Capítulo 07

Naty,

Após a despedida quente demorei alguns segundos para me

recompor, novamente Sabrina liga para o meu número pessoal, de volta a

realidade, encaro a vida como ela é.

Pego o outro telefone, ligo

imediatamente para saber qual é a bomba da vez. Como o esperado, a mãe do rapaz

não aguentou sua perda calada.

— Naty, eu sei que você está se

organizando para voltar, mas temos problemas — Ela fala ao telefone e eu reviro

os olhos.

— O que foi dessa vez? — Pergunto sem

esconder minha insatisfação.

— A mãe dele está fazendo um escândalo,

deixou o morro dizendo que ia até a delegacia para resolver isso. — Sabrina

fala tensa.

— Só quem sofre são as mães, e vagabundo

não se exempla, eu ia amanhã, mas to indo agora. — Aviso e me despeço

Desligo o telefone e faço o inverso de tudo o que fiz

para vir, lá vamos nós de volta ao morro. Sou recepcionada por minha linha de

frente que não está com seu melhor humor.

A par dos últimos acontecimentos e com uma ideia de

como proceder, me reuni com o meu quadro disciplinar, debatemos sobre como

conduzir e pegamos um “entendimento” com o conselho da facção.

É uma situação bem delicada, afinal é uma mãe que está

na dor do luto, sem mencionar que já é uma idosa e religiosa.

O quadro levanta vários pontos, por fim é decidido que

ela só está exercendo sua emoção de mãe e que pode ficar segura, com algumas

ressalvas.

— Traga ela aqui assim que ela voltar para o morro —

Digo séria.

— Ok! — Sabrina me responde —

Entenderam? — Ela pergunta aos demais que confirmam em um aceno.

— A senhora é quem sabe, mas eu acho que

está sendo muito “mole”. — Um dos disciplinas fala com a voz firme e olhando

nos meus olhos enquanto faz um gesto de aspas com as mãos.

— Não estamos aqui para oprimir morador,

ela não é do crime! — Respondo em modo de ataque.

— Desculpe! — Ele pede apreensivo após

não receber apoio de nenhum outro integrante em sua posição.

— Um conselho para a vida, os

misericordiosos são dignos de misericórdia! Só tire uma vida se não tiver outra

saída. — Falo olhando firme nos olhos dele — Estão dispensados.

— Naty, tem um minuto? — Sabrina

pergunta, se aproximando. — Assim que ela foi para a delegacia eu mandei o

“gravata” do morro ir até lá, ela estava detida por desacato, acredito que ela

possa ajudar em algo para pegarmos o delegado. — Ela fala após eu confirmar.

— E esse maldito delegado não atendeu

mesmo o nosso advogado? — Pergunto impaciente.

— Nenhum dos que enviamos! — Ela

responde e eu dou um murro na mesa.

            Atualizo

mais alguns pontos com a Sabrina, me despeço e piloto até em casa, preciso

descansar, as coisas estão meio fora dos eixos, mas eu sei que é questão de

tempo se alinharem.

            A

noite é longa e o meu crush coloriu todos os detalhes das minhas emoções, o

desejo por esse homem está me deixando tão fora de mim que precisei

homenageá-lo me tocando para que pudesse dormir em paz.

Pela manhã, meu humor está melhor do que

imaginei, tomo um café e subo para a base.

Minha sala está no melhor ponto do

morro, daqui vejo todos os lados e as crianças brincando na ONG que fica

instalada aqui ao lado.

Viajo observando o vai e vem dos

moradores e me alegro ao ver a dona Maria se aproximando sozinha sem ninguém

obrigando-a.

— Dona Naty, me desculpa! Agi de cabeça

quente, não me mate por isso! — Ela pede ao me ver abrir a porta, um sorriso

singelo surge em meus lábios.

Deixei meu lado criminoso de lado e

sentei-me de frente para essa mãe e então expliquei exatamente como as coisas

funcionam e pedi o seu perdão pela morte do seu filho, mas ele sabia o que

estava fazendo e as consequências dos seus atos.

