Capítulo 05

Naty,

— Oi! Você por aqui?

— Digo realmente surpresa.

— A surpresa é minha, sua amiga disse

que você não estaria mais na cidade. — O rapaz de ontem me cumprimenta com um

lindo sorriso, só agora me dou conta de que não lembro o nome dele, não lembro

se ele disse e fico constrangida em perguntar.

— Adiei para amanhã, assim, decidi bater

perna e aproveitar o tempo que me resta. — Digo sorrindo de volta.

— Me acompanha em um chopp? — Ele

pergunta e eu aceito, “por que não?”

Ele me dá o braço e eu o acompanho até

um dos bistrôs na praça de alimentação, nos sentamos e somos servidos, o papo

vai desde os livros que comprei mais cedo até os que ele diz ter em sua

prateleira, nossos gostos são idênticos.

Uma leveza começa a tomar conta do meu

corpo e eu me repreendo, não posso sentir essas coisas, não posso me envolver

emocionalmente com ninguém, não tem como nesta vida dupla que estou arrastando

nos últimos anos.

Não vejo rumo para me envolver e depois

virar para a pessoa e dizer “não fulano, eu tenho uma vida dupla e minha

atividade é comandar o crime organizado dominante no morro da sombra”, não dá.

— Então, Heloísa, ou será que já posso

te chamar de Helô? — Ele provoca e eu sorrio.

— Pode sim! — Respondo dando espaço para

que ele continue.

— Me fala sobre você, sua família,

trabalho… até agora sei tudo sobre os personagens, mas sobre você não sei nada.

— Que latada hein, eu não quero falar sobre mim, menos ainda sobre trabalho.

— Você podia começar, né? Eu também não

sei nada a seu respeito! — retruco num ar de criança traquina.

— Ok, dona Helô, eu começo! — Ele

responde e segura minha mão com carinho, me arrancando um suspiro tímido. —

Pode me chamar de Rô, só os íntimos falam assim comigo, trabalho com gestão de

segurança, moro só e não conheço quase ninguém aqui. — Ele dá uma ficha

genérica, pelo seu incômodo, há algo errado.

— Minha vez, Helô, 25 anos, filha única,

trabalho com representação da marca da empresa do meu pai, na verdade sou mais

herdeira do que guerreira. — Minto e brinco aliviando a tensão que se instaurou

sobre mim.

— Olha só, pela sua firmeza,

determinação, postura e livros favoritos, eu jamais te julgaria como uma

patricinha mimada pelo pai. — Ele brinca e coloca o dedo na ponta do meu nariz.

Uma nuvem toma conta de mim e uma

leveza, domina meu corpo me mantendo presa nos olhos dele. Volto a realidade

após alguns segundos de devaneio e então peço licença para ir ao banheiro.

Cavalheiro como há muito não via, Rô se

levanta para que eu vá, ao me pôr de pé sinto meu corpo desfalecer e minha

visão ficar turva.

— Helena? Helena! — Abro os olhos e

sinto vontade de me afundar no chão, estou deitada no chão com um círculo de

curiosos ao redor e Rô me chamando enquanto verifica meus sinais vitais.

— Meu Jesus, que susto! Já solicitei uma

ambulância. — Ele fala e eu sorrio.

— Que vergonha meu Deus! Foi apenas uma

indisposição. — Respondo me levantando — Já estou bem!

Embora eu já esteja melhor, ele não me

deixa dirigir e insiste em me levar até em casa, eu aceito e passo o endereço.

O percurso é curto, e falamos

exclusivamente do incidente no shopping, explico que talvez tenha sido por ter

me alimentado mal e ele se oferece mais que depressa para fazer algo para mim.

— Então há um mestre cuca em você? —

Falo divertida dando espaço ao flerte que se instaurou entre nós.

— Somente para garotas bonitas como

você. — Responde em provocação de uma maneira marota.

Fico meio constrangida e desvio o olhar,

corando involuntariamente, entro em um conflito entre razão e coração. Não! Não

posso deixar que essas emoções desnecessárias continuem afetando o meu

pensamento.

Não há chance alguma de abandonar a

organização, muito menos de um homem comum aceitar esse trabalho. Sinto o sabor

do perigo, de uma forma que não consigo explicar, este homem tão perto de mim

me impede de agir como a "Naty".

