Capítulo Quinze

Ivana

A noite cai novamente em minha cela, um manto teimosamente persistente de trevas me engole. A ansiedade e a tensão crescendo dentro de mim se traduzem em enjoos constantes, tornando impossível comer qualquer coisa.

Durante o dia, a única pessoa que vejo é uma empregada que aparece para deixar a refeição e recolher a bandeja cheia do que deveria ter sido minha comida. Qualquer tentativa de fazer contato visual com ela é encontrada com a mesma expressão glacial. Não é difícil ver que ela me despreza.

Mais uma vez, tento explicar a ela meu estado. Peço comidas leves, frutas, qualquer coisa que meu estômago possa aguentar neste momento. No entanto, ela parece ignorar minhas súplicas e continua trazendo as mesmas refeições que acabam sendo deixadas intocadas.

A monotonia da minha solidão é quebrada novamente quando ouço o som da porta sendo destrancada. Uma figura se faz conhecida na penumbra. O coração pulsa ao reconhecer Viktor. Ele segura uma sacola em uma das mãos e parece exausto, irritado.

Ele olha para a bandeja cheia de comida intocada na cadeira e revira os olhos.

- Não me diga que está fazendo greve de fome- diz sarcástico com um sorriso amargo.

Olho para ele, tentando controlar a irritação brotando em mim.

-Jamais faria isso estando grávida- contesto

- Eu tentei comer, mas meu estômago não aceita nada... talvez se trouxessem alguma sopa ou fruta, eu conseguiria comer, são comidas mais leves.

Viktor suspira, claramente estressado.

- Acha que está em um hotel cinco estrelas?- Ele diz, a voz subindo um pouco mais do que o normal.

Engulo a raiva queima minha garganta e respondo de maneira serena

- Estou grávida, Viktor. E, infelizmente, meu estômago não está aceitando certos tipos de alimentos.

Viktor bufa de exasperação. Pode parecer que não se importa, mas eu conheço Viktor. Sei que ele carrega um mundo de preocupação dentro dele, assim como eu.

- Vou mandar Veta trazer uma sopa- ele finalmente cede, o tom de voz mais suportável.

- Obrigada- digo, resistindo à vontade de chorar. Isolar-se em uma cela não é a maneira como sonhei em passar minha gravidez e, certamente, está longe de ser um hotel cinco estrelas. No entanto, não tenho escolha senão lidar com isso e tentar o meu melhor para cuidar de mim e do bebe que carrego.

Com um movimento brusco, Viktor joga uma sacola na cama, evita me olhar e sai, trancando a porta firmemente atrás de si. Me aproximo com cautela e abro a sacola, encontrando as vitaminas que eu havia pedido. Tento conter o alívio e a gratidão que ameaçam transbordar.

Logo um ronco profundo ressoa no meu estômago, lembrando-me de que, apesar do enjoo, estou faminta. A sensação de vazio parece intensificar a cada minuto, consumindo meus pensamentos.

Após alguns momentos eternos, ouço a porta sendo aberta novamente. Desta vez, Viktor retorna carregando uma bandeja com uma tigela de sopa quente , uma maçã e também uma garrafa de água. Ele coloca a bandeja no criado mudo e se senta na cadeira próximo a cama

- Coma- ele diz, seu tom frio enviando ondas de desconforto pela minha espinha.

Ajuda, porém, notar um vislumbre preocupação em sua voz. Pego a colher e começo a tomar a sopa devagar, o sabor surpreendentemente bom, o calor reconfortante se espalha por meu corpo. Em poucos minutos, o prato está vazio

- Você deveria ter pedido à Veta que trouxesse algo mais leve... apesar da sua traição, ainda carrega o meu filho. E quero que ele nasça com saúde, então não fique sem comer- Viktor dá uma bronca, sua voz ríspida ecoando pela cela.

- Mas eu pedi... ela não me deu ouvidos, achei que você também não tivesse autorizado.- digo, surpresa por sua repreensão.

Viktor parece surpreso, seu cenho se franze e ele cerrou os punhos por um momento.

-Você está satisfeita?- pergunta, olhando para a tigela vazia.

Quero dizer que sim. Quero poupá-lo de qualquer outra preocupação, mas minha barriga ronca novamente, traindo minha fome persistente. Baixo a cabeça, envergonhada de admitir minha fraqueza.

Tomo um gole de água quando ouço Viktor se aproximar. Ele pega a tigela vazia e desaparece por alguns minutos antes de voltar com outra bandeja contendo uma tigela quente de sopa.

Embora eu ainda esteja abalada pela situação, não posso ignorar a bondade subjacente em seus atos e a preocupação que ele tem com nosso filho. Em meio a todo o caos, a única certeza que tenho é o amor que guardo por ele, e o querer proteger o fruto do nosso amor que carrego.

Viktor

Após Ivana terminar a segunda tigela de sopa, algo dentro de mim se acalma. Ela parece satisfeita e isso... bom, não gosto de vê-la passar fome. Enquanto isso, uma raiva surda começa a borbulhar em mim. Eu tive que tomar as rédeas enquanto a responsabilidade era de Veta.

Volto à cozinha, encontrando Veta ocupada com a louça. Seus movimentos são calmos e certeiros, mas a olhar me dá nos nervos.

- Por que não me avisou sobre o pedido da Ivana?- Questiono, minha voz é gelada como aço.

Veta se assusta, dando um pequeno pulo e virando-se para me encarar.

- Senhor, que susto...- Ela murmura, colocando uma mão no peito.

- Como ela está presa, pensei que o senhor quisesse que a tratasse como os outros são tratados- ela confessa, seu olhar fixo em suas mãos entrelaçadas.

- Lembro de ter deixado bem claro que, apesar de estar presa, Ivana não deveria passar por necessidades por causa da gravidez- rebato com meus olhos focados nela.

Veta engole em seco, seu olhar se fixa no chão.

-Me perdoe... eu achei que ela estava querendo um tratamento especial- justifica com voz tremula.

Meu punho se fecha em um instinto de raiva. Veta é uma empregada, uma serva, aqui para cumprir ordens. Quem ela pensa que é para fazer tal julgamento sobre a minha esposa?

Me aproximo dela, minha boca curvando-se em uma careta, olhando fixamente em seus olhos.

- Nunca mais tome uma atitude antes de me consultar... Se eu descobrir que fez algo do tipo novamente, coloco uma bala na sua cabeça- rosno, um aviso disfarçado de ameaça.

Ela engole em seco novamente, com os olhos arregalados e assentindo freneticamente.

- Sim, senhor, não vai acontecer novamente- ela promete, suas palavras soando ecoantes na cozinha vazia.

Eu a deixo lá, lavando a louça enquanto eu saio, minha mente já se voltando para Ivana. Eu havia tomado uma decisão. Eu não deixaria Ivana passar por dificuldades.

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