Ruínas do castelo de Corais
— Bom, chegamos. General se quiser voltar ainda dá tempo, será perigoso a partir daqui e não quero ser responsável de nada — brincou o rapaz.
O homem gargalhou e cruzou os braços.
— Sabe, se me permite você é um verdadeiro príncipe, arrogante. Vamos começar logo com isso — disse o homem.
William riu e deu um passo à frente. Outrora o local onde estavam era o marco zero da cidade, conhecido como a Pedra da Purificação ou simplesmente a Pedra do Rei, uma grande jóia azul com algo semelhante a uma luz branca em seu interior que flutuava de um lugar a outro suavemente como uma bruma nos primeiros minutos da manhã ou como um espírito pacífico. Segundo o que a tradição dizia, mas ninguém da plebe de fato sabia, era que logo abaixo do pedestal onde a grande jóia habitava, havia outras sete jóias que formavam um círculo em torno dela, porém era muito mais que isso, segundo seus pais eram sete gemas de cor lilás que servia como uma espécie de escudo invisível capaz de alterar decisões de qualquer indivíduo que tentasse roubar a jóia principal, uma forma de convencimento terrível que fazia os ladrões por vontade própria regressar para seus países. Nessa jóia também havia o poder milenar dos reis e rainhas armazenado em seu interior, a energia Etérea da alma de cada um que foi escolhido no passado, por tanto, era possível afirmar que aquela joia tinha consciência.
Capaz de criar ou recriar, aquelas pedras detinham um poder absoluto e só eram ativadas ou manejada com a relíquia do rei ou da rainha, uma arma ou um acessório criado para comandar os mares e tudo mais que pertenciam aquelas terras, William era um caso à parte, pois receberia sua relíquia de seus pais no dia que atingisse a maioridade. Todavia, com os fatos ocorridos o garoto agora seria forçado a despertar o poder ancião que se quer tinha controle e se quer sabia como usar, porém, ele ainda precisava despertar seus dons.
— General Leônidas se não vai mesmo se afastar sugiro que crie uma espécie de proteção, a mais poderosa que puder — disse ele estendendo as mãos em direção ao chão.
Leônidas deu outra risadinha.
— Já estava me preparando pra isso desde o início. Não sei que loucura precisa fazer aqui, mas não quero morrer e não posso deixá-lo morrer, mas ficarei por perto — disse o homem.
— Não morrerei — disse ele.
Leônidas gargalhou e cruzou os braços novamente, em seguida fez sua áurea explodir em chamas ardentes de cor vermelha, um atributo espiritual avançado que cobria todo seu corpo, agindo como uma espécie de escudo defletor.
— Estou pronto. — Comentou o general.
Embora não soubesse o que faria o menino, Leônidas ficou na expectativa, afinal famílias reais e nobres tinham poderes únicos que os tornavam privilegiados e praticamente intocáveis, o óbvio era que no caso de William seus poderes não lhe fazia muito bem, ao fazer o uso deles e por si só, isso era estranho, pois todo aquele poder nele se quer parecia uma vantagem, mas um infortúnio.
William ficou em silêncio diante da jóia como se estivesse em transe, em um mundo distante, onde só ele existia e só ele sabia o caminho de entrada e saída, num lugar onde só ele era capaz de enxergar e escutar o que havia ali. Depois de algum tempo William novamente abriu seus lábios para falar, mas o que antes parecia apenas um som irritante e ensurdecedor, agora mais parecia que todo o céu iria se rasgar, pois os tons agudos de sua voz se misturavam aos tons graves de forma ensurdecedora machucando o tímpano de todos, que a distância, na tentativa inútil de observar, se assustaram como nunca em suas vidas. Mesmo Leona que seguia as ordens de William, deixou de pegar as informações com Amélia instantaneamente ao escutar aquele estrondo horrível, não acreditando que o menino iria fazer algo que ainda pudesse prejudicar sua saúde.
Vale Elíseos, Salão do trono Imperial.
