Naty,
Foram tantos
dias conturbados que essa paz está me deixando preocupada, é como se fosse um
presságio de algo ruim.
— Já sabe quando vai dar um tempo? Pegar
aquela praia? — Sabrina me pergunta animada com o sossego.
— Não sei não, vamos ver como será esse
descarrego, to com uma sensação ruim. — Respondo sem tirar os olhos da janela.
— Por falar nisso, vai se antecipar
mesmo? eu acho que deveria atrasar, já que não vai seguir o cronograma inicial,
mas aí a senhora quem sabe! — Ele pergunta e eu permaneço em silêncio.
— Não pode dar nada errado! —- Respondo
firme.
— Já deu tudo certo! —- Ela me responde
e sai para atender o telefone que toca.
Me despeço de todos e vou descansar um
pouco, a madrugada será o palco dos acontecimentos, essa carga é importante
para o funcionamento do morro, nosso estoque está muito baixo.
Geralmente sigo os planos iniciais, mas
com os últimos prejuízos preciso encontrar “meu” cagueta, defini várias
informações desencontradas e espalhei, somente algumas pessoas sabem o plano
real.
Estou
sem fome, mas me forço a comer algo, nunca se sabe como e quando um dia como o
que chega vai acabar, tomo um banho e brinco com meu corpo enquanto penso no
Rô.
Preciso
muito ter um tempo com ele e tirar esse atraso quanto antes, sequer consegui
falar com ele nos últimos dias, nossas mensagens e ligações foram totalmente
desencontradas.
Deito
um pouco e o celular logo desperta, já está na hora. Contrariando meus hábitos,
dessa vez eu deixo tudo na responsabilidade da Sabrina, aos poucos quero
deixá-la capacitada para cuidar de tudo enquanto controlo as coisas de fora.
Animada
com o passo que tem dado rumo ao novo cargo, ela sai para acompanhar o
descarrego e conferir a qualidade do material. Ligo o monitor na minha mesa,
mas me preocupo ao ver as câmeras desligadas, chamo no rádio e estão todos
mudos.
—
Puta que pariu! Espero que não seja o que estou pensando… — Fecho a boca e
escuto o primeiro disparo — É o que estou pensando.
Pego a minha pistola e olho pela janela,
a polícia está por todos os lados nas ruas, os tiros se tornam incessantes.
Respiro fundo e dou um passo em direção a porta.
— É tudo ou nada! — Digo para mim mesma.
— Acredite gata, ele não veio só para te prender! — Sorrio com meu pensamento “um incentivos faz bem!”
Saio em um beco me escondendo, preciso
encontrar a Sabrina, preciso sair do foco, vejo sombras correndo na rua e me
escondo embaixo de uma escada, é a polícia estourando as portas do nosso apoio.
— Ela não está aqui! — Ouço um grito
masculino, apesar da voz ser familiar, não consigo ver devido a escuridão da
noite.
Um conflito interno grita dentro de mim,
ficar e lutar junto com os meus, pronta para o tudo ou nada ou sair e retornar
quando tudo ficar mais calmo.
Decido lutar até o fim, mas assim que
saio de onde estou sou puxada por Guilherme, um dos disciplinas aqui do morro,
tento me soltar, mas ele não deixa.
— Naty, temos de ir! — Ele fala firme e eu
nego com a cabeça. — Você ajuda mais na rua do que presa, já tivemos essa
conversa antes.
Ele me puxa para a realidade e eu aceito
que é o certo, com cautela, deixamos o morro, mas meu coração se sente covarde
por deixar que todos “paguem o pato” por mim.
São tantos pensamentos que permeiam em
minha mente que não sei o que calcular primeiro, a perda da comunidade, a de
pessoal, a financeira ou ainda o restinho da minha sanidade.
Respiro aliviada por acreditar ter saído
da zona de guerra, mas antes que eu deixasse a guarda somos surpreendidos por
um policial que empunha uma arma, a rua não tem iluminação, vejo vultos e ouço
seu grito.
— Perdeu vadia! — Ele fala apontando a
arma em minha direção.
Guilherme olha em volta e me empurra na
direção que devo seguir, ele atira contra o policial e eu corro sem olhar para
trás. Ouço um tiro e vejo o projétil de bala atingir a parede ao meu lado, sem
olhar atiro e pelo gemido de dor sei que acertei.
Olho de relance e vejo que mesmo ferido
ele insiste na perseguição, ouço outros passos nos acompanhando e gritos me
mandando parar, além de tiros.
— Delegado, o senhor está bem? — Ouço os
passos reduzirem e olho para trás rapidamente.
O homem ferido é o delegado e parou de
correr, certamente perdeu muito sangue, eu devia ter atingido um pouco mais
para o lado e matado logo.
Ao chegar na esquina da rua, um carro
esporte com alguns dos meus disciplinas abrindo a porta, entro e tiros são
alvejados em nós.
Somos perseguidos pelo “Águia”, mas
depois de muitas manobras acabamos depositando e trocando de carro. Embora os
riscos de isso acontecer a qualquer momento eu nunca havia planejado uma fuga
deste tamanho.
Entramos em um motel, não é a melhor
estratégia, mas estou perdendo sangue, fui alvejada na perna e nem percebi
devido a adrenalina.
Ao menos aqui consigo providenciar
socorro, roupas e comida, penso nos lados negativos de tudo isso, mas decido
que não adianta chorar sobre o leite derramado.
Me despeço dos meus companheiros de
guerra e pego um Uber para casa, está na hora da Helena voltar de viagem e
ficar uns dias quietinha. Em casa consigo analisar tudo com mais calma.
As perdas são inimagináveis além do
pessoal que foi preso, perdermos toda a mercadoria e o esconderijo. Fiquei muito exposta e isso não é bom.
Não vou me desesperar, ao menos feri o
delegado e já consigo saber quem é o traidor.
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Atualizado até capítulo 61
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Valmira Lima Da Cruz Carvalho
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2023-12-19
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