Duas semanas depois daquele dia, comecei a namorar com Matt, e Glenda já estava ficando com Chris. Chris na verdade era o apelido de Christopher. Ele chegou ao orfanato uma semana depois de Matt. Já era órfão de mãe e seu pai havia falecido em um acidente de moto. Glenda logo se viu apaixonada por ele, e foi isso que acabou me aproximando ainda mais de Matt. Ele era muito amigo de Chris e acabávamos andando sempre juntos. April ainda nos acompanhava, mas não gostava de segurar vela, e quando começamos a namorar, acabamos nos afastando um pouco, o que não nos impediu de continuarmos amigas.
Voltei a mim, fechando o chuveiro, enxugando-me e vestindo a roupa que levei comigo. Depois de vestida, escovei os dentes e sai do banheiro indo até o refeitório para tomar meu desjejum. Seria meu café da manhã de despedida, e todos iriam estar reunidos para me parabenizar e desejar boa sorte em minha nova jornada. Até a diretora estaria presente para se despedir.
Assim que entrei no refeitório fui surpreendida por Glenda e April, que vieram me encontrar com uma embalagem de presente nas mãos. Glenda me abraçou, em seguida April. Quando nos afastamos elas me entregaram o embrulho. Rasguei o papel de presente, descobrindo uma lata pequena em formato oval. Ao abri-la senti meus olhos lacrimejarem, elas tinham me dado trezentos dólares e embaixo do dinheiro tinha uma foto de nós três juntas, do dia em que terminamos a segunda escola.
– Não posso aceitar. – Falei devolvendo-lhes o dinheiro. Afinal faltavam apenas alguns meses para elas saírem do orfanato, e precisarem dele.
– Pode sim. – Falou Glenda. – Sei que se você conseguir se organizar até sairmos, – falou abraçando April que sorriu – teremos onde ficar também. – Sorri assentindo.
Era verdade, se eu conseguisse um lugar para ficar, minhas amigas estariam amparadas quando saíssem daquele lugar. Guardei o dinheiro na latinha e segui para tomar meu café. Depois de tomar o desjejum, e me despedir de alguns internos, a diretora, Senhora Nancy Cooper, me chamou para acompanha-la até sua sala.
Ela me entregou uma pasta contendo meu histórico escolar – devo dizer que exemplar, eu sempre tirava boas notas. E todos os meus diplomas dos cursos que fiz no decorrer do último ano. Fui advertida sobre os cuidados que deveria ter na sociedade, mas acabei não ouvindo muito bem, visto que eu estava ansiosa para sair de lá, encontrar meu namorado e começar uma nova vida.
Quando sai da diretoria, fui até meu quarto pegar minha mala. Na verdade era uma bolsa, afinal tínhamos poucas coisas, somente o essencial. Glenda e April me acompanharam até o portão de saída. Os demais internos também nos seguiram. Era quase como um ritual. Sempre que um dos internos estava indo embora, seja por completar a maioridade ou por ser adotado, todos os demais iam até os portões, para despedirem-se.
Eu estava uma mistura de emoções. Era tristeza por deixar minhas amigas e alegria por finalmente poder começar minha vida. Também tinha um medo enraizado lá no fundo. Eu não sabia o que esperar, meu futuro era incerto, mas acreditava que tudo daria certo, ou iria morrer tentando que desse. Virei-me para Glenda e April abraçando-as fortemente, esperava revê-las em breve.
– Vamos sentir muito a sua falta! – Disse Glenda, com os olhos marejados.
– Eu também... – respondi abraçando-a e deixando as lágrimas, até então presas, fluírem pelo meu rosto.
– Não se esqueça da gente! – Falou April, também chorosa.
– Eu não poderia. – Sorri entre as lágrimas.
Era verdade, eu nunca poderia esquecê-las, foi com elas que vivi os piores e melhores momentos de minha vida até aquele momento. Elas eram o mais próximo de família que eu tinha, e não pretendia abandoná-las de forma alguma.
Despedi-me das demais colegas que fizeram parte de minha adolescência e das governantas que cuidaram de mim. Dei adeus aos demais internos e desci as escadas, que davam para o jardim, a caminho de minha nova vida.
