Capítulo 10

Naty,

Aquímica que sinto pelo Rô é indescritível, no entanto

meu trabalho não permite ter muito tempo para lhe ver.

Problemas vivem surgindo no morro, além

do tal delegado não está facilitando minha vida.

— Conseguiu algo para identificar o novo

delegado? — pergunto para minha Sabrina que está de pé ao meu lado.

— Uma foto borrada. — Responde como se

escolhesse as palavras.

— Uma foto borrada? Eu sou uma piada

para vocês? — Bato na mesa estressada.

— Ele me viu, quase não consigo fugir. —

Diz tentando se justificar.

— Estou sem tempo e sem paciência, só me

apareça aqui, quando tiver algo que seja relevante! — Aponto para a porta,

minha voz não esconde minha contrariedade.

O rapaz apressa o passo, deixando-me a

sós com a Sabrina.

— Naty, não foi uma total perda de

tempo. Conseguimos obter fotos antigas e algumas informações desatualizadas,

talvez sirva para algo. — Ela me olha com reprovação e coloca a pasta na mesa.

Respiro fundo, pego a pasta, vejo

algumas fotos de um homem nada atraente, utilizando óculos fundo de garrafa,

magro, cabelo estranho, parece um personagem de desenho animado, ridículo.

— Este é o “D E L E G A D O”? — Pergunto

rindo.

Checando seu histórico, há bastante

informações, o CDF desistiu da prova para juiz no último minuto, foi

condecorado por capturas de lideranças do tráfico, e alguns recortes de

reportagem parabenizando-o seu trabalho.

Há várias acusações arquivadas sobre uso

excessivo de violência, inclusive veio transferido para cá por ter excedido no

uso da força em sua última operação o que causou lesões permanentes em um

menor.

— Então o doutor é problema? Vamos ver

quem é mais! ­­— Deasabafo.

— Naty tem tempo? — Entra um dos

disciplinas com a expressão séria.

“Lá vem! Problemas à vista.”

— Desembucha. — Digo suspirando e sorrio

para não soar grossa.

— Pediram para descer, um garoto estava

empinando moto nas ruas, consequentemente atropelou uma criança de cinco anos.

— Ele mantém a seriedade ao dizer e eu engulo seco.

— Ele já havia sido advertido? Como isso

aconteceu? E a criança? — Pergunto aflita, pego meu telefone e saio, ele e a

Sabrina me acompanham

— A ambulância se recusa a subir na

comunidade para socorrer, pediram para levar a menina para fora da comunidade

que vão aguardar. — Ele explica enquanto me acompanha.

— Absurdo! Me diz que ao menos isso

fizeram! — Pergunto de forma retórica.

Ando alguns metros e vejo que a criança

está sendo socorrida, meus olhos ficam marejados ao notar o desespero da mãe.

A criança é levada e instantaneamente

sou cercada por todos que restam aqui presentes, exigem uma punição para o

responsável.

Embora os ânimos estejam bastante

alterados, tranquilizo a todos e dou a garantia de que o certo prevalecerá.

— Aqui ninguém passa por cima da voz,

descansem vossos corações que o certo é certo e o errado é cobrado, é como diz

o ditado “pau de dá em Chico, dá em Francisco”. — Falo e olho para Sabrina que

me acompanha.

Médicos, enfermeiras e bombeiros se

recusam a entrar na comunidade, isso é um porre, dificultando receber

tratamento dos nossos moradores, marcas de um crime brutal e repugnante que

ocorreu logo que assumi o morro.

Havia um projeto lindo de saúde com uma

médica e a Ong, eram realizados exames e consultas gratuitas, uma vez que a UBS

da comunidade fica fora dos limites do morro.

Uma das moradoras que era formada em

enfermagem fez questão de integrar a equipe e seu olhar transbordava alegria em

poder transformar a vida do seu povo, foram meses de muita alegria e orgulho

para mim e todo o morro.

