Natália
Depois do banho, penteei meus cabelos longos e ondulados, não eram bonitos, mal cuidados e meio sem vida, olhei meu reflexo no espelho após colocar as roupas que a mulher tinha me dado, e podia ver meus olhos ficando roxos e a pele ao redor do lábio bastante fissurada.
Meus braços estavam doloridos por causa da tentativa falha de defesa, mas ao me abraçar, senti que estava protegida de fato.
No quarto a sopa me esperava, com as torradinhas, seria a primeira vez em tempos que iria comer antes de dormir, e sinceramente dormir de barriga cheia é maravilhoso, eu não tinha que acordar muito cedo, estava me sentindo confortável demais.
Perto das sete horas da manhã começou o movimento das pessoas que moravam na pensão, sai um pouco sem graça do quarto e logo uma jovem veio falar comigo.
— Bom dia, me chamo Aline e você. — Muito animada e sorridente ela falou me estendendo a mão. — Prazer, me chamo Natalia. — Retribui seu aperto de mão, parecia ser algo meio estranho já que aonde eu vivia ninguém tinha o costume de se cumprimentar.
Ela me acompanhou e me mostrou aonde tomávamos café, almoço e janta, fiquei sem graça, mas logo notei que as pessoas naquela pensão eram bastante simpáticas e amáveis.
Um cenário bem diferente ao qual eu estava acostumada, brigas o tempo todo, drogas por todo lado, assaltos, sujeira, palavrões e mais uma infinidade de coisas que nem consigo descrever, eu vivia no extremo do limite de qualquer pessoa.
Decidi ir até o brecho para comprar algumas trocas de roupas, afinal eu não podia continuar dependendo exclusivamente da bondade da dona Cleonice, comprei o básico do básico, não precisava de muito, mas um vestido branco de florzinha amarelas me chamou atenção, ele era rodado da cintura pra baixo, de alcinhas, era uma peça nova, olhei na esteira a direita e lá estava uma pilha de sapatos, um santo cor creme me chamou atenção e combinava com o vestido, me senti no direito de comprar ambos, eu não tinha aonde usar ou ocasião, mas queria ter tais peças.
Claro, eu precisava trabalhar, depois de guardar as roupas em meu quarto e esconder meu dinheiro dentro do colchão, fui até o galpão onde o senhor Carlos nos vendia as balas para revenda, ao me aproximar do local, vi minha mãe, Cristiano estava do lado dela e todo o encanto que eu sentia por ele parecia ter desaparecido por causa de suas atitudes do dia anterior.
Me aproximei pelo outro lado para escutar a conversa deles, se fosse seguro eu me mostraria, caso contrário eu voltaria pra pensão.
— Quando ela aparecer eu mato aquela menina. — Minha mãe esbravejou cruzando os braços na frente do corpo.
— Ela não sabe se virar na rua, vai voltar, mas chega de perder tempo, vou cobrar o dinheiro que lhe emprestei pra comprar a carrocinha de salgados, me prometeu a virgindade dela, então hoje eu nem trabalho, vou esperar a fulaninha aqui com você, perdi a paciência.
Com uma calma que eu nunca tive, fui me afastando até o outro lado da rua aonde entrei em um dos taxis, olhei eles de longe e senti um bolo se formar em minha garganta, me lembro que minha mãe disse ter ganhado a carrocinha do meu irmão, segundo ela, ele tinha feito alguns trabalhos na cadeia e tinha mandado o valor pra ela.
Bom, em uma das cartas meu irmão confirmava isso também, me senti desolada e sem chão, pois minha mãe não era esse tipo de pessoa quando meu pai era vivo, ela era doce, amável, simpática, talvez seja verdade o que dizem, que o sofrimento muda as pessoas.
No caso da minha mãe, mudou pra pior, quem oferece a virgindade de uma filha por uma porcaria de carrocinha de salgados? Aquilo era tão surreal que nesse ponto eu já estava acreditando ter escutado errado, que não era isso, não podia ser real.
Cheguei na pensão tendo uma crise de choro, foi nesse momento que Aline e Cleonice começaram a conversar comigo, tentavam me acalmar, elas nem me conheciam, mas mesmo assim queriam ajudar, o que era uma prova de que a bondade ainda existia dentro do ser humano.
Chorei bastante naquele dia, e contei a elas como tudo tinha começado e sobre a conversa da minha mãe com Cristiano.
— Menina, ainda bem que não viram você, imagina o que poderia ter lhe acontecido? — Aline comentou ao meu lado com verdadeiro espanto, levando a mão ao peito.
— Mas agora, me veio à mente outra questão, os estrangeiros, não vai procurar por eles? — Cleonice sorriu malandra e vendo que eu negava com a cabeça segurou meu braço e me encarou, parecia um pouco mais séria do que na noite anterior. — Menina, se eles ficaram preocupados com a sua situação, podem voltar lá pra te procurar, vão falar com esse cara e esse cara pode se aproveitar deles.
Pisquei algumas vezes, sim, aquela mulher tinha razão, eu deveria ir falar com eles e lhes dizer que estava bem e que não era para se aproximarem de Cristiano ou minha mãe, pois, certamente seriam roubados.
Fiquei aflita de imediato e logo me lembrei que Cristiano e minha mãe ainda estavam me esperando no galpão dos doces, tive uma ideia um pouco inusitada.
— Vou escrever uma carta e traduzir na lan house, assim não terei de passar vergonha por não entender uma única palavra que eles falarem. — Soltei as palavras olhando um pouco ansiosa para as duas.
Ambas concordaram comigo e até me ajudaram a escrever, já que eu não conhecia palavras bonitas para colocar na carta.
"Maxime Ravel
Me chamo Natalia, sim sou moradora de rua, mas ontem minha mãe e meu amigo Cristiano ficaram muito empolgados com sua ajuda, quando menti pra eles falando que tinha lhes devolvido o valor, minha mãe me bateu e ele falou algo sobre me levar pra cama contra minha vontade.
Claro isso não lhe interessa, mas o fato é que, fiquei com medo de vocês voltarem lá e eles tentarem roubar vocês, sabe, a vida deles não é nada fácil e acabam fazendo muitas coisas para poder sobreviver, não os julgo, mas de qualquer forma, não quero que sejam enganados.
Quanto a mim, eu estou bem, consegui um quarto na pensão e a dona do lugar vai me ajudar com um emprego longe daquela rodoviária.
Obrigada senhor Maxime.
Atenciosamente: Natália Aparecida."
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 51
Comments
Cleidilene Silva
olha que ela era caidinha por ele.
2025-03-11
0
Joelma Portela
bem que eu desconfiei que o Cristiano não valia nada
2024-10-22
1
Érica
Meu Deus tadinha!!!
2024-05-24
2