— O que foi isso? — Sussurrou Nemesis para sua mãe que estava assentada ao seu lado na sala do trono.
— Imagino que foi um trovão e depois já vamos começar. Dê mais atenção aos seus candidatos — falou a mulher com um sorriso no rosto.
Ao contrário de sua mãe que estava completamente entusiasmada com aquela cerimônia, Nemesis estava sentindo-se desconfortável e naturalmente levou a mão no peito, uma vez que sentia um aperto forte.
— Não está nublado — Sussurrou ela só pra si ao observar que céu estava tão azul quanto a Água Marinha mais lapidada.
Aquaria, capital real de Corais
Leônidas a muito custo assistia em silêncio o garoto usar suas habilidades, afinal até ele que tinha anos de experiência sabia que aquilo mais tarde lhe faria sentir uma dor de cabeça completamente desnecessária.
Aquela altura o som ensurdecedor também fez com que parte dos homens e mulheres mais fracos em suas habilidades se afastassem o máximo que podiam, buscando evitar ficar próximo dali, pois além do medo que sentiam em seus corações, seus corpos por si só já se sentiam desconfortáveis, com dores, vômitos, fadigas entre outros coquetéis de desconfortos.
— Guardas e magos afastem os trabalhadores que se sentem mal. Isso está sendo causado pelo excesso de energia que o príncipe está liberando! — Disse Amélia rapidamente ao ver as reações de seus subordinados.
William então fechou seus lábios e seus olhos, em seguida abriu a mão direita em direção ao céu e por fim como se não bastasse ele começou a falar um idioma estranho, um idioma que Leônidas apenas conseguia identificar sua origem, pois independente do que tentasse, seus lábios jamais conseguiriam pronunciar tais palavras.
Embora não pudesse falar e compreender o idioma que dizia os lábios do menino, Leônidas sabia que a língua que ele pronunciava em seus lábios era uma "língua morta", uma língua muito antiga chamada A Voz do Mundo, que acreditava ser uma língua única e original que foi perdida de alguma maneira, a língua que criou as outras línguas, porém para aquele menino aquilo lhe era tão natural quanto o ar que respiravam. A realidade era que, Leônidas era a primeira pessoa de fora que assistia a "coroação real", sim, pois aquela cerimônia ritualística era fechada a qualquer tipo de público externo e jamais comentada de forma aleatória entre os principais dos habitantes, em geral quando o trono era passado a outro daquela maneira, todos os principais dos habitantes do reino cooperavam entre si para manter segredo absoluto, além disso somente jovens que acabaram de conseguir a maioridade e dignos poderiam assistir aquele momento, pois por intervenção da própria Pedra da Purificação quem não era digno nem força tinha em suas pernas para se aproximar dali, aquela lei era primordial, inclusive na cerimônia de coroação, três dias antes ninguém entrava na cidade principal e todos os estrangeiros, comerciantes, visitantes e outros eram retirados, pois somente aqueles com a "marca do rei", a marca da pureza, poderia transitar livremente pelas principais áreas da cidade drasticamente protegida, além de tudo isso lei é lei, porém o povo também contribuía muito com o orgulho patriota que protegia sua cultura ou seja mesmo que o habitante não fosse considerado digno ele ainda buscava respeitar as tradições.
— O que está acontecendo? — Se questionava Leônidas.
Naquele dia o céu sobre a cidade Corais parecia se alegrar com a chegada do novo rei, segundo o que percebia Leônidas, que contemplava o céu que parecia mais azul e belo que o natural com algumas nuvens completamente brancas, igual ao algodão. Porém, aquilo logo deixaria de ser exuberante a ele, pois diante dos olhos turquesa o homem viu o inacreditável acontecer, sobre a mão direita de William moldou-se uma espada média de dois gumes, feita de algo que lembrava o cristal da noite em tom lilás, uma jóia extremamente rara naquele momento e praticamente não achável, detalhada com flores douradas em toda sua lâmina, cujo o fio era finíssimo, sua beleza era tão grande que se estendia a asas lilás e brancas em sua empunhadura azul como as águas do mar, por fim um hibisco tão branco quanto o algodão mais claro estava incrustado nela como uma jóia adornando o instrumento. Leônidas também viu que emanava grande energia da arma a um ponto que era visível e desconfortável só de olhar, todavia aquela forma poderosa e por quê não dizer divina? Não se sustentou por muito tempo e logo se desfez e a arma em sua mão assumiu uma coloração dourada e pura, tão afiada quanto qualquer arma de aço ou mithril, sua empunhadura grandemente mudou e agora continha 5 pedras de jade vermelha adornando a arma, além de uma insígnia de hibisco dourada envolvida por um círculo cujo o metal lembrava a cor da Prata que finalizou como uma meia lua.
