Romero,
— Parabéns equipe. —
Digo animado, afinal deu certo, sem muitos feridos.
— Vamos, vagabundo, entre logo! — Rafael
joga o marginal na traseira da viatura.
— Deu sorte, F.D.P! — Aponto para o
rosto do rapaz. — Sem esse espetáculo teria ido de base.
O engraçadinho não demonstra
arrependimento, fico mordendo o canto da boca controlando para não dar um soco
na cara deslavada.
Somos cercados por repórteres que
insistem em filmar o vagabundo, sou obrigado a seguir em cortesia fingindo o
que não sou para ter apoio da população.
Na delegacia, mais repórteres esperam,
fotografando sem parar quase impedindo nossa passagem. Familiares apareceram como um enxame de
abelha exigindo ver o rapaz, virando uma confusão.
Além da confusão e da mídia, ainda tem a
família fazendo tumulto, contenho os ânimos e ameaço dar voz de prisão pelos
desacatos, na maioria das vezes funciona, entro para dar seguimento ao
protocolo enquanto os deixo do lado de fora ligando para algum advogado, odeio
essa raça.
Tento arrancar o máximo de informações
possíveis, levo o maldito para a “sala do diálogo”, mas não dá resultado, ele
foi muito bem instruído. Aproveito para tirar um pouco de ira do meu corpo e
vingar o agente que foi ferido por culpa desse verme.
A corporação é como uma família, ficamos
mais tempo juntos do que com em casa, arriscamos nossas vidas todos os dias nas
ruas, e só podemos confiar no parceiro que está do lado.
Quando um policial morre ou fica ferido
como foi o caso, não é só a família que sofre, mas toda a delegacia. Todos os
dias ao vestir nossa farda assumimos um compromisso com a sociedade, estamos
dando nossa vida pela segurança da população e foi por isso que eu entrei na
polícia.
Mesmo com todos os riscos, com a classe
desvalorizada pelo povo e pelo governo, salários ruins e condições precárias de
trabalho somos nós “a polícia” quem faz a linha de frente.
Ao entrar na polícia, trouxe comigo um
coração cheio de sonhos, com um ideal retirado dos contos de fadas, mas cai num
jogo do sistema, onde, ou dançamos conforme a música deles ou saímos do
tabuleiro, tal qual aconteceu comigo quando fui transferido para cá, a cartada
final sempre é dada por quem detém mais poder.
O desejo de transformar a sociedade em
um mundo melhor para nossos filhos vai sendo destruído a cada dia, ver sair
pela porta da delegacia um vagabundo que sem pudor mata, rouba, estupra e
consome sonhos é decepcionante.
Ao longo dos anos foram tantas
frustrações ao prender bandidos e ter de ser liberado por causa da justiça e ele
voltar no outro dia acusado de um crime mais grave que eu não me arrependo de
descer o braço quando tenho a oportunidade, e nem de cancelar um CPF em uma
troca de tiros.
Destoo minha ira acertando esse
vagabundo, mas sou tirado do meu transe pela voz do Rafael que me chama algumas
vezes seguidas.
— Chega, Romero! Ei! — Ele grita e eu
paro olhando para ele.
— Tá com peninha? Leva para sua casa! —
Respondo contrariado.
— O “A D E V O G A D O” está querendo
falar com o cliente dele. — Rafa fala com deboche e eu sorrio irônico.
— Vamos vagabundo! — Falo erguendo o
elemento.
Assim que entramos com o marginal o
advogado percebeu o que havia acontecido, abstraio e finjo demência para a cara
dele e o cumprimento.
— Boa noite, doutor! — Falei apontando
para a cadeira indicando que poderia sentar-se. — Vou deixá-lo a sós com seu
cliente e em cinco minutos tomamos o depoimento dele, mesmo sabendo que o
senhor vai apenas orientá-lo a permanecer calado.
— O que fizeram com ele? — Ele pergunta
irritado ignorando meu cumprimento. — Olho com um pouco mais de atenção e me
lembro que ele é um dos advogados que representam a facção da Naty.
— Nada,
olhe para ele, está inteirinho! — Digo debochado.
