Natália
Ainda dentro do envelope tinha uma bilhete, desta vez eu precisaria de um dicionário ou ir a uma lan house como era chamada na época para traduzir as palavras.
"Bonjour, nous avons été ravis de votre attitude, nous avons appris par l'interprète que vous traversez de nombreuses difficultés et que vous n'avez nulle part où habiter, si vous voulez de l'aide sans rien en retour, cherchez nous avant le 20, car nous partirons le Ce jour là. Máxime Ravel."
Mais tarde naquele mesmo dia, eu fui até a lan house, mas tive cuidado de usar minhas moedas e não as notas, do jeito que o povo era iam me acusar de ter roubado o dinheiro.
"Olá, ficamos encantados com a sua atitude, soubemos pelo interprete que passa por muitas dificuldades e que não tem aonde morar, se quiser uma ajuda sem nada em troca, procure pela gente antes do dia vinte, pois partiremos neste dia. Máxime Ravel."
Tive que ler e reler o bilhete algumas vezes, para ter certeza do que estava escrito e se tinha traduzido corretamente, no verso estava o endereço aonde estariam hospedados.
Claro que eu não tinha a mínima intenção de ir procurá-los, queria apenas seguir com minha vida.
Eu tinha em minhas mãos cerca de vinte caixinhas de balas, elas davam em torno de quarenta reais, continuei trabalhando até vender tudo e isso sem comer nada, não queria que todos soubessem que eu estava com dinheiro e por isso mantive sigilo, até mesmo Cristiano veio me procurar pra saber quanto eu tinha ganhado, dei um sorriso a ele e falei que devolvi o dinheiro.
Ele pareceu ficar ainda mais nervoso e ficou murmurando alguns insultos, o que eu achei estranho logo de início, mas acredito que ele pensava que eu iria dividir a grana com ele, jamais, eu dividiria com minha mãe, quem sabe assim ela melhorasse um pouco de humor.
Quando foi a noite eu e minha mãe estávamos indo para o parque aonde dormiríamos no relento, notei que no caminho ela não falou comigo, mesmo eu lhe perguntando algumas coisas.
— Você é quem deveria estar na cadeia, seu irmão nunca deixou de ajudar, ele me dava tudo o que conseguia para que tivéssemos uma vida decente, egoísta. — Ela falou quando chegamos ao parque, sua voz estava áspera e cheia de ódio.
Claro que Cristiano foi falar pra ela que eu tinha devolvido o dinheiro, o que era bem uma mentira, queria dividir com ela, quando fui colocar a mão no bolso para tirar as notas e entregar a minha mãe, ela começou a me bater.
Tentei me defender colocando as mãos diante de seu corpo, mas ela era muito maior do que eu, mais forte e estava com um ódio sem tamanho, só não desmaiei por conta dos golpes pelo simples fato de ter conseguido me levantar e sair correndo.
deixei tudo pra trás naquela noite, roupas e objetos pessoais, que apesar de não terem valor em dinheiro tinham valor sentimental, como a caneta que meu pai me deu aos meus doze anos, ou como uma caixinha de joias decorada feita em biscuit, nunca tive joias para colocar dentro dela, mas o objeto era valioso demais na minha percepção.
Peguei um taxi e rumei para o centro da cidade, meu destino era uma pensão que tinha visto em um anuncio, até falei para minha mãe sobre, mas ela me deu um tapa no rosto e me pediu pra parar de sonhar, aquele tapa doeu, mais do que a surra que tinha acabado de levar.
O taxista parecia ser um homem gentil, me cobrou bem menos do que a viagem custava, disse que em tempos difíceis as pessoas deveriam se ajudar, durante o percurso desabafei minha história com ele.
— Sabe mocinha, a sorte não cai duas vezes na nossa cara, deveria ir procurar essas pessoas, eu entendo que sua mãe seja importante pra você, mas veja bem, você acabou de fugir de casa por assim dizer, deveria tentar recomeçar. — falou com um largo sorriso, não, ele não era como Cristiano ou minha mãe que queriam me usar para lucrar.
— Mas eu nem falo a língua deles moço. — Rebati achando graça em seu conselho.
— Eles vão saber se comunicar, ofereceram ajuda, então eles vão te ajudar. — Aquele conselho ficou pairando na minha cabeça, o trio podia ser perigoso, podiam até ser mafiosos, mas ainda assim era melhor do que levar uma surra sem que pudesse explicar o que de fato aconteceu.
