Tem dias que parecem ser mais cinzentos, não têm tanta cor e às vezes o problema nem está no tempo, nem no clima, nem nas pessoas. Às vezes, o problema está em nós.
Isso não significa que saibamos distinguir e explicar exatamente qual problema é esse. Às vezes, a gente só se sente mal, fica triste, é como se algo roubasse um pouquinho do nosso brilho.
Fui a primeira a chegar na sala e me sentei no fundo, não queria receber olhares de curiosos e nem nada do tipo. Eu só quero ficar quietinha no meu canto. A Esther chegou e sentou ao meu lado e começou a puxar assunto, mas eu não estava querendo conversar.
Como minha melhor amiga, ela me conhece bem o suficiente para não insistir, ela ficou ao meu lado mexendo no meu cabelo. Assim que a Ísis entrou na sala, a Esther disse baixinho no meu ouvido: "ainda bem que olhar feio não mata, porque senão a sua namorada já tinha me matado há muito tempo". Eu apenas ignorei, não tenho cabeça para responder esse tipo de comentário, até porque a Ísis não faria algo assim.
Realmente, eu não estava bem, nem a aula da minha professora favorita estava me animando.
Eu sentia a minha cabeça tão pesada, eu estava tão cansada de tudo. Com o tempo, a gente vai enfrentando algumas situações em que a gente não se sente confortável para falar sobre isso e fica guardando tudo para si mesma.
É comum acumularmos dentro de nós uma série de sentimentos negativos, como raiva, frustração, tristeza, entre outros. Na maioria das vezes, não consigo verbalizar esses sentimentos porque nunca me senti livre para fazer isso. Desde criança, sempre ouvi o meu pai falar que tínhamos que aprender a engolir o choro e seguir em frente.
Com o passar do tempo, eu aprendi a reprimir as minhas emoções, aprendi a sufocar tudo isso e agora tudo isso está me sufocando.
A tendência de guardar tudo para si gera um círculo vicioso, onde cada vez mais emoções são reprimidas, gerando um acúmulo cada vez maior de peso emocional.
Só que tudo tem limite. Chega um momento em que a capacidade de suportar tal acúmulo de emoções chega ao seu limite, e nosso corpo começa a dar sinais de que não estamos bem. Esse mal-estar aparentemente sem motivos físicos é apenas um alerta, um pedido de ajuda. Estou sentindo os sintomas dessa sobrecarga emocional muito evidentes, estou exausta tanto psicologicamente quanto emocionalmente.
Sabe o que é pior de tudo isso? É que eu não quero sobrecarregar os outros com a minha carga emocional. Não quero deixar minha mãe preocupada porque ela já tem problemas demais. Não quero desabafar com minha amiga porque não quero despejar todos os meus problemas nela. E com meu pai, eu não falo porque não quero me sentir pior.
Quando a aula acabou, todos os alunos saíram com pressa e a única coisa que eu queria era que o tempo passasse mais devagar. Eu não queria voltar para casa, não sem antes estar um pouco melhor (tenho medo de que, por causa dos meus dias escuros, acabe cobrindo os dias azuis e ensolarados de alguém).
Enquanto eu estava debruçada sobre aquela mesa, senti quando minha querida professora se aproximou. Eu não esperava nada daquilo que ela fez.
Eu não esperava sua preocupação, não esperava seu gesto de cuidado e não esperava seu convite para almoçar.
Mas mesmo assim, eu aceitei. Aceitei o cafuné, aceitei seu convite para o almoço e também aceitei a oportunidade de deixá-la clarear um pouco meu dia cinza.
Assim que chegamos ao restaurante, Ísis escolheu uma mesa ao ar livre para nós, o que me surpreendeu bastante. Pensei que iríamos escolher uma das mesas no canto do restaurante, algo mais privativo, mas ela não fez isso. A ideia de alguém nos ver almoçando juntas não parecia incomodá-la.
— Sabe por que eu escolhi esse restaurante, Ayla? — Ísis me questionou enquanto folheava o cardápio.
Eu olhei ao redor, analisei tudo para ver se havia algo de diferente nele, algo especial.
— Não sei. — Respondi após minha breve observação.
— Escolhi porque pensei que almoçar ao ar livre ia te fazer bem, e esse lugar também é muito bonito, agradável e a comida é maravilhosa. — Ela disse, me pegando desprevenida.
Não esperava isso, não esperava receber esse gesto de preocupação e cuidado vindo dela.
— Obrigada por tentar tornar o meu dia um pouco mais agradável.
— Não precisa agradecer, só estou tentando retribuir o fato de você ter deixado o meu dia muito mais agradável por estar almoçando comigo.
— Não precisa exagerar, tenho certeza de que minha companhia hoje não é das melhores.
— Para mim, sua companhia é a melhor de todas. Dias ruins todo mundo tem e às vezes tudo que precisamos é de alguém para nos escutar sem julgamentos e sem preconceitos. Não sei se esse é o seu caso, mas se for, gostaria de te dizer que você pode contar comigo. Não precisa falar se não se sentir à vontade. A única coisa que quero deixar claro é que minha oferta não tem prazo de validade, o que significa que quando você quiser conversar, estarei disponível. — Ela falou de forma gentil e com um sorriso reconfortante no rosto.
Depois de um tempo, o garçom trouxe o nosso pedido e conversamos sobre assuntos mais leves. A Ísis me contou que ela é do sul do país e que mudou para cá para realizar seus objetivos e sonhos. Ela também me disse que é filha única e mencionou que, apesar do receio de deixar seus pais sozinhos em outro estado, eles foram os que mais a apoiaram e deram forças para ela realizar seus sonhos.
— Deve ser bom isso. Eu falei pensativa.
— Se você quiser provar, eu deixo. Ela falou, apontando para o prato de risoto à la piemontese.
— Não estou falando da comida, embora pareça excelente. Eu estava me referindo aos seus pais te apoiarem, incentivarem você a correr atrás dos seus sonhos.
— Então é esse o motivo por trás do seu olhar triste? Ela questionou, deixando sua comida de lado e me encarando com um olhar atencioso e preocupado.
— Pode confiar em mim, Ayla. O que você quiser me contar será um segredo só nosso. Eu não vou contar para ninguém. Ela falou depois que eu fiquei em silêncio.
— Eu confio em você. Só que não quero te chatear com os meus problemas. Eu falei e ela tocou suavemente a minha mão, que estava apoiada em cima da mesa.
— Então vamos fazer o seguinte: eu te conto um segredo meu que me tira o sono e você me conta o que você se sentir mais confortável para contar. Tudo bem para você, Ayla?
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Atualizado até capítulo 104
Comments
vitória
as vezes nos precisamos de alguém assim pra fazer o nosso dia fica melhor /Frown//Frown//Smile/
2025-01-22
1
Gabriela Pereira
Estou me sentindo igual a Ayla ultimamente.
2024-05-09
1
Raquel Santiago
menina, você devia ser psicóloga.
2024-04-07
0