Reino de Aquaria - Província de Corais
— Chegamos — disse William para a surpresa dos dois que o acompanhou.
Para Leona e Leônidas era muito estranho a sensação de viajar através das dimensões daquela forma, para eles o normal seria se quer ver toda aquela encenação cósmica como num abrir e fechar de olhos, mas ver tudo aquilo ao vivo era bem desconfortável ao cérebro.
— Bom, no meio do caminho fechei os olhos e não vi nada do que aconteceu, mas tudo bem — disse Leônidas bem animado por saber que estava bem.
Leônidas conferia todo seu corpo, afinal era a primeira vez que viajava dessa maneira, então cogitou a possibilidade de ter perdido algum membro ou algo assim.
— Em um instante estávamos lá, agora estamos aqui, porém diferente da técnica usada pelos magos dimensionais, hoje podemos ver como é o interior dessa magia — observou Leona a incrível habilidade do rapaz — impressionante,
William estava cansado como a muito tempo não ficava, porém como um bom guerreiro mostrar aquela fraqueza era desnecessário, apesar de saber que o suor frio era o que corria seu corpo agora.
— Bom, vamos lá — disse ele.
Embora completamente cansado, William insistiu e deu um passo à frente, como resultado seu corpo pendeu um pouco para o lado, assustando aos dois que ao tentar de alguma forma ajudar, foram impedidos com apenas um simples gesto de mão, William negou ajuda.
— Está bem jovem príncipe? — Perguntou Leônidas.
— Sim, sem problemas. Agora vamos — disse ele fazendo um novo movimento.
William como um verdadeiro príncipe deu um passo para enfrentar o seu futuro, mas também um passo para enfrentar seu passado, pois apesar de tudo, por trás de toda a calma que exibia diante deles, dom que ele sempre deixava claro para Nemesis que aprendeu de sua mãe, o garoto fervia em fúria com tudo o que lhe aconteceu, e ver todas aquelas ruínas do que um dia foi uma belíssima cidade de rios e lagos que corria pelo seu interior, da fascinante vista para o mar, potencializava nele um sentimento de impotência e ódio.
Entre uma ruína e outra Leona pode ver o que restou dos grandes edifícios da cidade, lugares que um dia serviram de casa para os grandes ministros de Aquaria, força militar, ciências e escolas, comércio e guilda, a garota pode ver também o que havia restado de uma praça importante da cidade, árvores secas, causadas pela queda forçada e outras queimadas, mais a frente ela podia ver o que restou das casas de habitantes daquele lugar, todas queimadas, apesar do céu azul e da brisa suave no ar, algo natural em regiões beira-mar, aquele lugar era desolador só de olhar. Depois de 15 minutos de caminhada eles puderam ver mais a frente soldados do Império de Vale Elíseos e sobreviventes que trabalhavam na reconstrução da cidade e recuperação do que poderia recuperar. Naquele momento atenção dos soldados que faziam guarnição e também de alguns outros que trabalhavam na limpeza se voltaram aos três que se aproximavam.
— Senhor Leônidas! O que o trás aqui com essas crianças? — Questionou o mulher Trajada em uma roupa militar branca com detalhes de tecido negro nas laterais, algo que lembrava uma espécie de sobretudo — aqui não é lugar para gente despreparada senhor, sinto lhe dizer, mas preciso que retire esses dois estudantes daqui, por enquanto está tudo calmo, mas não sabemos quando o inimigo tornará a nos atacar.
Leônidas mirou seus olhos avermelhados na mulher, que fiscalizava os trabalhos dos soldados da reserva e dos soldados de guarnição e sorriu de suas palavras.
— Vejo que ficou muito tempo aqui Amélia. Já não reconhece mais o rei desta cidade, mesmo quando foi você mesma quem o ajudou no dia que o salvou? Esqueceu da fisionomia do povo sereiano? — Disse o homem.
A mulher então deu um passo atrás ao perceber que o menino a sua frente era o príncipe herdeiro do trono de Aquaria e aquilo mexeu muito com ela, pois suas palavras teriam sido um pouco arrogantes segundo o seu julgamento, afinal quem poderia imaginar receber aquela visita sem aviso prévio? Por outro lado, apesar de ser um início de manhã, Amélia, já estava cansada em razão aos dias ali fazendo o máximo que podia para ajudar até mesmo os próprios trabalhadores, por tanto, era lógico dizer que ela poderia ficar sem atenção em algum momento. Sendo assim, ela não pensou muito e imediatamente baixou o rosto evitando contato visual.
— Está tudo bem, não se preocupem com isso, não tenho muito tempo com formalidades — disse ele puxando o fôlego novamente.