A dona Maria deixou muitas lágrimas

lavarem seu rosto, e então ela me olhou firme, com ódio e desejo de vingança,

mas eu senti que aquele sentimento não é para mim, ela já não está me odiando.

— Preciso da sua ajuda, Naty! — Ela fala

me olhando ainda fervorosa em seu ódio. — Eu quero aquele delegado morto, me

ajuda a acabar com ele!

Que reviravolta é essa? Confesso que

essa eu não esperava, sinto uma satisfação em meu peito, as coisas estão saindo

melhor que encomenda. Mantenho minha postura séria e guio a conversa para o que

preciso no momento.

Sabrina está em pé ao lado dela e me

ajuda no questionário, perguntamos e anotamos o máximo de detalhes possível.

A terminar, libero a senhora, repasso

todas as informações e tento juntar cada detalhe, mas as peças ainda não se

encaixam.

            —

Quero um olheiro na porta da delegacia, todos que tiverem qualquer

característica que ela passou deve ser fotografado, entendido? — Vou atacar com

as armas que tenho, chega de ficar um passo atrás sempre.

— Já estou indo providenciar! — Sabrina

responde e me deixa só.

Vou mostrar para esse delegadinho de

merda quem é que manda aqui, ou ele abaixa as asas ou pede transferência, se

não é caixão e vela preta.

            Contato

meu fornecedor para uma nova carga, dessa vez ele vai mandar o pessoal dele

fazer a entrega e usar uma rota nova, esse detalhe vai ficar em off por medidas

de segurança, ainda não sei se há mais traidores por aqui.

Sabrina já me alertou sobre o estoque

estar baixo e o fluxo grande, preciso correr contra o tempo para não travar o

movimento.

            — Que

dia tenso! — Digo recostando minha cabeça na cadeira e respirando fundo.

Meu telefone vibra, olho e vejo que é o

“disciplina” no lado Sul, será que é muito pedir um dia de calma? Dou um

sorriso com os meus pensamentos, sim, é muito querer calma no Morro.

— Naty, aqueles usuários da semana

passada, lembra? — Confirmo e ele prossegue — Furtaram uma bicicleta do seu

João lá da última rua ele está aqui dando queixa, eles já foram advertidos com

uma verbal, o que posso fazer agora? — Ele pergunta e eu respiro fundo para não

surtar.

            —

Hoje eu estou com um bom coração, desce 20 mangueiradas e passa a visão que na

próxima é sem massagem. — Respondo sem emoção.

O crime não perdoa erros, as punições

valem para todos sem exceção, do menor ao maior, quem erra vai receber sua

cobrança.

Ao fim de mais um dia temeroso vou para

a casa, tomo um banho e divago nos meus pensamentos, involuntariamente são

tomados pela presença imponente do Rô.

Preciso tirar um tempo para dar uma

investigada nele, ainda não sei se ele é confiável, se estava dizendo a verdade

ou não, contudo neste momento tenho outras prioridades.

Deixo de lado meus pensamentos burgueses

e foco no que realmente é prioridade, adiantar meu progresso aqui no morro.

Os dias passam em uma velocidade que não

consigo respirar, deixei algumas informações “fakes” soltas no ar para ver se

há outros traidores e a isca funcionou, a carga só chegou em segurança devido

ao sigilo do trajeto.

Odeio ter que tirar vidas, mas tem gente

que não coopera consigo mesmo, nessa brincadeira “pulou” mais dois, ao menos

nenhum deles teve familiares me dando dor de cabeça.

Não vejo a hora de arrumar tudo por aqui

e tirar uns dias de descanso na vida da Helena, minha doce e inocente

patricinha.

— Quando a senhora está aqui as coisas

fluem mais rápido! — Sabrina fala animada.

— É, mas eu estou contando os minutos

para descansar. — Respondo sincera.

— Já sabe quando vai? — Ela pergunta e

eu faço uma pausa para pensar.

