Naty,
Aquímica que sinto pelo Rô é indescritível, no entanto
meu trabalho não permite ter muito tempo para lhe ver.
Problemas vivem surgindo no morro, além
do tal delegado não está facilitando minha vida.
— Conseguiu algo para identificar o novo
delegado? — pergunto para minha Sabrina que está de pé ao meu lado.
— Uma foto borrada. — Responde como se
escolhesse as palavras.
— Uma foto borrada? Eu sou uma piada
para vocês? — Bato na mesa estressada.
— Ele me viu, quase não consigo fugir. —
Diz tentando se justificar.
— Estou sem tempo e sem paciência, só me
apareça aqui, quando tiver algo que seja relevante! — Aponto para a porta,
minha voz não esconde minha contrariedade.
O rapaz apressa o passo, deixando-me a
sós com a Sabrina.
— Naty, não foi uma total perda de
tempo. Conseguimos obter fotos antigas e algumas informações desatualizadas,
talvez sirva para algo. — Ela me olha com reprovação e coloca a pasta na mesa.
Respiro fundo, pego a pasta, vejo
algumas fotos de um homem nada atraente, utilizando óculos fundo de garrafa,
magro, cabelo estranho, parece um personagem de desenho animado, ridículo.
— Este é o “D E L E G A D O”? — Pergunto
rindo.
Checando seu histórico, há bastante
informações, o CDF desistiu da prova para juiz no último minuto, foi
condecorado por capturas de lideranças do tráfico, e alguns recortes de
reportagem parabenizando-o seu trabalho.
Há várias acusações arquivadas sobre uso
excessivo de violência, inclusive veio transferido para cá por ter excedido no
uso da força em sua última operação o que causou lesões permanentes em um
menor.
— Então o doutor é problema? Vamos ver
quem é mais! — Deasabafo.
— Naty tem tempo? — Entra um dos
disciplinas com a expressão séria.
“Lá vem! Problemas à vista.”
— Desembucha. — Digo suspirando e sorrio
para não soar grossa.
— Pediram para descer, um garoto estava
empinando moto nas ruas, consequentemente atropelou uma criança de cinco anos.
— Ele mantém a seriedade ao dizer e eu engulo seco.
— Ele já havia sido advertido? Como isso
aconteceu? E a criança? — Pergunto aflita, pego meu telefone e saio, ele e a
Sabrina me acompanham
— A ambulância se recusa a subir na
comunidade para socorrer, pediram para levar a menina para fora da comunidade
que vão aguardar. — Ele explica enquanto me acompanha.
— Absurdo! Me diz que ao menos isso
fizeram! — Pergunto de forma retórica.
Ando alguns metros e vejo que a criança
está sendo socorrida, meus olhos ficam marejados ao notar o desespero da mãe.
A criança é levada e instantaneamente
sou cercada por todos que restam aqui presentes, exigem uma punição para o
responsável.
Embora os ânimos estejam bastante
alterados, tranquilizo a todos e dou a garantia de que o certo prevalecerá.
— Aqui ninguém passa por cima da voz,
descansem vossos corações que o certo é certo e o errado é cobrado, é como diz
o ditado “pau de dá em Chico, dá em Francisco”. — Falo e olho para Sabrina que
me acompanha.
Médicos, enfermeiras e bombeiros se
recusam a entrar na comunidade, isso é um porre, dificultando receber
tratamento dos nossos moradores, marcas de um crime brutal e repugnante que
ocorreu logo que assumi o morro.
Havia um projeto lindo de saúde com uma
médica e a Ong, eram realizados exames e consultas gratuitas, uma vez que a UBS
da comunidade fica fora dos limites do morro.
Uma das moradoras que era formada em
enfermagem fez questão de integrar a equipe e seu olhar transbordava alegria em
poder transformar a vida do seu povo, foram meses de muita alegria e orgulho
para mim e todo o morro.
