Depois de tomar um banho e renovar minhas forças, decidi tomar meu desjejum. Vesti uma calça jeans azul claro, e uma babylook branca, calçando minha sapatilha creme. Recontei o dinheiro que ainda tinha e separei uma quantia para levar, caso precisasse me alimentar no caminho.
Deixei meus pertences no quarto e tranquei a porta. Guardei a chave no bolso, junto com cinquenta dólares que separei mais cedo e desci. Resolvi tentar comer algo na lanchonete vizinha. Lá até que era bem aconchegante, apesar de ter alguns caras bem mal encarados e de reputação duvidosa.
Dirigi-me até o balcão de madeira envelhecida e gasta. Um senhor de meia idade, com cabelos grisalhos, barba rala, e óculos em formato de meia lua, pendendo de seu nariz reto e torto na ponta, que estava do outro lado, sorriu, com seus poucos dentes à mostra, ao me atender.
– Bom dia! – Sorri em resposta. – O que deseja? – Perguntou-me simpático.
– Bom dia! Por favor, um cappuccino e duas torradas com geleia de morango. – Pedi rapidamente ao lembrar o meu desjejum no dia anterior. Ainda ao lado de minhas amigas, e de todos os internos que conheci durante minha adolescência.
Enquanto esperava, apoiei meu cotovelo sobre o balcão, e comecei a pensar em por onde começar minha busca por emprego. Desta vez teria que ter cuidado para memorizar todas as ruas nas quais andasse, e para que quando fosse preciso, eu soubesse voltar.
O senhor voltou servindo meu desjejum sobre o balcão. Deliciei-me com cada mordida da torrada, e em cada gole do cappuccino. Quando terminei pedi uma garrafinha d’água e paguei a conta. Saí andando lentamente, tentando guardar o nome das ruas, ou pelo menos alguns pontos de referências como lanchonetes, restaurantes, lojas e hotéis.
Depois de entrar em três lojas, dois restaurantes, e uns quatro hotéis, sempre ouvindo a mesma coisa: “não precisamos de ninguém no momento!”, acabei me permitindo sentar um pouco e descansar.
– Que horas, por favor? – Perguntei a uma mulher jovem, formalmente vestida.
– Faltam dez para uma da tarde! – Ela respondeu-me com um sorriso.
– Obrigada! – Agradeci sentindo-me chateada por ainda não ter encontrado nada àquela hora.
– De nada! – Ela disse alguns metros à minha frente.
Resolvi procurar algum lugar para almoçar, depois eu continuaria a minha batalha, mas de barriga cheia. Entrei em um restaurante, mas quando vi sua aparência muito chique, saí rapidamente. Acabei parando em um McDonald mesmo, e mais uma vez comi um sanduíche como refeição e uma Coca-Cola bem gelada.
Descansei um pouco sentindo a típica sonolência que geralmente nos toma depois do almoço, e então voltei a andar, agora para mais distante, pois, nestas redondezas eu não tinha conseguido nada.
Comprei mais umas duas garrafinhas de água, e levei mais uns dez “não”, antes de dar-me conta de que o sol já estava se pondo, e, portanto, era muito tarde para continuar adiante. Então fiz meia volta, e comecei a andar até o hotel.
Demorou mais do que imaginei, eu andei mais do que pensei que andaria, e quando cheguei estava suada e cansada. Louca para tomar um banho e deitar numa cama quentinha. A senhora dos óculos de fundo de garrafa, estava na recepção e assim que me viu tratou de me cobrar.
– Vai ficar outro dia? – Ela perguntou enjoada.
– Oh sim! – Respondi rapidamente. – Vou só tomar um banho e já desço com seu dinheiro. – Ela sorriu, tentando ser mais simpática agora.
– Ok! – Falou enquanto eu subia correndo as escadas até o quarto que aluguei.
Tateei meus bolsos até encontrar as chaves, mas não precisei usá-la. A porta estava apenas encostada, então empurrei abrindo-a e ficando imóvel por vários segundos, diante do que vi à minha frente. Minha bolsa estava jogada no chão, a pasta com meu histórico escolar e meus diplomas aberta e os papeis espalhados. Minhas roupas jogadas pela cama, a colcha estava revirada e meus objetos pessoais como escova, absorvente, pente e maquiagem, minha outra sandália e meu par de chinelos, tudo espalhado pelo quarto.