— Se eu fosse o senhor, doutor Romero,
eu andaria nos trilhos da lei, pelo que sei o senhor já está desfrutando da
segunda chance, pode não haver uma terceira. — Ele tenta me intimidar.
— Como o doutor não é eu, sugiro que
faça o seu trabalho e cuide mais dos seus clientes, principalmente da Naty, a
porta está ficando estreita. — Ameaço e o vejo mudar completamente sua postura.
Saio da sala e Rafael me acompanha
debochando da ameaça.
—
Achei que você daria voz de prisão pelo desacato e ameaça. — Ele fala sorrindo.
— Não ficou com medinho? — Sorrimos e entramos na minha sala.
O
escrivão já está sentado pronto para tomarmos o depoimento, mas sabemos que não
haverá nada além do silêncio.
Finalmente
acaba todo trabalho e o elemento é posto à disposição da justiça, espero que
ele demore ao menos um tempo antes de voltar para as ruas e dar trabalho para a
sociedade.
Finalizo o dia com uma entrevista, e
quando já estou saindo para ir embora descansar me aparece alguém querendo
falar comigo.
— Diga ao garoto que não estou. —
Encosto a cabeça para trás na cadeira.
— Melhor escutar o que o rapaz tem para
falar. — Rafael fala com o rosto sério, volto a cabeça arrumando o corpo na
cadeira.
— O que é tão urgente que precisa de
minha atenção? — Pergunto e o Rafael chama o jovem entra com fotos borradas da
Naty.
É a primeira vez que temos algo da
mulher, o que me deixou feliz e ao mesmo tempo frustrado, as fotos estão com
uma péssima qualidade e não dá para ver o rosto dela apenas suas costas.
— Onde conseguiu essas fotos, rapaz? —
Pergunto sério sem demonstrar ansiedade.
— Cresci na comunidade, quase todos os
dias eu vejo a Naty, senhor. — Diz trêmulo, mexendo as mãos sem parar. — Vim
pedir ajuda para salvar minha tia. — Ele levanta os olhos e fixa em mim —
Senhor, se descobrirem que vim até a aqui estarei morto, eu não sou do crime,
nunca fiz nada de errado e não compactuo com o que acontece por lá.
Vejo o desconforto dele em estar na
delegacia, olho para Rafael que compreende exatamente o que eu pedi em
silêncio.
— Vamos conversar em um local mais
tranquilo e seguro para ambas as partes. — Rafael convida e o garoto fica um
pouco mais calmo.
— Vamos fazer o seguinte, já está tarde
e pode ser arriscado sairmos daqui agora com toda essa movimentação. — Falo
ficando de pé — Vamos te ligar amanhã e você nos encontrará em outro local mais
seguro, haja com naturalidade, farei o impossível para mantê-lo bem.
Saio na frente deixando Rafael
encarregado de liberar o rapaz na porta da delegacia, assim que abro a porta do
carro, noto uma movimentação atípica e informo Rafael que já sabe como
proceder.
O dia
foi cansativo e o Rafael vai cuidar dessa situação com facilidade, certeza que
fará um termo como se o rapaz tivesse sido pego por engano em uma cena
qualquer.
Chego em casa exausto, o dia começa a
ser reprisado por minha mente e uma agonia toma conta do meu corpo, um
sentimento estranho que não entendo.
Penso no rapaz e no quanto quero falar
mais com ele, mas o cansaço e as circunstâncias me fizeram adiar esse momento,
uma oportunidade de ouro que não posso perder por pressa.
Tomo meu banho e enquanto a água escorre
por meu corpo sinto o desejo do meu corpo por Helena, aquela garota me bagunça
inteiro e eu não posso me perder nesses pensamentos.
— Tarde demais! — Desabafo ao ver meu
parceiro batendo continência.
Penso nas curvas daquela mulher, no
toque do seu corpo e o sabor dos seus lábios enquanto alívio o tesão tocando
uma para ela.
— Gostosa do caralho! — Gemo satisfeito
e terminando meu banho.
Procuro por algo na geladeira e preparo
algo para comer, um plano permeia em minha cabeça para capturar de vez aquela
vagabunda, finalmente tenho a faca e o queijo na mão.