Leona já estava em um estado de atenção total, esperando o menino cair, não que desejasse isso, mas porque o comportamento dele demonstrava isso, por essa razão já começava a se aproximar mais dele, e William como inteligente que era, já havia observado que ficava claro que seu corpo estava cansado do desgaste de energia.
— Está bem, senhor? — Questionou Leona.
— Sim, obrigado, mas não se preocupe — disse ele enquanto os três enxergavam claramente como ele estava exausto — bom, em primeiro lugar obrigado por tudo que estão fazendo ao que foi o reino, ainda não sei como lhes agradecer, mas vocês serão recompensados — completou ele.
A mulher com um gesto de respeito curvou-se, pois foi a melhor forma para agradecer.
— Senhor, minhas sinceras desculpas pelo meu comportamento. Posso ver que teve um caminho longo até aqui, porém também lhe agradeço por tudo, não fizemos mais que a nossa obrigação, não é necessário que nos dê algo, em especial também, apenas sou grata por poder ajudar. Era o que meu pai faria, muito obrigada meu senhor – revelou a mulher.
William se sentiu um pouco sem reação ao escutar a mulher, que se quer percebia que William se comunicava com ela através da telepatia.
— Ele não gosta muito disso Amélia, vamos conte-nos os detalhes, viemos aqui para isso. Acredito que o jovem príncipe não pode demorar muito — disse o general vendo o estresse expressivo no menino.
— Fique de pé, por favor não se preocupe com formalidades. Poderia contar como está o andamento da restauração? Além disso, gostaria de saber como meu povo está ajudando? — Disse ele.
De pronto a mulher ficou de pé novamente.
— Sim senhor, me acompanhem — disse a mulher caminhando em direção às obras de restauração, das primeiras casas e acessos — Infelizmente perdemos milhares, muitos dos corpos foram encontrados sobre os escombros, outros jogados nas ruas e etc, não acho coerente detalhar demais esse assunto, mas tivemos que fazer um grande enterro, senhor. Até os dois últimos dias não encontramos mais nenhum e não achamos que iremos encontrar mais alguém. Infelizmente preciso lhe dizer que os corpos de seus pais ou de seus irmãos, não foram encontrados, acho pouco provável que os encontraremos sinto muito — dizia ela enquanto caminhava.
William escutava tudo em silêncio, cerrando os punhos a cada palavra que escutava da mulher, porém naquele momento era melhor buscar se manter calmo e escutar tudo em silêncio absoluto enquanto caminhava analisando tudo a sua volta.
— Bom, continuando. O que encontramos e podemos aproveitar, usamos, ferramentas, locais, alimentação, água, parece que o alvo deles era apenas os habitantes e armamentos. Temos razões para acreditar que o império de Nebula é o mandante de tudo isso e riquezas não era o foco — dizia ela imaginando quais seriam o verdadeiro interesse deles — Aqui estamos preparando algumas casas, sei que nada se equipara aos edifícios únicos que esse reino possuía, mas ordenei aos melhores soldados com o auxílio do povo Aquariano cuja as técnicas baseiam-se em geo-habilidade em dobrar os minerais, ferro e rochas para construir caminhos seguros e casas onde os habitantes sobreviventes poderão voltar aos poucos e recomeçar. Ainda temos muito a fazer, mesmo agora depois de três meses conseguimos limpar quase toda a cidade de Corais inclusive o lugar onde havia castelo está quase pronto para poder reconstruir os alicerces. As questões que precisamos resolver são sistemas de esgotamento, abastecimento hídrico e os campos de plantações que para nós é difícil, pois as técnicas que esse reino usa tornam tudo mais fácil para os habitantes, porém desconhecido para nós, precisaremos de seu auxílio nisso meu senhor ou as coisas ficarão difíceis para todos. Colocaríamos essas últimas necessidades agora no relatório desta semana, é uma grande oportunidade tê-lo aqui pessoalmente — dizia ela enquanto caminhava vagarosamente.
William seguia ao lado da mulher sem dizer uma só palavra imaginando como tudo o que um dia era tão belo e agradável aos olhos, estava completamente destroçado.
— Entendi, não se preocupe, ainda hoje pela manhã estive em conversa com o Imperador e falamos disso, daqui há alguns dias virão mais pessoas da terra, pessoas capazes de lhe ajudar na infraestrutura do reino. Nessa missão eles compartilharão técnicas para que possam aplicar no Império Vale Elíseos, será uma forma de pagamento também — disse o menino um pouco mais forte.
— Ainda hoje pela manhã? — Sussurrou a mulher buscando entender como ele fez isso.
— Não pergunte. — Leônidas apressou-se em responder.
