Cheguei em casa e encontrei tudo em completo silêncio. Ultimamente, o silêncio nessa casa tem se tornado algo cada vez mais raro.
Antes, era a agitação e a alegria da Alice que rompiam todo e qualquer silêncio, mas agora o que rompe o silêncio são as discussões e as brigas exageradas dos meus pais.
Ultimamente, tudo tem se tornado motivo para brigas entre eles. É incrível como o amor que existiu um dia pode se transformar em ódio tão facilmente. Minha única preocupação é que os problemas deles acabem respingando na Alice.
Aproveitei o silêncio para analisar meu primeiro dia de aula. Para ser sincera, gostei de rever a Ísis. Sei que o que aconteceu aquela noite foi um evento isolado e que nunca vai se repetir. Até porque acredito que a Ísis Beaumont não colocaria sua carreira em risco por causa de uma aventura. Então, não vou me iludir com isso e nem criar expectativas. Por mais que eu queira, não vou fazer isso.
Verifiquei as horas e, após constatar que ainda faltava muito tempo para minha irmãzinha chegar da escola, decidi desenhar um pouco para me distrair e evitar ficar pensando besteiras.
Infelizmente, não deu muito certo. Aos poucos, as linhas que fui traçando ganharam formas e contornos, e acabei reproduzindo no papel aquilo que não sai da minha mente. Ainda que eu não tenha conseguido retratar fielmente toda a sua beleza, devo admitir que meu desenho ficou muito bom.
Desenhar é algo que eu gosto muito. Sempre gostei de desenhar e pintar. Para ser sincera, a arte me fascina desde sempre. Meu sonho sempre foi viver disso. Eu queria muito estudar artes plásticas, mas quando contei meus sonhos para meus pais, eles foram reduzidos a pó.
Me lembro muito bem do meu pai dizer que, para manter o legado da nossa família, não era necessário uma artista, era preciso uma advogada. Meu pai veio com um discurso pronto; segundo ele, era necessário manter os pés no chão e deixar os sonhos para quando eu estivesse dormindo.
Eu tentei lutar pelos meus sonhos, tentei defender as minhas ideias, mas para evitar brigas e discussões, acabei cedendo aos caprichos deles. Tanto meu pai quanto minha mãe são advogados; eles têm uma firma juntos e acreditam fielmente na ideia de que, quando eu terminar a faculdade, vou trabalhar com eles. Só que eu não vou fazer isso, não pretendo viver na sombra dos meus pais, não quero ser uma extensão deles.
Depois de algumas horas, minha mãe e Alice finalmente chegaram. Minha irmã é minha pessoa favorita no mundo. Apesar da nossa grande diferença de idade, Alice e eu nos damos muito bem; temos praticamente os mesmos gostos para comidas e filmes. Acho que isso se deve, em grande parte, ao fato de eu ter a idade mental de uma criança de 5 anos.
Minha pequena já foi chegando e se jogando em cima de mim; ela estava com o rosto vermelho, provavelmente porque estava correndo.
— Como foi o primeiro dia de aula? — perguntei, ajeitando-a corretamente no meu colo.
— Eu brinquei muito, fiz uma amiga e depois a gente brincou mais um monte. — Alice falou animada e continuou me contando sobre o dia dela.
Alice é super agitada; a pilha dela nunca acaba. Às vezes, eu queria ter um pouquinho da animação dela.
Depois que ela me passou o relatório completo do dia dela e fez um monte de perguntas sobre o meu dia, a levei para tomar banho.
— Ali, você disse que queria muito conversar comigo. Sobre o que você quer conversar? Eu a questionei enquanto vestia a roupinha nela.
— Sabia que o meu aniversário tá quase chegando? Ela me perguntou de um jeito fofo.
— É mesmo, tá pertinho... Falta apenas 6 meses. Eu falei com ironia, mas a Alice nem se importou e continuou empolgada.
— Sabe o que eu quero muito de presente? Ela perguntou.
