Capítulo Quatorze

Ivana

O toque suave dos primeiros raios de sol atingindo meu rosto me desperta. No entanto, não pude dormir durante a noite. Cada palavra de Viktor, cada sussurro ainda ressoa em minha mente. Ele pensou que eu estava dormindo. Ele estava errado.

Sinto um leve movimento em minha barriga. A vida em meu ventre se agita e acaricio suavemente a área. Eu me sinto tão longe de Viktor, embora esteja carregando seu filho. É uma conexão que não podemos negar.

Mas essa conexão parece desaparecer quando escuto o som familiar da porta sendo destrancada. Dou um sobressalto, me sentando na cama. Será que Viktor voltou? Mas ao invés dele, vejo uma senhora carregando uma bandeja em direção a mim.

- Trouxe seu café- fala sem me olhar nos olhos, colocando a bandeja em cima da cadeira de madeira.

- Obrigada- murmuro ainda surpresa pela visita inesperada. Ela somente assente.

Antes que ela possa sair, eu a chamo.

- Preciso tomar algumas vitaminas... se eu passar o nome, a senhora poderia pedir a Viktor para traze-las para mim?- Pergunto timidamente, sentindo meu estômago revirar com uma onda de rejeição.

- Uma prisioneira não tem direito a esse tipo de exigência- diz ela numa firmeza calculada.

No entanto, não posso ceder.

- Ainda sou esposa do Subchefe e carrego o filho dele. As vitaminas não são só para mim mas também para o filho de Viktor- retruco, sentindo a necessidade de proteger a vida em meu ventre de qualquer perigo.

Por um momento, ela fica em silêncio. Os olhos dela focam em minha barriga antes dela finalmente me encarar

- Passe o nome das vitaminas- diz num tom ainda mais seco.

Então anoto as vitaminas que o Dr. Felipo havia me receitado e lhe entrego o papel. Ela olha para o papel sem expressão, coloca na bolsa e, sem dizer uma palavra, se vira para sair.

Assim que o som da tranca se afasta pelo corredor, me deixo cair para trás, cansada e emocionalmente esgotada. Minha mão se mantém protetora sobre meu ventre, o pequenino agito de vida em meu interior é a única coisa que parece real no meio desse pesadelo.

Olho de soslaio para a bandeja abandonada ao lado da cama. O aroma agridoce do café permeia o ar, geralmente seria reconfortante, mas hoje provoca uma reviravolta em meu estômago.

Engulo em seco enquanto uma onda de náusea me consome. Sem tempo para ponderar, me salto da cama e corro para o pequeno banheiro anexo ao quarto. Inclino-me sobre a pia e o mundo gira enquanto esvazio meu estômago.

A água fria da torneira me traz algum tipo de alívio. Enxáguo a boca, o gosto amargo e azedo se dissolve com a água que escorre da torneira. Por um momento, tenho a sensação de liberdade, mas logo sou levada de volta à minha realidade sombria. Passo um pouco da água fria no rosto, tentando me recuperar do mal-estar.

Com passos devagar e pesados, volto para o quarto. A luz do dia cria padrões no chão e a cadeira outrora ocupada por Viktor agora está vazia, tudo me lembra de minha situação.

Me deito novamente na cama. O tempo parece esticar e contrair num ritmo dolorosamente lento. O silêncio se instala, pesado e opressivo. A chata rotina da cela se apossa de mim.

Sou prisioneira no mundo do homem que amo, confinada por aquele de quem carrego o filho. O tédio é asfixiante. Deito sem nada para fazer, sem ninguém para conversar, e tudo que resta são perguntas sem resposta. Qual será o meu destino? Que caminho desse labirinto de emoções iremos trilhar, Viktor?

E, enquanto tento tecer as teias do futuro em minha mente, fecho meus olhos. Talvez contra a escuridão interna eu possa encontrar algum conforto, alguma paz. Porque, no fim do dia, apesar das cicatrizes e dores, ainda sou a Ivana que ama Viktor. E espero que algum dia, ele veja isso também.

Viktor

Perdido em um mar de pensamentos, mal escuto a batida suave na porta do meu escritório. Levanto os olhos dos papéis em minha mesa e chamo: "Entre".

A porta se abre lentamente e Veta entra. Com passos cautelosos e olhos cheios de apreensão, ela se aproxima de minha mesa.

Seus olhos castanhos estão cheios de uma tensão, mas ela se mantém firme. Veta é tia de Irina, umas das poucas aliadas que confio, a mulher que atualmente me ajuda em alguns negócios no exterior.

- Diga, Veta- ordeno, levantando as sobrancelhas em um silencioso sinal para ela começar.

Veta estende a mão, entregando-me um papel dobrado.

-Ivana pediu essas vitaminas- ela conta

- Ela disse que são para o bebê.

- Certo- murmuro, pegando o papel de sua mão. Mesmo que a dor esteja fresca, não posso ignorar que esse bebê é meu filho. Então, me preparo para pedir as vitaminas, mas algo na expressão de Veta me faz parar.

- Está tudo bem?- pergunto, estudando seu rosto. Ela parece nervosa, inquieta.

- Sim... bem... Eu tenho uma pergunta a fazer, se não for incomodo- ela tropeça nas palavras, mordendo o lábio inferior.

Faço um gesto com a mão.

- Pergunte.

- Depois que seu filho nascer... o que acontecerá com Ivana?- a pergunta dela sai mais como um sussurro, mas a sensação de desconforto e medo são bem audíveis.

Engulo em seco, surpreso.

- Por que está perguntando?- questiono, minha voz saindo mais fria do que eu pretendia.

Ela se encolhe levemente, como se as palavras ásperas a tivessem atingido.

- Não é por nada... Só curiosidade- ela murmura, evitando meu olhar.

Observo-a por algum tempo, minha mente rodando. Ainda assim, não posso esquecer do seu lugar, do meu lugar.

- Devo lembrá-la que a sua função aqui é cuidar da cozinha- falo, minha voz apesar de calma, cai como um machado.

- O que diz respeito à máfia ou à minha vida privada, não são da sua conta.

Ela parece alarmada com meu tom de voz e imediatamente começa a balbuciar desculpas. Seus olhos estão baixos quando ela sai, a porta fechando-se com um barulho surdo atrás dela.

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