Com um misto quente na mão e uma cerveja
na outra caminho até a sala pensando nos últimos detalhes, sento-me no sofá e
alcanço o telefone, o plano era ligar para o Rafael, mas acabo ligando para a Helena,
porém não tenho sucesso, essa garota some de forma misteriosa, preciso
averiguar isso quanto antes.
De volta ao plano inicial ligo para o
Rafael e explico o que pretendo fazer, embora pareça loucura, a melhor
alternativa que tenho é colocar um infiltrado dentro do morro e o único meio é
com esse rapaz que me apareceu hoje.
Assisto um filme qualquer, ou melhor,
deixo rodando na tv e durmo antes da metade. Pela manhã me sinto revigorado e
pronto para prender a Naty, às vezes sinto que estou naqueles desenhos infantis
onde a caça é incessante, mas ninguém pega ninguém de fato.
Antes de ir para a delegacia, me
encontro com Rafael que já pegou o rapaz, Leonardo, como privacidade é algo
importante nessa relação informante e polícia, saímos da cidade para conversar
de forma mais tranquila.
Explicamos nosso plano e ao contrário do
que imaginei, ele aceita sem pensar duas vezes e ainda ajuda na naturalização
dos fatos.
— Vou falar com a Naty hoje ainda para
ela autorizar que meu “primo distante” venha morar no morro, assim que ela
autorizar vocês enviam a pessoa, seria mais fácil se fosse uma prima, mas pode
ser um primo mesmo. — Ele explica entusiasmado.
— Por que uma prima? — Rafael pergunta
curioso.
— A Naty prioriza mulheres no trabalho,
seja nos lícitos ou nos corres. — Ele explica e eu fico intrigado com a
resposta.
Ajustamos os últimos detalhes e
voltamos, para melhorar o trânsito está caótico, depois de gastar quase o
triplo do tempo desejado conseguimos deixar o rapaz e seguir para a delegacia.
— Acha que vai dar certo? — Rafa
pergunta me olhando de canto de olho enquanto dirige.
— Eu não acho, tem que dar certo! —
Respondo firme — Essa é a nossa oportunidade.
Seguimos o resto do trajeto em silêncio,
ou melhor, sem palavras, pois minha mente estava um turbilhão de pensamentos,
dentre eles sobre o paradeiro de Helena.
Na delegacia, assim que desci do carro,
olhei sério para o Rafael e ele que já me conhece melhor que eu caí na risada.
— Estou com cara de palhaço? — Pergunto
fechando a cara.
— De apaixonado! — Ele responde tirando
onda. — Ela sumiu de novo? — Aceno que sim e ele ri.
— Quero saber mais sobre a vida dela sem
ter de perguntar. — Falo e Rafa me repreende com um olhar.
O dia passa lento e ansioso, preciso
saber o que está acontecendo no morro, Leonardo ficou de dar um retorno ainda
hoje e até agora nada.
No fim da tarde o meu telefone toca,
Leonardo me liga e agitado me diz que está autorizado, sua voz é de quem teve
que explicar muita coisa para conseguir, mas suas razões o tornaram forte e ele
deu um jeito de fazer dar certo.
Nosso parceiro se arruma e segue para o
porto, seus trajes ribeirinho e o sotaque todo, uma sacola com algumas mudas de
roupa, “importado da Ilha do Marajó” direto para a capital paraense.
Caracterizado de Uber, Rafael e o nosso
agente repassaram todos os laços familiares entre os dois para que não haja
contradição.
— Boa sorte! — Rafael deseja ao
deixá-los na entrada da comunidade.
— Égua, vamos precisar! — Leonardo diz
ao ver “a linha de frente” se aproximando.
Ao ver que se tratava de um morador eles
nos liberaram e ficaram interrogando nosso agente, com cautela nos afastamos,
pois isso já era esperado.
Algum tempo depois recebemos a
confirmação de que está tudo dentro do planejado e então consigo comemorar um
passo avante nessa guerra.
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Atualizado até capítulo 61
Comments
Ariel Pires
Vamos ver no que vai dar esse plano
2024-04-23
1
Valmira Lima Da Cruz Carvalho
Estou amando a história
2023-12-18
0