Quando cheguei à calçada, fui tomada por várias emoções: carinho, amor, saudade, e também raiva, decepção e dor. Tudo porque ao passar pelo portão, a pessoa que eu mais queria ver, para me sentir forte e segura de novo, simplesmente não apareceu. Matthew mentiu. Ele não veio me buscar, talvez sequer lembre que eu existo. Meus olhos arderam e mais uma vez naquele dia comecei a chorar.
Andei até a praça em frente do orfanato, onde tantas vezes vi os casais namorando, as crianças passeando. Todos alegres e sorridentes, ao ar livre. E a esperança me tomou, comecei a procurar, na esperança de encontrar Matthew por ali, mas ele não estava em lugar algum. Decidi sentar em um dos bancos e esperar por um tempo, afinal ele poderia ter se atrasado. Ainda era cedo quando sai do orfanato, não passava das oito da manhã, deveria ser isso. Mais duas horas se passaram e nada dele aparecer. Então eu levantei e constatei o óbvio, ele não apareceria. Provavelmente nem lembrava que eu existia.
Levantei enxugando as lágrimas em meu rosto, e segui sem rumo até uma parada de ônibus totalmente deserta. Eu pegaria a primeira condução que passasse e escolheria uma parada aleatória para iniciar minha vida.
Alguns minutos depois peguei um ônibus com destino ao Brooklyn. Sentei na parte de trás, e comecei a conferir quanto eu tinha em dinheiro. Mil duzentos e trinta e três dólares. Separei os trinta e três dólares, colocando-os no meu bolso, e guardei o restante na bolsa. Segui até o cobrador para pagar pela passagem e pedir informações. O rapaz atrás da roleta sorriu ao me ver e recebeu o dinheiro.
– Você poderia me dizer qual melhor lugar para eu descer? – Perguntei receosa, estava começando a ficar com medo novamente.
– Para onde você está indo? – Perguntou o jovem entregando-me o troco.
– Na verdade... não tenho um lugar certo para ir. Mas poderia me dizer onde é o melhor lugar para se viver. – Ele me olhou intrigado. – Quero dizer... um lugar onde eu possa alugar um quarto e comer alguma coisa, mas claro, que seja barato. – Baixei os olhos envergonhada por não conhecer nada daquela cidade. – Não tenho muito dinheiro e ainda terei que procurar emprego, entende? – O rapaz assentiu e sorrindo o mais cortês possível, respondeu-me.
– Sente aqui. – Falou apontando para a cadeira vazia à sua frente. – Assim que passar pela periferia do Brooklyn eu lhe aviso. – Sentei no local que ele indicou. – Lá você encontrará um quarto e comida por preços menores, mas é bom que consiga um emprego rapidamente. – Sorri em agradecimento. – Ah! E tenha cuidado! Na periferia também existem pessoas de má índole... se é que me entende. – Assenti.
– Ok! Obrigada pela dica e por me ajudar! – Respondi ainda sorrindo.
Em seguida virei, começando a prestar atenção à paisagem pela janela. Vários prédios e casas. Algumas bastante pomposas, outras mais humildes, mas todas cheias de classe. Ao longe pude avistar uma ponte acima de um rio. Era enorme e vários carros passavam por cima dela. Era lindo! Senti um leve cutucão no meu ombro alguns minutos depois e virei-me para o cobrador.
– Dê o sinal e desça na próxima parada. Ande até o quarteirão seguinte, lá encontrará um pequeno hotel onde eles alugam kitnet’s e também existem várias lanchonetes na vizinhança. – Sorri, acionando o sinal de parada.
– Obrigada! – Falei dirigindo-me à porta de saída do ônibus.
Com um pequeno solavanco, o ônibus parou e desci, agora mais animada depois da informação que o cobrador havia me dado. Como ele explicou, segui até a quadra seguinte e logo encontrei o hotel que ele me falou. Somente uma placa anunciava que ali alugava quartos, pois era uma construção de um prédio pequeno. Apenas uma porta estreita que dava para uma recepção pequena.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 112
Comments
🌹
E muito triste sair do orfanato sem ter nenhum ajuda.
2024-05-18
0
Débora Oliveira
bonita história
2024-05-16
1