A arma era poderosa, extremamente poderosa, somente aqueles com uma ligação pura, completamente pura, podiam tocar naquele objeto, que era a sua relíquia e de quem se tornasse parte dele.
Apesar disso tudo, William não havia acabado e por fim não pensou duas vezes em continuar o que havia planejado e o que Leônidas até então imaginava correr bem, tornou-se em ruína e logo se arrependeu de pensar assim, pois no momento em que viu o rapaz fincar no chão sua espada, também viu o garoto iniciar uma curta e dolorosa jornada.
— SE A MINHA JORNADA É VERMELHA OU BRANCA, ASSIM COMO OS DIAS DE GUERRA E DIAS DE PAZ, SEJA FEITA A JUSTIÇA QUE ESSE SANTUÁRIO BUSCA. ERGAM-SE AS RUINAS QUE ESTÃO CAÍDAS, QUE OS ALICERCES TORNEM AS SUAS ORIGENS, QUE A GLÓRIA, QUE A JOIA DE AQUARIA VOLTE A ESTE LUGAR! A TI ORDENO RUÍNAS DE AQUARIA, ERGAM-SE NOVAMENTE EM NOME DO SEU HERDEIRO ESCOLHIDO WILLIAM OCEANUS! — Citou William essas palavras com seus próprios lábios.
Não demorou muito para que William desabasse, se não fosse o apoio das mãos na espada e o joelho firme no chão ele com certeza teria batido com o rosto no solo firme que cobria aquele lugar. Em seguida sua energia Etérea começou a escapar como uma grande cachoeira fluindo em diversos veios, nesse momento Leônidas ficou extasiado e sem movimento como se estivesse paralisado apenas observando o menino ser drenado de forma violenta por aquelas ruínas.
William então sentiu seu nariz sangrar e viu as gotas cair uma atrás da outra, mas preferiu não interromper o processo que dava início a restauração daquele lugar apesar da dor que sentia, pois parecia que aquele lugar mais mastigava ele de forma lenta, mas violenta em cada mordida.
— Não é a toa que é príncipe, porém isso já está saindo do controle, isso não é humano, isso é uma loucura, ainda que eu conte isso ao imperador, acho difícil ele acreditar que algo assim realmente exista — disse Leônidas.
Leônidas via o menino sofrer, como se gritasse silenciosamente, como se seus músculos e seus órgãos fossem explodir a qualquer momento, como se aquela dor superasse qualquer outra dor que havia presenciado, e é claro para William a sensação era essa, como se alguém o cortasse com um canivete ou lhe colocasse contra uma parede atado a correntes laminadas e molhadas com venenos causticante, ou de repente para tomar um tiro de pistola a cada minuto, mas embora aquela dor fosse horrível, ela também só ocorria porque o poder do menino era grande demais para que o seu corpo viesse suportar a drenagem.
De repente tudo começou a vibrar e todos ao que já se estavam assustados e surpresos puderam contemplar diante de seus olhos, um milagre, pois tudo o que antes era uma pilha insignificante de pedras começou a se tornar os alicerces e base para o então novo castelo que subia aos poucos diante de seus olhos.