Em uma viagem que fiz para a Bolívia a

fim de fechar novas parcerias, tive que voltar às pressas. Uma monstruosidade

fez com que toda a comunidade saísse dos trilhos.

Meu primeiro grande problema, e o mais

doloroso de todos, a vida da médica e da enfermeira foi arrancada de forma

brutal, seus corpos encontrados largados em um beco da comunidade.

A mídia caiu matando sobre o morro, a

polícia fez várias barreiras, um verdadeiro pesadelo, os corres praticamente

pararam por ficar inviável manter as atividades.

As duas mulheres de coração puro, só

desejavam o bem para a comunidade, mas caíram nas graças de um maníaco que as

emboscou, violentou e matou, descartando seus corpos como se fossem lixo.

As buscas foram intensas, eu desejei

muito pôr as mãos no safado, porém a “justiça” o levou e o colocou no seguro,

mas nessa ponte ainda tem muita água para rolar e eu vou cobrar com sangue os

sonhos que ele roubou.

— Naty, achamos ele, estava escondido na

casa da namorada. — Sabrina me chama me tirando dos pensamentos amargos em que

estou.

Olho a figura masculina em minha frente,

um rapaz magro, moreno, de boa aparência, provavelmente não usa nada de drogas,

mas cometeu uma falha grave.

— Senhora eu… eu… me des.…desculpe, por

favor não me mate! — chora soluçando entre engasgos.

— Você sabia o que estava fazendo e os

riscos que assumiu? —Pergunto friamente, ele afirma com a cabeça chorando. —

Ótimo, então não preciso explicar o óbvio.

Mal término de falar e a mãe do rapaz

aparece, ao me ver se ajoelha no chão, implorando pelo filho, eu devo ter

jogado pedra na cruz só pode, nos últimos dias só me aparece mães pedindo pelos

filhos irresponsáveis.

— Ele é só um menino, pelo amor de Deus,

não mate meu filho! — Fala chorando. — Tenha piedade, dona Naty.

— Dona Eugênia, se a senhora crê em

Deus, vá para casa e ore pela criança que saiu daqui ferida! A saúde dela

determinará a punição que o seu filho vai receber, vida se paga com vida.

     Ela chora

inconformada com a situação, orando para seu Deus salvar seu filho e nos

punir.

— Se a criança vier a óbito, pode pular

ele, se ela se recuperar, 60 mangueiradas são suficientes. — Digo sem emoção na

voz e deixo o espaço, preciso beber uma água que esse dia está terrível.

            Algumas

horas mais tarde, recebemos a notícia de que a criança está bem, sinto um

alívio correr em meu corpo.

De acordo com o que já havia sido

conversado, a disciplina é aplicada, fatalmente, antes de chegar às 60

mangueiradas, o rapaz sofre um ataque cardíaco e vem a óbito.

— Puta que pariu! — Desabafo ao pensar

na dona Eugênia.

Como esperado, ela me culpou pela morte

do filho, odeio machucar uma mãe, porém não foi intencional. Depois de muito

esforço conseguimos conter os ânimos dela, ofereci todo o suporte no funeral,

mesmo sabendo que isso não vai suprir o vazio em seu peito.

— Ao menos serve de exemplo! — Sabrina

fala me tirando dos pensamentos.

— Sim! — Respondo ainda pensativa.

— Deve estar doida para tirar uns dias

de folga, faz um tempo que está presa aqui. — Ela provoca com um sorriso.

— Nem me fala, estou pensando em ir

respirar um pouco ou vou enlouquecer por aqui. — Brinco enquanto penso em um

fim de semana em Salinas.

Involuntariamente começo a pensar no Rô

e imaginar nós dois na praia, meu desejo em encontrá-lo novamente, está sendo

oprimido pelos problemas do morro, não quero dar brechas para a mídia.

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Comments

Ariel Pires

Ariel Pires

Dona Naty em ação!

2024-04-22

1

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