A latinha que ganhei de Glenda e April jazia sobre a mesinha ao lado da cama, e quando finalmente consegui reagir, corri para pegá-la. Era nessa lata que eu guardava todo o dinheiro que eu tinha. Tirei a tampa revelando seu interior totalmente livre de dinheiro, seu único conteúdo era a foto que as meninas tinham me dado, e mais nada. Comecei a chorar sem saber o que fazer. Como isso pode acontecer? Levei vários minutos, para levantar e encostar a porta.
Tudo que eu conseguia pensar era como eu iria pagar o hotel hoje. Tirei o dinheiro que restara em meu bolso, revelando vinte e seis dólares e alguns centavos, não daria para pagar à diária. Será que ela não me deixaria ficar e quando eu arranjasse um emprego pagá-la? Limpei as lágrimas de meu rosto, indo em direção ao banheiro. Iria tomar um banho e depois pensaria como fazer. Tentaria falar com a senhora dos óculos, sério eu tinha que perguntar o nome dela.
Tomei um banho rápido, mais relaxante e renovador, e descobri que minhas coisas que estavam no banheiro permaneceram intactas. Tanto meu xampu e o condicionar, como o sabonete líquido estavam no mesmo lugar. Vesti a roupa que usei no dia anterior e desci para tentar falar com a dona do hotel.
Como de costume, ela estava no balcão lendo uma revista de fofoca dos artistas. Assim que me viu ela ergueu a cabeça sorrindo.
– Como é mesmo o nome da senhora? – Perguntei tímida.
– Me chamo Helen Grant. – Disse cautelosa. – E você, minha cara?
– Bem... Meu nome é Clarysse Parker. – Seus olhos aumentaram atrás de suas lentes grossas. – Sabe o que é, Senhora Grant? Acabei de subir ao meu quarto e descobri que fui roubada. – Ela balançou a cabeça negando.
– Impossível! – Falou saindo detrás do balcão.
– A porta do quarto estava arrombada, minhas coisas estão todas jogadas pelo quarto, e... – meus olhos voltaram a verter lágrimas – levaram todo o meu dinheiro.
– Você está mentindo! – Falou séria me encarando. – Isso nunca aconteceu aqui!
– Porque eu mentiria? – Perguntei revoltada pela desconfiança com que ela me olhava. Ela andou até o sofá próximo à porta e sentou, ainda olhando-me.
– Tudo bem, filha! Vou tentar averiguar o que houve. – Sorri internamente sentindo-me confiante para falar o que eu queria.
– Senhora Grant... – chamei-a tentando parar meu choro. – Será que eu posso ficar por uns dias? – Sua cara transformou-se numa carranca. – Só até eu conseguir um emprego, e então lhe pagarei todos os atrasados e o mês adiantado. – Ela pareceu aumentar de tamanho em menos de trinta segundos e levantou-se parando à minha frente. Suas narinas inflavam com a respiração forte.
– Eu perguntei ontem se queria passar o mês. – Dei um passo para trás. – Você estava com dinheiro suficiente para isto, mas não... Disse que queria apenas o dia. – Andei até encostar-me ao balcão, ela sempre me acompanhando. Sua voz alterada soava como gritos. – Minha resposta é não. Sinto muito, mas não posso alugar nada fiado. Meu marido me mataria se soubesse que ando fazendo favores aos inquilinos.
– Mas, Senhora Grant, eu não tenho para onde ir. Eu sou órfã, e acabei de sair do orfanato, estou batalhando bastante para sobreviver. Me ajude! – Pedi aos prantos.
– Desculpe! Minha resposta continua sendo “não”. – Ela rodeou voltando para trás do balcão. – Acho bom você ir buscar suas coisas logo. – Virei-me para subir as escadas. – Ah! – Ela falou quando eu já saia da recepção – quero a chave de volta! Depois vejo o que faço com a porta arrombada.
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Atualizado até capítulo 112
Comments
Regina Lucia Freitas Silva
que mulher horrível, acho que foi ela que roubou o dinheiro dela
2024-05-17
0
Adelaide Bandeira
coitada tem muita gente assim que não está nem aí pro próximo muito triste o ser humano tá cada dia mais individualista, 😞😞😞
2024-05-17
0
Débora Oliveira
mulher nojenta
2024-05-16
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