— Foco. — Disse William. — O que importa é que já organizei tudo com o império para que possam ter mais auxílio.
A mulher se animou porque para todos os habitantes do império e dos demais reinos vizinhos, Aquaria era um reino cuja a forma de vida cotidiana estava a frente de seu tempo, com uma infraestrutura e segurança impecável, mesmo a higiene de seus habitantes era de despertar a atenção, assim como sua educação para jovens e crianças e os distintos padrões de beleza e vestimentas, entre outras muitas coisas que fazia daquele reino uma pérola na mão dos mais ambicioso.
— Muito bom senhor, o império só tem a agradecer. Bom, continuando, o porto tem acesso direto ao centro da cidade e ao castelo isso foi um problema, porque o exército sombrio tinha consigo criaturas venenosas que deixaram as águas e a terra tóxicas através de um tipo de neblina, fazendo assim ar aqui ficar tóxico, porém só após duas semanas, após a expulsão e extermínio total dessas criaturas é que descobrimos que a flor da noite ou flor do luar uma planta ornamental que nasce no pé das cordilheira oriental de Aquaria seria capaz de reverter a alta toxicidade das substância deixando as águas potáveis e a terra saudável para o plantio e ar saudável, porém a quantidade que usamos foi tão grande que quase acabamos com todas, infelizmente por nossa ignorância ao uso em larga escala, receio que não temos muitas mudas ainda, precisamos cultivar o mais rápido possível desta flor para continuar a descontaminação, e devo admitir que no meu erro de cálculo até agora o que usamos foi apenas na capital real de Corais, que já está quase toda sarada e em outras duas grandes cidades do reino, Ondas e Pérola o problema são as outras pequenas cidades e vilas que constituem o reino Aquaria — Dizia a mulher.
William escutava tudo calculando tudo.
— Entendi muito bem, o pessoal que virá cuidar da infraestrutura é capaz de orientá-los, com tudo isso. Não se preocupe, temos pessoas qualificadas para lhe ajudar — disse ele parando e mirando seus olhos na menina de cabelos negros — Leona, sei que veio até aqui para me proteger, mas gostaria de fazer um pedido a mais — concluiu ele se virando para a jovem mulher.
Leona como um soldado e também como alguém cujas habilidades foram reconhecidas e julgadas necessárias, se moveu para aquele que já considerava seu senhor.
— Sim senhor, estou a sua disposição — disse ela trajada em suas roupas de empregada.
— Muito bem, como sabe aqui há muito trabalho, gostaria que conversasse com o responsável de obras, nesse caso a senhorita Amélia, desejo que escreva todas as necessidades que eles precisam. O povo de Aquaria a partir de hoje ajudará de forma mais efetiva, então não deixe nada escapar. Pode fazer isso? — Questionou ele parecendo um pouco ansioso para os três.
Como um bom soldado Leônidas percebeu a agitação no garoto, até parecia que ele gostaria de se livrar logo daquele assunto para fazer algo que considerava importante, claro o homem estava correto.
— Sim, senhor William — disse a jovem mulher.
William riu e mirou seus olhos em direção ao lugar onde havia o antigo castelo.
— General Amélia, peço que dê todas as informações necessárias a Leona, ela é de minha total confiança. Agora preciso fazer algo no local do antigo castelo — disse ele à mulher.
A curiosidade afrontava os corações deles.
— Sim senhor. Mas me desculpe a curiosidade ou intromissão, como preferir chamar, mas o que fará na área do castelo? Sei que o local está seguro, mas ainda pode haver algum desabamento — Questionou a mulher desta vez, mirando os olhos castanhos no menino.
Ele começou a rir.
— Sabe o que é mais curioso nisso tudo? — Indagou o menino.
A mulher nada entendeu.
— Do que fala senhor? — Questionou ela.
Leônidas gargalhou.
— Você ainda não percebeu que o jovem príncipe é mudo, e que ele está se comunicando com você através de telepatia — o homem riu — ao que entendemos ele só consegue dialogar com alguém através da telepatia. O que você escutou até agora dele veio tudo de sua mente — falou o homem surpreendendo a mulher que o caminho todo só falava olhando para os lugares afetados, e não dava a atenção ao ponto que mesmo após parar teve que escutar do general a sua frente que ele era mudo — Digo mais, os poderes dele baseiam-se em leitura Etérea, quanto mais forte o candidato, mais fácil a comunicação, porém além disso seus poderes estudam a pessoa, como se a escolhesse. O mais importante de tudo, se até agora o príncipe confia em você, por que precisa fazer essas perguntas? Imagino que a menina aqui pode lhe ajudar a anotar todas as informações, vá com ela e deixe comigo essas preocupações, pois estou aqui para acompanhar o jovem príncipe em sua missão. Alguma dúvida?