— Se tudo continuar como está,

sexta-feira eu vou e volto na segunda. — Respondo e volto meu olhar para

algumas anotações.

— Sexta é amanhã! — Ela responde

surpresa.

— Meu Deus! Bom, se tudo continuar em

ordem, então eu vou amanhã à tarde e volto na segunda pela manhã. — Falo e

entrego o restante das amostras de mercadoria que estão sobre a mesa. — Agora

deixa eu ir comer que saco vazio não para em pé.

Para minha alegria, a sexta-feira corre

na mais tenra paz, finalizo tudo no morro e parto para minha vida de “burguesa

safada”.

Assim que chego na portaria do condomínio,

desço para cumprimentar o seu Zé, mais que depressa ele me informa que o Rô

esteve aqui algumas vezes atrás de mim.

— Ele queria seu contato, disse que não

conseguiu falar pelo número que tem, mas eu não passei o da emergência não. —

Ele avisa e eu sorrio.

— Obrigada seu Zé. — Agradecida acelero

em direção a minha casa.

Entro, tomo um banho digno de uma

princesa e saio do quarto vestida em um roupão, caminho até a cozinha e penso

em preparar um macarrão a carbonara.

            Enquanto

pego utensílios e ingredientes que vou usar me lembro do recado que o seu Zé me

deu.

— Droga Naty, você não está rindo não

né? — Me repreendo.

Afasto esses pensamentos pecaminosos e

decido que é melhor eu me afastar, sento-me para degustar meu prato favorito e

subo para o quarto, descansar minha mente lendo, da melhor forma, nem ligo o

celular para não distrair meu objetivo.

Leio algumas páginas e não resisto, ligo

o aparelho, mas não abro nenhuma notificação antiga, abro uma rede social, olho

algumas postagens e volto para o livro.

Não leio nem a primeira página e meu

telefone toca sem parar, silêncio sem olhar quem está ligando, pois a página

está interessante, segundos depois ele volta a chamar e eu desisto, olho e vejo

que é a Amanda.

— Voltou amiga? Vamos dar um rolê? —

Amanda convida já em clima de festa.

— Sem nenhum estímulo, acabei de chegar

de viagem. — Respondo desanimada.

— Vamos amiga, aquele boy está louquinho

por você, eu super acho que você deve se vestir bem gostosa e vir comigo. —

Amanda está tão agitada que eu começo a me animar com ela.

— Não sei, ainda nem desfiz as malas! —

Justifico como se houvesse malas para desfazer.

— Se não vier, juro que farei uma festa

na sua casa! — Ela ameaça e eu caio na risada.

— Eu me rendo, já vou me arrumar. —

Respondo divertida.

Marco a página em que parei minha

leitura e começo a me arrumar, não era a minha programação planejada, mas vamos

ver o que a vida me reserva.

Amanda manda a localização e eu devolvo

uma foto do meu look, um tubinho preto trabalhado no brilho combinando com

minha Chanel e uma sandália exclusiva, a cara da riqueza.

Entrego o carro para o manobrista, de

longe vejo o grupo de amigos, Rô nem disfarça seu olhar safado sobre mim.

— Boa noite, fugitiva! — Me cumprimenta,

dando um selinho em meus lábios.

— Prazer em vê-lo! — Respondo e

segurando em sua mão.

— Amiga, não sei se percebeu, mas eu

estou aqui também, viu? — Amanda brinca fingindo ciúme.

— Vamos dançar? Acho que eles estão

querendo privacidade. — O amigo dele a chama e ela sorri travessa, acompanhando-o.

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Comments

Ariel Pires

Ariel Pires

Vamos ver o que vai dar os próximos capítulos

2024-04-22

1

Joy

Joy

Está ficando cada vez melhor...

2024-04-22

1

Valmira Lima Da Cruz Carvalho

Valmira Lima Da Cruz Carvalho

otimo livro cada capítulo ê melhor do que o outro

2023-12-17

1

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