Em uma viagem que fiz para a Bolívia a
fim de fechar novas parcerias, tive que voltar às pressas. Uma monstruosidade
fez com que toda a comunidade saísse dos trilhos.
Meu primeiro grande problema, e o mais
doloroso de todos, a vida da médica e da enfermeira foi arrancada de forma
brutal, seus corpos encontrados largados em um beco da comunidade.
A mídia caiu matando sobre o morro, a
polícia fez várias barreiras, um verdadeiro pesadelo, os corres praticamente
pararam por ficar inviável manter as atividades.
As duas mulheres de coração puro, só
desejavam o bem para a comunidade, mas caíram nas graças de um maníaco que as
emboscou, violentou e matou, descartando seus corpos como se fossem lixo.
As buscas foram intensas, eu desejei
muito pôr as mãos no safado, porém a “justiça” o levou e o colocou no seguro,
mas nessa ponte ainda tem muita água para rolar e eu vou cobrar com sangue os
sonhos que ele roubou.
— Naty, achamos ele, estava escondido na
casa da namorada. — Sabrina me chama me tirando dos pensamentos amargos em que
estou.
Olho a figura masculina em minha frente,
um rapaz magro, moreno, de boa aparência, provavelmente não usa nada de drogas,
mas cometeu uma falha grave.
— Senhora eu… eu… me des.…desculpe, por
favor não me mate! — chora soluçando entre engasgos.
— Você sabia o que estava fazendo e os
riscos que assumiu? —Pergunto friamente, ele afirma com a cabeça chorando. —
Ótimo, então não preciso explicar o óbvio.
Mal término de falar e a mãe do rapaz
aparece, ao me ver se ajoelha no chão, implorando pelo filho, eu devo ter
jogado pedra na cruz só pode, nos últimos dias só me aparece mães pedindo pelos
filhos irresponsáveis.
— Ele é só um menino, pelo amor de Deus,
não mate meu filho! — Fala chorando. — Tenha piedade, dona Naty.
— Dona Eugênia, se a senhora crê em
Deus, vá para casa e ore pela criança que saiu daqui ferida! A saúde dela
determinará a punição que o seu filho vai receber, vida se paga com vida.
Ela chora
inconformada com a situação, orando para seu Deus salvar seu filho e nos
punir.
— Se a criança vier a óbito, pode pular
ele, se ela se recuperar, 60 mangueiradas são suficientes. — Digo sem emoção na
voz e deixo o espaço, preciso beber uma água que esse dia está terrível.
Algumas
horas mais tarde, recebemos a notícia de que a criança está bem, sinto um
alívio correr em meu corpo.
De acordo com o que já havia sido
conversado, a disciplina é aplicada, fatalmente, antes de chegar às 60
mangueiradas, o rapaz sofre um ataque cardíaco e vem a óbito.
— Puta que pariu! — Desabafo ao pensar
na dona Eugênia.
Como esperado, ela me culpou pela morte
do filho, odeio machucar uma mãe, porém não foi intencional. Depois de muito
esforço conseguimos conter os ânimos dela, ofereci todo o suporte no funeral,
mesmo sabendo que isso não vai suprir o vazio em seu peito.
— Ao menos serve de exemplo! — Sabrina
fala me tirando dos pensamentos.
— Sim! — Respondo ainda pensativa.
— Deve estar doida para tirar uns dias
de folga, faz um tempo que está presa aqui. — Ela provoca com um sorriso.
— Nem me fala, estou pensando em ir
respirar um pouco ou vou enlouquecer por aqui. — Brinco enquanto penso em um
fim de semana em Salinas.
Involuntariamente começo a pensar no Rô
e imaginar nós dois na praia, meu desejo em encontrá-lo novamente, está sendo
oprimido pelos problemas do morro, não quero dar brechas para a mídia.
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Atualizado até capítulo 61
Comments
Ariel Pires
Dona Naty em ação!
2024-04-22
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