Capítulo 11

Romero,

— Parabéns equipe. —

Digo animado, afinal deu certo, sem muitos feridos.

— Vamos, vagabundo, entre logo! — Rafael

joga o marginal na traseira da viatura.

— Deu sorte, F.D.P! — Aponto para o

rosto do rapaz. — Sem esse espetáculo teria ido de base.

O engraçadinho não demonstra

arrependimento, fico mordendo o canto da boca controlando para não dar um soco

na cara deslavada.

Somos cercados por repórteres que

insistem em filmar o vagabundo, sou obrigado a seguir em cortesia fingindo o

que não sou para ter apoio da população.

Na delegacia, mais repórteres esperam,

fotografando sem parar quase impedindo nossa passagem.  Familiares apareceram como um enxame de

abelha exigindo ver o rapaz, virando uma confusão.

Além da confusão e da mídia, ainda tem a

família fazendo tumulto, contenho os ânimos e ameaço dar voz de prisão pelos

desacatos, na maioria das vezes funciona, entro para dar seguimento ao

protocolo enquanto os deixo do lado de fora ligando para algum advogado, odeio

essa raça.

Tento arrancar o máximo de informações

possíveis, levo o maldito para a “sala do diálogo”, mas não dá resultado, ele

foi muito bem instruído. Aproveito para tirar um pouco de ira do meu corpo e

vingar o agente que foi ferido por culpa desse verme.

A corporação é como uma família, ficamos

mais tempo juntos do que com em casa, arriscamos nossas vidas todos os dias nas

ruas, e só podemos confiar no parceiro que está do lado.

Quando um policial morre ou fica ferido

como foi o caso, não é só a família que sofre, mas toda a delegacia. Todos os

dias ao vestir nossa farda assumimos um compromisso com a sociedade, estamos

dando nossa vida pela segurança da população e foi por isso que eu entrei na

polícia.

Mesmo com todos os riscos, com a classe

desvalorizada pelo povo e pelo governo, salários ruins e condições precárias de

trabalho somos nós “a polícia” quem faz a linha de frente.

Ao entrar na polícia, trouxe comigo um

coração cheio de sonhos, com um ideal retirado dos contos de fadas, mas cai num

jogo do sistema, onde, ou dançamos conforme a música deles ou saímos do

tabuleiro, tal qual aconteceu comigo quando fui transferido para cá, a cartada

final sempre é dada por quem detém mais poder.

O desejo de transformar a sociedade em

um mundo melhor para nossos filhos vai sendo destruído a cada dia, ver sair

pela porta da delegacia um vagabundo que sem pudor mata, rouba, estupra e

consome sonhos é decepcionante.

Ao longo dos anos foram tantas

frustrações ao prender bandidos e ter de ser liberado por causa da justiça e ele

voltar no outro dia acusado de um crime mais grave que eu não me arrependo de

descer o braço quando tenho a oportunidade, e nem de cancelar um CPF em uma

troca de tiros.

Destoo minha ira acertando esse

vagabundo, mas sou tirado do meu transe pela voz do Rafael que me chama algumas

vezes seguidas.

— Chega, Romero! Ei! — Ele grita e eu

paro olhando para ele.

— Tá com peninha? Leva para sua casa! —

Respondo contrariado.

— O “A D E V O G A D O” está querendo

falar com o cliente dele. — Rafa fala com deboche e eu sorrio irônico.

— Vamos vagabundo! — Falo erguendo o

elemento.

Assim que entramos com o marginal o

advogado percebeu o que havia acontecido, abstraio e finjo demência para a cara

dele e o cumprimento.

— Boa noite, doutor! — Falei apontando

para a cadeira indicando que poderia sentar-se. — Vou deixá-lo a sós com seu

cliente e em cinco minutos tomamos o depoimento dele, mesmo sabendo que o

senhor vai apenas orientá-lo a permanecer calado.

— O que fizeram com ele? — Ele pergunta

irritado ignorando meu cumprimento. — Olho com um pouco mais de atenção e me

lembro que ele é um dos advogados que representam a facção da Naty.

       — Nada,

olhe para ele, está inteirinho! — Digo debochado.