O velho general viu diante de seus olhos, pedra sobre pedra tornar-se novamente as magníficas torres, os magníficos lugares onde haviam jardins, os caminhos que acessaram o palácio e etc. Todavia, o que o homem enxergava era apenas a estrutura do edifício se reconstruir, em outras palavras com o poder "pequeno" de William e sua debilidade física, impediria o garoto de reconstruir tudo de forma detalhada, portanto jardins, vitrais e tudo mais era certo e necessário que pessoas a serviço do império e sobreviventes organizassem juntos.
Leônidas pode ver também o esforço do garoto para reconstruir prédios atrás deles, que ao seus olhos tinham uma forma diferente do que costumava ver, algo que nem sonhando conseguiria imaginar. Contudo, William conhecia muito bem aqueles arranha-céus que ao todo eram quatro, que serviriam de abrigo a todos os sobreviventes e aos trabalhadores que ali estavam para ajudar, no fim foi o máximo que o menino conseguiu, pois a energia que havia sobrado era a energia que os levaria de volta.
Todos miravam em silêncio o que o garoto havia feito e sem nada do que pudessem explicar eles permaneciam em silêncio completamente paralisados.
— General Leônidas, preciso falar com Amélia — apesar da voz suave que ecoava da mente do garoto para a mente do homem, o general percebeu que ele estava completamente cansado — vá chamá-la.
Leônidas percebeu pelo olhar de William que ele não estava bem.
— Sim, aguarde um pouco jovem príncipe — disse o homem saindo o mais rápido que podia sem questionar.
William então puxou a espada novamente e como características de uma relíquia, ela tornou-se uma jóia que prendeu no braço do menino assumindo a forma de um bracelete dourado com detalhes que lembravam raízes de cristal, em seguida o garoto mirou sua mão e viu o quão cortada estava, ferimentos que ele próprio não soube explicar com exatidão como surgiram, porém cogitava ser desgaste excessivo de sua habilidade.
Fraco como estava, o menino ainda cogitou entrar no lugar que acabara de refazer com os seus poderes. Então movido da sua fatídica insistência em fazer o que era muitas vezes nocivo a sua saúde, enquanto tapava o nariz que ainda sangrava, ele partiu em direção ao grande portão de entrada do lugar, que estava a uma distância de 100 m dali. William estava feliz e apesar das dores que sentia, o menino ria por saber que podia rever o lugar onde havia nascido.
Depois de algum tempo caminhando nas dependências do lugar, entre uma coluna e outra, o menino chegou a sala do trono onde caiu, onde em silêncio absoluto chorou a morte de seus pais naquela noite de sangue. William chorou como nunca havia chorado, suas lágrimas reprimidas há três meses não se continham, à medida que o garoto recordava-se de seus pais que cuidaram e lhe ensinaram tudo do que precisava saber para viver sua vida até aquele momento. Naquele lugar vazio William, também recordou-se que não se tratava apenas de seu pai e sua mãe, mas seus irmãos e irmãs e de toda sua família, tias, tios, avós maternos e paternos que tanto amava, além de suas primas e primos os quais viveram grande aventuras juntos, a dor que o príncipe sentia era imensa e apesar de abrir sua boca como quem rasgava sua garganta em desespero para gritar, aquela sala até então vazia, apenas presenciava o silencioso e aflito choro fúnebre do rapaz que depois de muito tempo podia, enfim chorar a morte de todos que tanto amava.
— Senhor William — sussurrou Leona chegando na área.
— Não o atrapalhe. Esse é um momento dele. Devemos respeitar, com nosso silêncio — disse Leônidas.
— Sim senhor — respondeu Leona.
Por outro lado, uma cena de fragilidade exibida pela realeza era considerado uma vergonha para todos, afinal ali se tratava de alguém cuja a função é governar, passar confiança e força era obrigatório, porém com todo o respeito silencioso daqueles que acabavam de adentrar o salão real, mesmo surpresos com uma cena rara e dolorosa de um rei que havia perdido parte de seu povo injustamente, Leônidas, Amélia e Leona além de outros tantos se colocaram de joelhos em reverência ao luto do rei.
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Atualizado até capítulo 44
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