Quando cheguei na pensão, por sorte ainda estava aberta, na recepção eu fiquei bastante sem graça, por estar machucada e por não trazer nenhuma mala comigo.
— Boa noite, como funciona as coisas aqui? — Fui a mais educada que pude ao falar com uma senhora na recepção.
— Boa noite, eu me chamo Cleonice, sou a dona, aqui oferecemos um quarto, café da manhã e jantar, visitas só são permitidas aos finais de semana, animais domésticos e crianças também não são permitidos. — Seu sorriso meio torno traçava o contorno de sua boca enquanto ela pronunciava as palavras, até parecia estar com nojo da minha presença.
— Bom, eu sou moradora de rua, já deve ter notado isso, me chamo Natalia, mas tenho como pagar a estadia, é por mês ou diária? — Senti meu coração acelerar ao falar, fiquei com medo de ela me colocar pra fora.
— É por mês, um singelo valor de trezentos e noventa reais, se quiser almoçar aqui daí o valor sobre para quinhentos. — Ela me olhava incrédula, como se soubesse que eu não tinha dinheiro, o que era verdade, naquele dia eu tinha, mas isso não seria pra sempre.
— Então eu quero um lugar, já lhe disse que tenho como pagar a estadia. — Tirei mil reais do bolso e entreguei a ela, vi seus olhos se arregalarem, certamente ela imaginou que eu tivesse roubado. — Eu vendo balas senhora, mas é difícil passar o dia com fome e ainda ter que dormir na rua, por isso queria um quarto na pensão.
Ela me analisou da cabeça aos pés, sorriu pegando o dinheiro e conferindo as notas para ter certeza de que não eram falsas.
— Estou pagando por dois meses. — Murmurei imaginando que ela não tivesse entendido.
— Aqui, essa é a chave, me acompanhe. — Ela saiu de trás do balcão e me levou a um corredor bem estreito, portas de ambos os lados, pude contar cerca de vinte quartos. — O banheiro das mulheres é o da direita e dos homens a esquerda, seu quarto é o quinze.
Antes de entrar no quarto ela me deu um recibo pelos dois meses pagos, com a data de entrada e saída se eu não continuasse o pagamento, senti um alivio enorme por ela ignorar meus documentos, mas não demorou muito para ela explicar seus motivos como se lesse o que se passava em minha mente.
— Sei que é menor de idade Natália, mas acredito que todos mereçam um lugar pra poder dormir, por isso cobro pouco, a maioria das pensões na cidade cobra mil reais ou mais, então espero que estar aqui te ajude a tentar voltar a escola, assim como também tem um brecho, com roupas a partir de cinco reais na esquina. — Ela sorriu um pouco convidativa, me incentivando a confiar nela. — Já vivi nas ruas, sei pelo que está passando.
Ela me deixou na solidão do meu novo quarto, o lugar tinha aspecto de velho, mas era bem arrumadinho, um lençol amarelo na cama, um cobertor dobrado, ao lado da cama uma mesinha e um armário.
Era a primeira vez que eu dormiria em um quarto depois dos meus quinze anos que foi quando passamos a morar na rua.
A vida não tinha sido fácil em nenhum momento comigo, senti minha barriga roncar, mas tudo o que eu queria era poder tomar um banho e dormir, me esquecer do que tinha me acontecido nas últimas horas.
Passados trinta minutos, a dona da pensão retornava com uma muda de roupas, produtos de higiene, uma tigela com sopa e um prato de torradinhas.
— Menina, enquanto a sopa esfria, vai tomar um banho, está segura aqui dentro, eu não pago aquele "armário" na portaria pra ficar de enfeite não, em todos os anos que vivo aqui te garanto que nunca fomos assaltados. — Ela tinha mudado sua forma de agir, estava mais seca e fria na recepção, mas eu não ia reclamar, era a segunda ajuda que eu recebia naquele dia.
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Atualizado até capítulo 51
Comments
Josi Gomes
DOIS MESES É MUITO TEMPO , OS TRÊS NÃO VÃO FICAR MUITO TEMPO NO PAÍS
2024-11-08
1
Josi Gomes
ESSE CRISTIANO NÃO É CONFIÁVEL, E NEM A MÃE DELA, COM CERTEZA, ELA PEGARIA TODO O DINHEIRO DELA E IA EMBORA SEM ELA .
2024-11-08
0
Joelma Portela
acho wue Cristinano não é de confiança
2024-10-22
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