— Perdão, meu senhor, não foi minha intenção desrespeitá-lo!
— Está tudo bem. Vou aos escombros do castelo e irei restaurá-lo na pedra do Rei, não se preocupe com isso — falou ele surpreendendo a todos que não esperavam por isso — por favor dê a ordem de evacuação agora.
Leônidas voltou seus olhos que pareciam turquesa para o menino com bastante preocupação em suas palavras, afinal para começar o assunto, que loucura era essa de reconstruir o castelo?
Embora o general achasse loucura as palavras do menino, o homem também temia que aquilo fosse uma realidade, pois se levá-los ali foi uma realidade inimaginável e também uma realidade que havia lhe desgastado muito, agora quanto mais erguer uma coisa colossal como aquele castelo.
— Do que está falando, jovem William? — Questionou o homem com certa altivez em sua voz — veja bem aquela sua habilidade lhe desgastou de alguma forma, acho que não seria bom tentar essas coisas agora, por enquanto é melhor voltarmos, é isso que sugiro ao futuro Rei coroado.
O menino mirou seus olhos roxos como safira no homem que baixou sua visão para não olhar em seus olhos diretamente.
— Não se preocupe, vamos logo. A ideia aqui é facilitar a vida dos operadores de obra e a segurança deles. Essa cidade contém um sistema baseado em habilidade com linhagem nobre de minha família e dos dois grandes clãs do reino que permite que o castelo e as habitações próximas sejam reconstruídas, não é muita coisa, infelizmente não trará ninguém de volta a vida e nem metade dessa cidade será restaurada, o que dirá todo o reino, mas posso dizer que isso ajudará muito a vida dos nossos amigos aqui. Vale lembrar que há pessoas que nasceram aqui e hoje moram em Vale Elíseos como habitante, sem ser um refugiado, há outros que vieram de outros reinos e do próprio império que tomaram mulheres ou maridos e constituíram uma família e que hoje moram fora daqui desejando voltar para que unidos a nós, os refugiados, restauremos a história e a cultura desse lugar, por isso vim, pela vontade dessas pessoas. Não vale a pena perder tempo, então pela última vez peço, por favor que fale a todos que deixem as proximidades do castelo — concluiu ele.
A mulher mirou os olhos no menino que daqui um dia se tornaria um homem e o admirou, afinal tinha a coragem necessária para ser um bom rei.
— Muito bem. Não discutiremos mais. Bartolomeu! Toque o sino e dê a ordem para que todos deixem o local do castelo e as proximidades. Ordene que todos fiquem aqui, na praça central! — disse a mulher ao homem que portava uma armadura reluzente.
— Sim senhora!
O homem sequer questionou a mulher e logo correu em direção ao grande sino que ficava sobre uma base de madeira onde subiu e pegou algo como uma barra de aço pesada presa a uma corda que o sustentava. Seguindo as ordens da mulher o homem bateu o instrumento no sino que gerou um ruído altíssimo permitindo que todos os que estavam fazendo as últimas limpezas da área do castelo escutassem e fossem até a área da praça, pois essa era a regra primordial comparecer no lugar da praça sempre que o sino tocava, isso era uma ordem absoluta onde todos sem exceções deveriam se dirigir ao centro da praça que ficava a uns 800 metros dali.
Logo depois de uns 10 minutos todos já estavam posicionados no centro da praça, cerca de uns 70 homens e mulheres que cooperavam entre si para facilitar o trabalho. Embora não soubessem ainda de que o assunto se tratava, logo ficaram sabendo que precisavam deixar aquela área para sua própria segurança.
— Já que está irredutível quanto a isso, então o mínimo que posso fazer é lhe acompanhar jovem príncipe — disse o homem.
— Muito bem — disse o menino exibindo a todos uma energia que não costumavam ver tão facilmente — me siga General Leônidas, e Leona por favor quando voltarmos do castelo reconstruído, já será o momento do nosso retorno ao palácio imperial. Deixo tudo em suas mãos a partir de agora.
— Sim senhor — disse ela com a mão sobre o peito.
William e Leônidas seguiram ao antigo castelo de Corais enquanto todos descansavam, comendo ou bebendo algo em um lugar de sombra para que ao término do trabalho de William todos voltassem a trabalhar. Claro, a maioria só não sabia que William era o príncipe, apesar dos muitos aquarianos ali presentes e das roupas óbvias que usava.
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Atualizado até capítulo 44
Comments
luisuriel azuara
Não me deixa na mão, autora, quero ler mais! 😌
2024-04-23
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