— Não faço ideia. Mas imagino que deva ser algo muito legal.
— É muito legal mesmo. Ela concordou e fez um gesto pedindo pra mim abaixar. Eu me ajoelhei no chão ficando mais ou menos na altura dela.
— Me dá um gatinho de verdade de presente. Ela pediu baixinho como se aquilo fosse um segredo.
Já faz um tempinho que ela quer um gatinho, nas primeiras vezes que ela pediu, os meus pais deram a ela um gatinho de pelúcia. Eu pensei que ela já tinha superado isso, mas ao que parece ela ainda não desistiu de ter um gatinho.
— Eu vou falar com a mamãe e pedir pra ela te dar um gatinho. Eu falei, já sabendo qual seria a resposta.
— Ay, promete que eu vou ter um gatinho. A Alice pediu fazendo um bico de todo tamanho.
— Prometo. Eu falei e ela pulou de alegria. Graças a essa promessa, eu ganhei muitos beijos e abraços e, com toda certeza, vou ganhar muita dor de cabeça.
Descemos e deixei a Alice assistindo filme na sala e fui ajudar a minha mãe na cozinha. Enquanto fazíamos a janta, ela me contou um pouco do seu dia e eu contei algumas coisas que aconteceram no meu dia pra ela.
Aproveitei que a minha mãe aparentemente estava de bom humor e decidi contar sobre o pedido da Alice.
— Mãe, a senhora sabia que a Alice já escolheu o presente que ela quer de aniversário?
— Já escolheu! Mas ainda está tão longe. A minha mãe falou, surpresa. — O que ela quer de presente? A minha mãe perguntou.
— Nada demais, ela só quer um gatinho de verdade. Eu falei e dei de ombros.
Para mim, isso é um pedido muito simples de ser atendido. Não consigo entender por que eles não querem dar um gatinho para ela.
— Ela ainda continua com essa ideia maluca. A minha mãe falou enquanto mexia na panela.
— Eu acho que ter um animalzinho de estimação seria muito bom, sem falar que gatinhos são muito fofinhos.
— Da última vez que ela pediu, o Arthur disse não. Você sabe muito bem que o seu pai não gosta de animais. A minha mãe falou.
O meu pai deve ser a única pessoa no universo que não gosta de animais. Eu acho isso tão chato.
— Eu nunca vou entender o porquê do papai não gostar de animais. Eles são tão bonzinhos, eles não falam mal de ninguém, eles não xingam, não andam armados e nem ficam brigando por aí. Na verdade, os animais é que não deviam gostar da gente.
— Quando o seu pai chegar, você conversa com ele e tenta convencê-lo. Quem sabe você consegue. A minha mãe sugeriu e eu concordei.
Terminamos o jantar e eu fui assistir filmes junto com a Ali. A gente assistiu Zootopia e também o filme Viva a vida é uma festa. Terminamos de assistir aos dois filmes e o meu pai ainda não tinha chegado.
A minha mãe já tinha tentado ligar um monte de vezes e só dava caixa postal. A gente foi jantar, já era tarde. A minha mãe não quis jantar, apesar da minha insistência.
Um dos motivos das brigas entre os meus pais era esse: às vezes, o meu pai desligava o telefone e só aparecia muito tempo depois. Ele nunca diz onde vai ou com quem estava. Não sou nenhuma ingênua e posso imaginar muito bem os motivos desses perdidos que ele dá. A minha mãe também compartilha da mesma opinião que a minha.
Não consigo entender como a minha mãe ainda se prende nesse relacionamento que, ao que tudo indica, já terminou há muito tempo.
"O amor não é sinônimo de prisão, mas sim de liberdade..."
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Atualizado até capítulo 104
Comments
escritora anônima🖤
duvido muitoo👀
2025-01-27
0
vitória
ne super concordo 👍👍👍
2025-01-22
0
Maria Luisa
concordo
2024-03-04
1