta. Havia uma garota se apresentando em um palco menor, usando apenas uma fantasia mínima e pendurada em cordas.
Olhei para a plateia. Alguns homens estavam completamente absortos do que acontecia no palco, apenas bebiam e conversavam.
Ela finalizou, e alguns poucos da plateia aplaudiram.
— Meus queridos, gostaria de anunciar uma novidade. Uma moça muito especial veio do Brasil para iluminar nosso palco. Espero que ela ganhe não só o coração de vocês, mas também suas carteiras.
As palavras dela chamaram a atenção dos homens, que voltaram os olhares para o palco principal.
Amélia se aproximou de mim.
— Como devo te chamar, ma chère?
— Malí! — Foi o primeiro nome que me veio à mente.
— Com vocês, a doce e envolvente Malí!
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Atualizado até capítulo 83
Comments
Marcia Estevo
Gostando da história mas cadê o homem do avião, será que eles vão se encontrar novamente?🌹🌹🌿🌿🌿🌹🌹🌹🌷🌷🌹
2025-01-31
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Elis Alves
Será que a Juliana quer realmente sair? Sei lá
2025-01-08
1