Subi as escadas aos trôpegos, ainda cega pelas lágrimas que desciam quentes por meu rosto. Quando entrei no quarto desabei de joelhos no chão. O que eu faria agora? Para onde iria? Meu Deus me ajude! Pedi em oração diversas vezes, antes de me levantar e começar a organizar a bagunça que fizeram com minhas coisas. Por último peguei minhas coisas que estavam no banheiro.
Antes de descer, escovei os dentes e utilizei o banheiro pela última vez, e então desci. Minha bolsa nas costas, a chave em mãos, e o peito apertado, angustiado. Totalmente desnorteada, ou deveria dizer nocauteada, pelas circunstâncias. Passei pela Senhora Grant, e devolvi-lhe a chave, batendo-a no balcão, antes de sair para a noite congelante de Nova Iorque.
Deveriam ser umas nove ou dez horas da noite, a rua estava movimentada, muito mais que pela manhã. Fui até a lanchonete em que tomei meu desjejum, agora lotada, e pedi um sanduiche e uma garrafinha de água. Demorou bastante para meu pedido ficar pronto, e mais uma eternidade para que eu terminasse de comer.
Permaneci sentada em um dos bancos ao lado do balcão por longas horas. Somente quando começou a esvaziar paguei minha conta e olhei para o relógio pendurado na parede. Passava de meia noite e trinta.
– Quer mais alguma coisa? – Perguntou o senhor que me atendera pela manhã. Neguei com a cabeça, mas sem sair do lugar. – Se não vai querer nada, então acho bom você ir. – Levantei-me em um pulo. – Aqui costuma ficar perigoso durante a madrugada e também já estamos fechando. – Assenti, colocando a bolsa no ombro, e saí da lanchonete sentindo as lágrimas encharcando novamente meu rosto.
Encolhi-me quando senti o vento frio em contato com meu corpo. A roupa que eu vestia não era quente o suficiente para o clima que fazia durante a madrugada. Olhei para os dois lados da rua, agora quase deserta, exceto por uns dois casais namorando no escuro, e uma garota de programa do outro lado da rua.
As luzes da boate que eu via de meu quarto continuavam acesas, mas não existia nenhum movimento que denunciasse seu funcionamento. Parei decidindo-me para que lado ir, quando um rapaz entrou na rua correndo e gritando por socorro. O senhor da lanchonete apareceu na porta e rapidamente me puxou para dentro do estabelecimento, já apagando as luzes.
Em seguida ouvi um barulho de motor, parecia uma moto e estava muito perto. Então parou e tudo que se pôde ouvir foram três estouros muito altos. Depois a moto foi novamente ligada, e segundos depois tudo voltou a ficar quieto e silencioso. O senhor ligou as luzes e abriu a porta indo verificar a rua, agora sem qualquer movimentação, nem mesmo a garota de programa estava por ali.
Fui atrás do senhor que estava parado ao lado de uma mancha de sangue no asfalto, era bastante recente, visto que o sangue ainda possuía uma tonalidade vermelho vivo e não fora absorvido pelo asfalto. Senti minhas vistas turvas com a compreensão do que havia acontecido a poucos minutos.
Fechei os olhos distanciando-me do local do incidente, e de longe agradeci ao senhor que me salvara do ocorrido. Fui até o outro lado da calçada, ficando em frente à boate. Voltei a olhar para os lados, tentando pensar para que lado seguir, mas eu me sentia esgotada por conta do dia. Acabei sentando nos degraus que levavam a uma porta, e onde não havia iluminação suficiente para que me vissem.
O frio maltratava meu corpo, que agora tremia convulsivamente. Voltei a chorar, encolhida que nem uma bola, segurando em meus joelhos. Os soluços me tomaram, e eu não conseguia controlá-los. Dei um pulo quando escutei um raspar de garganta ao meu lado, o medo congelando-me ainda mais. Levantei os olhos nublados pelas lágrimas, e deparei-me com um vulto de cabelos loiros. Pisquei os olhos fazendo as lágrimas descerem, e limparem minha visão. Respirei fundo quando percebi que era a mesma garota da noite anterior, a que estava encostada ao carro quando encontrei a Senhora Grant com aquela cara de nojo.
– O que faz aqui numa hora dessas? – Perguntou a garota, abaixando-se ao meu lado. – E por que está chorando? – Senti-me emocionada por sua preocupação.
– Eu não tenho para onde ir. – Falei em meio aos soluços. – Eu sou órfã... saí do orfanato ontem. – Respirei fundo tentando parar a onda de soluços. – Eu estava hospedada no hotel da frente, mas alguém arrombou a porta do quarto e roubou todo meu dinheiro. – Olhei-a chorosa. – Eu não sei o que fazer!
Fui tomada por uma onda de gratidão, quando a garota abraçou-me, tentando me consolar. Este era o primeiro gesto carinhoso que eu recebia depois que saí do orfanato. Ela soltou-me e distanciou-se um pouco.
– Qual seu nome? Posso saber? – Assenti.
– Me chamo Clarysse Parker. E você? – Ela sorriu pegando minha mão.
– Prazer, Clarysse. Meu nome é Roxie. – Levantei-me, ainda segurando sua mão – Roxie Shelton. – Ela terminou de falar o nome. – O que pretende fazer agora?
– Bem... – voltei a olhar para a rua. – Quando o dia amanhecer eu pretendo voltar a procurar emprego. É o que tenho feito durante estes dois dias, sabe? – Ela sorriu.
– Não quero desanimá-la, mas aqui é bem difícil de conseguir emprego, principalmente quando não se tem experiência. – Voltei a sentar.
– Eu percebi. – Meu rosto voltou a encharcar-se de lágrimas. – Mas tenho que continuar tentando, ou morrerei de fome, sede e frio. – Meus dentes bateram como se para afirmar que meu corpo estava congelando.
– Você não conhece ninguém mesmo? – Roxie voltou a perguntar.
– Eu conheço um rapaz, ele saiu há alguns meses do orfanato. Ele era meu namorado. – Roxie sentou-se ao meu lado.
– E? – Ela perguntou depois de alguns segundos em silêncio.
– Ele tinha prometido ir me buscar quando eu saísse. – Baixei o rosto lembrando que ele havia mentido. – Mas ele não apareceu. Então acho que estou sozinha. Não conheço mais ninguém.
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Atualizado até capítulo 112
Comments
Adelaide Bandeira
nossa Deus não desampara ninguém colocou a Roxie no caminho da Clarysse para ajudar ela mim emocionei muito nesse capítulo 😭😭😭
2024-05-17
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Débora Oliveira
essa mulher vai ajudar ela
2024-05-16
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