Acordei cedo naquela manhã, meu sorriso escancarado no rosto, mesmo depois de mais um terrível pesadelo. Meu aniversário de 18 anos, o dia em que finalmente sairia do inferno que era aquele orfanato, e enfim começaria minha vida fora daquele lugar.
Sempre sonhei com este dia, me perguntando como seria estar livre. Meu primeiro passo seria arranjar um emprego, em seguida um lugar para ficar, só então poderia estudar e ser alguém na vida.
Estava em êxtase, ainda mais por que eu também reencontraria meu namorado. Ele também era órfão e tinha saído haviam poucos meses. Ainda lembro, com os olhos nublados, de sua promessa quando nos despedimos:
“– Não chora, Claire! Eu vou arrumar tudo pra quando você sair... teremos um lugar para ficar... eu prometo! – Olhei-o confiante. – Virei lhe encontrar pra comemorarmos sua maioridade juntos. – E beijou-me ternamente”.
Matthew era um cara complicado, não gostava de regras e me deixava tonta com suas artimanhas e tentativas de me levar para cama. Devo dizer que todas fadadas ao fracasso, pois continuo intacta... igualzinha como tinha vindo ao mundo. Mas ele era tudo que eu tinha de mais próximo a uma família. Eu o amava, mas não sentia aquele arrepio e o friozinho na barriga com ele.
Assustei-me ao sentir braços ao meu redor. Eram minhas amigas me parabenizando. April e Glenda eram minhas melhores amigas. Também tinha Betsy e Sharon, mas não era a mesma coisa, pois discordávamos muito, tínhamos opiniões diferentes. Todas vieram transferidas de outros orfanatos, exceto Betsy, a mais nova, que foi adotada, mas teve o azar de perder os pais adotivos num acidente de avião três anos atrás.
Depois de receber seus parabéns, levantei-me e procurei uma roupa no meio das minhas malas. Peguei uma calça em lycra e uma regata branca, um conjunto de calcinha e sutiã também branco, e corri para o banheiro. Tudo que eu precisava era tomar um banho bem demorado e um café da manhã reforçado antes de encarar meu novo mundo. Minha cabeça rodava com a expectativa, e minhas lembranças surgiram como lampejos através de meus olhos.
Eu tinha apenas quatro anos quando fui para o orfanato. Era muito nova, mas consigo lembrar de alguns momentos com meus pais, e pelo que lembro, eles realmente me amavam. Tenho certeza de que se eles ainda estivessem vivos, eu teria uma família feliz, e seria muito amada. Mas o destino quis que eles partissem de forma repentina.
Em uma noite de chuva meus pais saíram para fazer compras e foram abordados por um assaltante. Meu pai me escondeu atrás dele. O assaltante achou que meu pai estava tentando reagir, e acabou atirando nele à queima roupa. Minha mãe, quando o viu caído, correu ao seu encontro e o ladrão com receio, acabou por atirar nela também.
Eu assisti a tudo, congelada no lugar em que meu pai havia me deixado. O assaltante ainda vasculhou os bolsos das roupas deles, e correu em direção a um beco escuro. Quando a polícia chegou me encontrou chorando no mesmo lugar, olhando para os corpos inertes ao meu redor. Eu estava em choque e permaneci assim durante um bom tempo.
Naquela noite todas as minhas opções de ter uma infância feliz com meus pais, acabaram. Como não tinha mais nenhum parente vivo, acabei por ser mandada para o orfanato. Passei mais de um ano reclusa, sem querer falar com ninguém, ainda abalada por tudo o que presenciei. Eu simplesmente não conseguia entender porque Deus tinha feito isso comigo.
Quando estava para completar dois anos de reclusão, conheci Glenda, foi ela quem me resgatou de meu casulo. Tornamo-nos grandes amigas desde então, mas foi a partir daí que comecei a me rebelar.
Eu não queria ser adotada, porque não queria deixar a única pessoa que tinha como sendo da minha família: Glenda. Ela agora era minha família, a única amiga e confidente que eu tinha para me esquivar,
ainda que por momentos, de nossa vida mesquinha e cruel.
Quando tive a oportunidade de ser adotada, fiz de tudo para não ser a escolhida. Tornei-me ainda mais rebelde, até que o casal que tanto queria me adotar, simplesmente sumiu, talvez assustados com minhas travessuras.
Conheci April dois anos depois de Glenda, e logo nos tornamos inseparáveis. Éramos um trio, e adorávamos aprontar. Sempre encobrindo as travessuras uma da outra, principalmente com os novos transferidos: Matthew e Christopher.
Sharon e David chegaram ao orfanato seis meses depois do meu 12º aniversário. David era bem legal, mas Sharon era muito falsa, e sempre dedurava nossas travessuras para a diretora.
Quando estava com quinze anos completos, conheci Betsy e Paul. Paul vinha transferido de outro orfanato. Um rapaz loiro e muito bonito, que logo atraiu a atenção de Sharon. E Betsy, uma menina triste e maldosa, que retornava por estar novamente órfã. Ela e Sharon rapidamente se tornaram amigas.
No ano seguinte foi a vez de conhecer o então transferido, Matthew. Era um moleque, sempre animado e cheio de vida. Muito brincalhão. Acabamos nos tornando amigos, e seis meses depois dei meu primeiro beijo. Sorri ao lembrar daquele dia. Ele tinha sido muito gentil e delicado no começo, mas cortou totalmente o clima quando sua mão boba entrou em ação.
“Estava saindo do refeitório para ir ao meu quarto. Era o horário de descanso, logo após o almoço e Glenda tinha decidido encontrar Chris, um dos mais recentes integrantes de nosso orfanato. Glenda vivia idolatrando-o. E naquele dia não foi diferente. Passei pelos corredores indo até meu quarto, quando fui surpreendida por Matthew.
– Claire... – Matt falou ao pé do meu ouvido. Dei um pulo com o susto. – Calma! Só estou brincando. – Falou todo risonho.
– Você me dá um susto e ainda pede calma? – Matt me abraçou pelas costas e num impulso virei, ficando de frente para ele. Esse foi meu grande erro.
Nossos rostos a centímetros de distância, fazendo-me perceber de imediato seu corte de cabelo, agora bem curto. Em seguida minha vista passou por seus olhos e desceu até seus lábios que se entreabriram. Fiquei hipnotizada olhando aquela boca avermelhada, sentindo seu hálito refrescante e Matt aproveitando-se do momento, tocou seus lábios nos meus. Primeiro levemente, um simples roçar, depois grudando-os em um selinho, o que me fez entreabrir os lábios dando a ele livre acesso à minha boca.
Matthew infiltrou sua língua em minha boca acariciando-a, e me abraçando mais forte. Suas mãos foram descendo por minhas costas até alcançar meu bumbum, apertando-o. Dei um pulo, batendo em sua mão e saindo de seus braços. Corri para o meu quarto.
Meu primeiro beijo... e com Matt. Eu sequer senti as borboletas em meu estômago ou ouvi os tais sininhos que dizem que ouvimos no primeiro beijo, mas foi bom. Mordi meus lábios lembrando da textura e maciez dos lábios dele. Eu tinha que contar para Glenda. Sorri encostada a porta. “Pelo menos agora eu não sou mais ‘BV’ – Pensei”.
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Atualizado até capítulo 112
Comments
Jucelia Oliveira
coloca fotos deles fica mais interessante estou gostando muito
2024-05-17
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Débora Oliveira
linda
2024-05-16
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