— Se eu fosse o senhor, doutor Romero,

eu andaria nos trilhos da lei, pelo que sei o senhor já está desfrutando da

segunda chance, pode não haver uma terceira. — Ele tenta me intimidar.

— Como o doutor não é eu, sugiro que

faça o seu trabalho e cuide mais dos seus clientes, principalmente da Naty, a

porta está ficando estreita. — Ameaço e o vejo mudar completamente sua postura.

Saio da sala e Rafael me acompanha

debochando da ameaça.

            —

Achei que você daria voz de prisão pelo desacato e ameaça. — Ele fala sorrindo.

— Não ficou com medinho? — Sorrimos e entramos na minha sala.

            O

escrivão já está sentado pronto para tomarmos o depoimento, mas sabemos que não

haverá nada além do silêncio.

            Finalmente

acaba todo trabalho e o elemento é posto à disposição da justiça, espero que

ele demore ao menos um tempo antes de voltar para as ruas e dar trabalho para a

sociedade.

Finalizo o dia com uma entrevista, e

quando já estou saindo para ir embora descansar me aparece alguém querendo

falar comigo.

— Diga ao garoto que não estou. —

Encosto a cabeça para trás na cadeira.

— Melhor escutar o que o rapaz tem para

falar. — Rafael fala com o rosto sério, volto a cabeça arrumando o corpo na

cadeira.

— O que é tão urgente que precisa de

minha atenção? — Pergunto e o Rafael chama o jovem entra com fotos borradas da

Naty.

É a primeira vez que temos algo da

mulher, o que me deixou feliz e ao mesmo tempo frustrado, as fotos estão com

uma péssima qualidade e não dá para ver o rosto dela apenas suas costas.

— Onde conseguiu essas fotos, rapaz? —

Pergunto sério sem demonstrar ansiedade.

— Cresci na comunidade, quase todos os

dias eu vejo a Naty, senhor. — Diz trêmulo, mexendo as mãos sem parar. — Vim

pedir ajuda para salvar minha tia. — Ele levanta os olhos e fixa em mim —

Senhor, se descobrirem que vim até a aqui estarei morto, eu não sou do crime,

nunca fiz nada de errado e não compactuo com o que acontece por lá.

Vejo o desconforto dele em estar na

delegacia, olho para Rafael que compreende exatamente o que eu pedi em

silêncio.

— Vamos conversar em um local mais

tranquilo e seguro para ambas as partes. — Rafael convida e o garoto fica um

pouco mais calmo.

— Vamos fazer o seguinte, já está tarde

e pode ser arriscado sairmos daqui agora com toda essa movimentação. — Falo

ficando de pé — Vamos te ligar amanhã e você nos encontrará em outro local mais

seguro, haja com naturalidade, farei o impossível para mantê-lo bem.

Saio na frente deixando Rafael

encarregado de liberar o rapaz na porta da delegacia, assim que abro a porta do

carro, noto uma movimentação atípica e informo Rafael que já sabe como

proceder.

            O dia

foi cansativo e o Rafael vai cuidar dessa situação com facilidade, certeza que

fará um termo como se o rapaz tivesse sido pego por engano em uma cena

qualquer.

Chego em casa exausto, o dia começa a

ser reprisado por minha mente e uma agonia toma conta do meu corpo, um

sentimento estranho que não entendo.

Penso no rapaz e no quanto quero falar

mais com ele, mas o cansaço e as circunstâncias me fizeram adiar esse momento,

uma oportunidade de ouro que não posso perder por pressa.

Tomo meu banho e enquanto a água escorre

por meu corpo sinto o desejo do meu corpo por Helena, aquela garota me bagunça

inteiro e eu não posso me perder nesses pensamentos.

— Tarde demais! — Desabafo ao ver meu

parceiro batendo continência.

Penso nas curvas daquela mulher, no

toque do seu corpo e o sabor dos seus lábios enquanto alívio o tesão tocando

uma para ela.

— Gostosa do caralho! — Gemo satisfeito

e terminando meu banho.

Procuro por algo na geladeira e preparo

algo para comer, um plano permeia em minha cabeça para capturar de vez aquela

vagabunda, finalmente tenho a faca e o queijo na mão.