Chegamos na portaria do condomínio e o

porteiro verificou a identidade dele, ao me ver no carro autorizou a entrada

imediatamente. Seu Zé me cumprimenta com olhar preocupado, sei que é pela

companhia nunca vista.

— Boa noite, está tudo bem seu Zé, ele é

um amigo! — Tranquilizo-o, que devolve um sorriso sincero.

— Onde devo estacionar o carro? —

Pergunta fazendo manobra, reduzindo a velocidade.

— Naquela casa. — Aponto para uma

residência de luxo.

Ele para no local indicado, saímos do

carro num clima um pouco estranho, não sei se devo convidá-lo a entrar ou

simplesmente me despedir da porta.

— Chegamos! — Disse sorrindo com sua mão

apoiando minha cintura.

— Obrigada por me trazer até aqui! —

Sorrio indecisa.

Conheço todos os riscos desse inocente

envolvimento, valeria a pena? Claro que seu sorriso, corpo, braços, tudo nele

me encanta.

— Vai me convidar para entrar? Te devo

um jantar, esqueceu? — Ele se aproxima ficando bem perto de mim. — Oh! Por

favor não me olhe dessa forma, assim não vou resistir.

Que forma? Qual modo estou lhe encarando

para fazer uma expressão tão sedutora?

Me perdi por um segundo e ao voltar para

a razão me dei conta de que meus lábios estão grudados nos dele, me deixo levar

pelas emoções deslizando minhas mãos nos seus músculos, explorando cada

centímetro daquele enorme homem.

Que beijo é esse? Penso em parar, deter

esse calor, no entanto, estou sob o seu domínio. Por fim, nos separamos com seu

celular tocando.

Encarando meu rosto franzindo o

semblante, ignorou a chamada, voltando a me beijar. Infelizmente o telefone não

para de tocar.

— Desculpe, terei que atender. — Respira

fundo coçando a cabeça aceitando a chamada, sai do carro deixando seu desejo

ainda mais evidente com o volume da sua calça. — Espero que seja algo realmente importante para me interromper? —  Ouço ele impaciente antes de fechar a

porta.

Com uma expressão séria ele trocou o

aparelho de lado, fez um sinal com a mão me pedindo para esperar.

Meu celular também toca, vejo que é a

Sabrina, nesse número ela só dá um toque e o outro aparelho está dentro de

casa, preciso saber o que está acontecendo, mas ela vai ter de esperar um

pouquinho.

Não demorou até que ele retornasse, na

verdade foi até rápido.

— Sinto muito, aquela refeição ficará

para outro dia. — Toca meu queixo puxando para um beijo de despedida. — Agora

que sei onde mora não pode escapar de mim! Houve um imprevisto e preciso ir até

o escritório.

Sinto um alívio, seria complicado

conciliar essa visita e uma ligação da Sabrina

— Hum! Que medo! — Brinco lhe

provocando. — Que homem mais perigoso! Cuidado pode ser que seja eu a perigosa.

— Rimos, seguindo nossos caminhos após uma despedida “quente”.

Entro em casa jogando a bolsa no sofá

pegando o outro telefone para ligar e receber as novidades, coisa boa não era,

isso tenho certeza.

Como o esperado, a polícia está com

infiltrados no morro, em contrapartida não adiantamos um palmo em direção ao

novo delegado.

Todas as informações que obtivemos são

rasas, nada que o identifique. O típico delegado "pé no saco" que se

acha justiceiro.

Se esse cara veio a fim de estragar meu

"momento", não só tenho, como vou eliminá-lo. Matar policiais é uma

dor de cabeça sem tamanho, prefiro evitar, no entanto, não posso deixar que ele

faça o que quer e quando quer.

Matuto com meus pensamentos, talvez um

“susto” resolva, afinal, já funcionou outras vezes, não é o primeiro delegado

que tenta acabar com o crime, nem será o último.

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Comments

Brennda Germany's

Brennda Germany's

é uma história cativante, com personagens fortes, uma trama bem estruturada e uma tensão constante que mantém o leitor à beira da expectativa. A mistura de ação e dilemas morais torna o livro uma ótima opção para quem gosta de histórias de conflito e estratégia, sem abrir mão de reflexões mais profundas sobre poder, justiça e destino.

2024-10-21

0

Joy

Joy

Talvez com crime não, mas acabar com seu coração de bandidagem sim, espero.

2024-04-22

1

Ariel Pires

Ariel Pires

Capítulo bom demais

2024-04-22

1

Ver todos

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