Capítulo 13

Naty,

            Foram tantos

dias conturbados que essa paz está me deixando preocupada, é como se fosse um

presságio de algo ruim.

— Já sabe quando vai dar um tempo? Pegar

aquela praia? — Sabrina me pergunta animada com o sossego.

— Não sei não, vamos ver como será esse

descarrego, to com uma sensação ruim. — Respondo sem tirar os olhos da janela.

— Por falar nisso, vai se antecipar

mesmo? eu acho que deveria atrasar, já que não vai seguir o cronograma inicial,

mas aí a senhora quem sabe! — Ele pergunta e eu permaneço em silêncio.

— Não pode dar nada errado! —- Respondo

firme.

— Já deu tudo certo! —- Ela me responde

e sai para atender o telefone que toca.

Me despeço de todos e vou descansar um

pouco, a madrugada será o palco dos acontecimentos, essa carga é importante

para o funcionamento do morro, nosso estoque está muito baixo.

Geralmente sigo os planos iniciais, mas

com os últimos prejuízos preciso encontrar “meu” cagueta, defini várias

informações desencontradas e espalhei, somente algumas pessoas sabem o plano

real.

            Estou

sem fome, mas me forço a comer algo, nunca se sabe como e quando um dia como o

que chega vai acabar, tomo um banho e brinco com meu corpo enquanto penso no

Rô.

            Preciso

muito ter um tempo com ele e tirar esse atraso quanto antes, sequer consegui

falar com ele nos últimos dias, nossas mensagens e ligações foram totalmente

desencontradas.

            Deito

um pouco e o celular logo desperta, já está na hora. Contrariando meus hábitos,

dessa vez eu deixo tudo na responsabilidade da Sabrina, aos poucos quero

deixá-la capacitada para cuidar de tudo enquanto controlo as coisas de fora.

            Animada

com o passo que tem dado rumo ao novo cargo, ela sai para acompanhar o

descarrego e conferir a qualidade do material. Ligo o monitor na minha mesa,

mas me preocupo ao ver as câmeras desligadas, chamo no rádio e estão todos

mudos.

            —

Puta que pariu! Espero que não seja o que estou pensando… — Fecho a boca e

escuto o primeiro disparo — É o que estou pensando.

Pego a minha pistola e olho pela janela,

a polícia está por todos os lados nas ruas, os tiros se tornam incessantes.

Respiro fundo e dou um passo em direção a porta.

— É tudo ou nada! — Digo para mim mesma.

— Acredite gata, ele não veio só para te prender! — Sorrio com meu pensamento “um incentivos faz bem!”

Saio em um beco me escondendo, preciso

encontrar a Sabrina, preciso sair do foco, vejo sombras correndo na rua e me

escondo embaixo de uma escada, é a polícia estourando as portas do nosso apoio.

— Ela não está aqui! — Ouço um grito

masculino, apesar da voz ser familiar, não consigo ver devido a escuridão da

noite.

Um conflito interno grita dentro de mim,

ficar e lutar junto com os meus, pronta para o tudo ou nada ou sair e retornar

quando tudo ficar mais calmo.

Decido lutar até o fim, mas assim que

saio de onde estou sou puxada por Guilherme, um dos disciplinas aqui do morro,

tento me soltar, mas ele não deixa.

— Naty, temos de ir! — Ele fala firme e eu

nego com a cabeça. — Você ajuda mais na rua do que presa, já tivemos essa

conversa antes.

Ele me puxa para a realidade e eu aceito

que é o certo, com cautela, deixamos o morro, mas meu coração se sente covarde

por deixar que todos “paguem o pato” por mim.

São tantos pensamentos que permeiam em

minha mente que não sei o que calcular primeiro, a perda da comunidade, a de

pessoal, a financeira ou ainda o restinho da minha sanidade.

Respiro aliviada por acreditar ter saído

da zona de guerra, mas antes que eu deixasse a guarda somos surpreendidos por

um policial que empunha uma arma, a rua não tem iluminação, vejo vultos e ouço

seu grito.

— Perdeu vadia! — Ele fala apontando a

arma em minha direção.

Guilherme olha em volta e me empurra na

direção que devo seguir, ele atira contra o policial e eu corro sem olhar para

trás. Ouço um tiro e vejo o projétil de bala atingir a parede ao meu lado, sem

olhar atiro e pelo gemido de dor sei que acertei.

Olho de relance e vejo que mesmo ferido

ele insiste na perseguição, ouço outros passos nos acompanhando e gritos me

mandando parar, além de tiros.

— Delegado, o senhor está bem? — Ouço os

passos reduzirem e olho para trás rapidamente.

O homem ferido é o delegado e parou de

correr, certamente perdeu muito sangue, eu devia ter atingido um pouco mais

para o lado e matado logo.

Ao chegar na esquina da rua, um carro

esporte com alguns dos meus disciplinas abrindo a porta, entro e tiros são

alvejados em nós.

Somos perseguidos pelo “Águia”, mas

depois de muitas manobras acabamos depositando e trocando de carro. Embora os

riscos de isso acontecer a qualquer momento eu nunca havia planejado uma fuga

deste tamanho.

Entramos em um motel, não é a melhor

estratégia, mas estou perdendo sangue, fui alvejada na perna e nem percebi

devido a adrenalina.

Ao menos aqui consigo providenciar

socorro, roupas e comida, penso nos lados negativos de tudo isso, mas decido

que não adianta chorar sobre o leite derramado.

Me despeço dos meus companheiros de

guerra e pego um Uber para casa, está na hora da Helena voltar de viagem e

ficar uns dias quietinha. Em casa consigo analisar tudo com mais calma.

As perdas são inimagináveis além do

pessoal que foi preso, perdermos toda a mercadoria e o esconderijo.  Fiquei muito exposta e isso não é bom.

Não vou me desesperar, ao menos feri o

delegado e já consigo saber quem é o traidor.

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Valmira Lima Da Cruz Carvalho

Valmira Lima Da Cruz Carvalho

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2023-12-19

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