Com um misto quente na mão e uma cerveja

na outra caminho até a sala pensando nos últimos detalhes, sento-me no sofá e

alcanço o telefone, o plano era ligar para o Rafael, mas acabo ligando para a Helena,

porém não tenho sucesso, essa garota some de forma misteriosa, preciso

averiguar isso quanto antes.

De volta ao plano inicial ligo para o

Rafael e explico o que pretendo fazer, embora pareça loucura, a melhor

alternativa que tenho é colocar um infiltrado dentro do morro e o único meio é

com esse rapaz que me apareceu hoje.

Assisto um filme qualquer, ou melhor,

deixo rodando na tv e durmo antes da metade. Pela manhã me sinto revigorado e

pronto para prender a Naty, às vezes sinto que estou naqueles desenhos infantis

onde a caça é incessante, mas ninguém pega ninguém de fato.

Antes de ir para a delegacia, me

encontro com Rafael que já pegou o rapaz, Leonardo, como privacidade é algo

importante nessa relação informante e polícia, saímos da cidade para conversar

de forma mais tranquila.

Explicamos nosso plano e ao contrário do

que imaginei, ele aceita sem pensar duas vezes e ainda ajuda na naturalização

dos fatos.

— Vou falar com a Naty hoje ainda para

ela autorizar que meu “primo distante” venha morar no morro, assim que ela

autorizar vocês enviam a pessoa, seria mais fácil se fosse uma prima, mas pode

ser um primo mesmo. — Ele explica entusiasmado.

— Por que uma prima? — Rafael pergunta

curioso.

— A Naty prioriza mulheres no trabalho,

seja nos lícitos ou nos corres. — Ele explica e eu fico intrigado com a

resposta.

Ajustamos os últimos detalhes e

voltamos, para melhorar o trânsito está caótico, depois de gastar quase o

triplo do tempo desejado conseguimos deixar o rapaz e seguir para a delegacia.

— Acha que vai dar certo? — Rafa

pergunta me olhando de canto de olho enquanto dirige.

— Eu não acho, tem que dar certo! —

Respondo firme — Essa é a nossa oportunidade.

Seguimos o resto do trajeto em silêncio,

ou melhor, sem palavras, pois minha mente estava um turbilhão de pensamentos,

dentre eles sobre o paradeiro de Helena.

Na delegacia, assim que desci do carro,

olhei sério para o Rafael e ele que já me conhece melhor que eu caí na risada.

— Estou com cara de palhaço? — Pergunto

fechando a cara.

— De apaixonado! — Ele responde tirando

onda. — Ela sumiu de novo? — Aceno que sim e ele ri.

— Quero saber mais sobre a vida dela sem

ter de perguntar. — Falo e Rafa me repreende com um olhar.

O dia passa lento e ansioso, preciso

saber o que está acontecendo no morro, Leonardo ficou de dar um retorno ainda

hoje e até agora nada.

No fim da tarde o meu telefone toca,

Leonardo me liga e agitado me diz que está autorizado, sua voz é de quem teve

que explicar muita coisa para conseguir, mas suas razões o tornaram forte e ele

deu um jeito de fazer dar certo.

Nosso parceiro se arruma e segue para o

porto, seus trajes ribeirinho e o sotaque todo, uma sacola com algumas mudas de

roupa, “importado da Ilha do Marajó” direto para a capital paraense.

Caracterizado de Uber, Rafael e o nosso

agente repassaram todos os laços familiares entre os dois para que não haja

contradição.

— Boa sorte! — Rafael deseja ao

deixá-los na entrada da comunidade.

— Égua, vamos precisar! — Leonardo diz

ao ver “a linha de frente” se aproximando.

Ao ver que se tratava de um morador eles

nos liberaram e ficaram interrogando nosso agente, com cautela nos afastamos,

pois isso já era esperado.

Algum tempo depois recebemos a

confirmação de que está tudo dentro do planejado e então consigo comemorar um

passo avante nessa guerra.

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Comments

Ariel Pires

Ariel Pires

Vamos ver no que vai dar esse plano

2024-04-23

1

Valmira Lima Da Cruz Carvalho

Valmira Lima Da Cruz Carvalho

Estou amando a história

2023-12-18

0

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