Depois de minha mãe desabafar em forma de lágrimas tudo o que estava acontecendo, ela me pediu para, quando desse o horário, buscar a Alice no colégio.
Eu apenas concordei, para mim não seria nenhum sacrifício. A única coisa que estava me incomodando era deixá-la sozinha. Por isso, decidi que não demoraria, voltaria o mais rápido possível e, juntas, Alice e eu iríamos fazer companhia para ela, mostrando que nos importamos, nos preocupamos e, o mais importante, que ela nunca estaria sozinha.
Deixei minha mãe descansar um pouco e, quando deu o horário, fui buscar Alice. Fui no carro da mamãe e esperei por ela na frente do portão.
De longe, vi Alice conversando toda sorridente com outras crianças que aparentavam ter a mesma idade que ela. Gosto de observar a felicidade genuína de minha irmãzinha. É bom saber que os problemas dos adultos ainda não afetaram sua inocência de criança.
Assim que me viu, ela deu tchau para seus coleguinhas e veio correndo em minha direção. Me abaixei para abraçá-la e ela quase me derrubou no chão, o que me fez sorrir um pouco.
— Com essa animação toda, vou achar que você está feliz por me ver. Falei sorrindo e a pegando no colo.
— Mas eu estou feliz. Ela falou se aconchegando em meus braços e descansando seu rosto em meu ombro.
Depois de acomodar Alice devidamente no banco de trás do carro, fomos para casa. Alice passou o trajeto falando sobre os novos amigos dela, sobre os filmes que iríamos assistir, sobre os jogos que eu tinha prometido que iria ensiná-la a jogar, mas nunca tive paciência para isso. Ela também fez questão de falar sobre o gatinho que ela jura que vai ganhar.
Assim que chegamos em casa, a primeira coisa que fiz foi ir ao quarto da minha mãe e conferir se ela precisava de alguma coisa, mas ela estava dormindo e eu preferi não acordá-la.
Depois de Alice tomar banho e trocar de roupa, eu a levei para o meu quarto para jogarmos algo. Infelizmente, levamos mais tempo do que o esperado para escolher o que íamos jogar, já que os jogos que eu escolhia ela não gostava.
Depois de muito tempo, Alice decidiu que iríamos jogar "Just Dance". Esse jogo teoricamente era para ser o mais simples, já que a única coisa que temos que fazer é tentar imitar os movimentos dos avatares que aparecem na tela. Assim que os "bonequinhos palitos" apareceram na tela, arrancaram muitas risadas de Alice.
Acho que essa é a parte boa de ser criança, até as pequenas coisas são capazes de arrancar uma risada verdadeira e nunca existe momento ruim para eles.
Depois da primeira música, descobri que éramos péssimas nesse jogo. Apesar disso, foi divertido, demos muitas risadas durante as nossas tentativas falhas de reproduzir os movimentos que apareciam na tela.
A nossa bagunça e as nossas risadas acabaram despertando a mamãe, que apareceu no meu quarto e acabou sorrindo diante da cena de Alice dançando toda desengonçada.
Depois de muita insistência, a dona Melissa acabou se juntando à nossa brincadeira. Devo admitir que a minha mãe é tão ruim nesse jogo quanto Alice, e fico feliz que estejamos fazendo isso só por diversão, porque se fosse uma competição, não conseguiríamos nem o último lugar.
Quando já estávamos cansadas de jogar, decidimos assistir a um filme. Fizemos um pequeno sorteio para ver qual filme iríamos assistir e, infelizmente, "A Pequena Sereia" foi a vencedora, o que me fez soltar um murmúrio de reclamação.
Esse é um dos filmes favoritos da Ali, o que significa que já assisti tantas vezes que já decorei até as falas dos personagens.
Minha mãe pediu pizza e enquanto assistíamos ao filme, meu pai acabou chegando. Ele cumprimentou Alice com um abraço apertado e um beijo no rosto.
— Que cena mais linda, não tem nada melhor do que ver minha família toda reunida. Ele falou e tentou me cumprimentar da mesma forma que cumprimentou Alice, mas eu não permiti.
Não vou cumprimentá-lo e fingir que está tudo bem, porque não está tudo bem. Não concordo com o que ele está fazendo. Não sou hipócrita e gostaria que ele também não fosse.
— Que irônico, o senhor diz que gosta de ver a família reunida, mas faz de tudo para destruir isso. Eu falei e recebi um olhar intimidador do meu pai, acompanhado pela repreensão da minha mãe.
— Ayla, não fale dessa forma com seu pai, por favor, não arranje mais problemas. Minha mãe disse, o que me gerou uma pontada de decepção.
Alice continuou focada no desenho e parecia alheia ao clima tenso que estava na sala.
Meu pai se sentou perto da minha mãe e trouxe Alice para perto dos dois. Decidida a não continuar fazendo parte dessa ceninha de família feliz, eu me levantei e fui para meu quarto.
Comecei a ler um dos livros que Ísis indicou, na esperança de me distrair e quem sabe aprender algo útil.
Depois de um tempo, ouvi batidas na porta. Não estava a fim de falar com ninguém, então continuei lendo meu livro.
Não passou nem cinco minutos e bateram novamente na porta, só que dessa vez meu pai abriu a porta e entrou no meu quarto.
— Fico contente em te ver dedicada aos seus estudos. Meu pai disse, apontando para o livro que eu estava lendo.
— Não é como se eu tivesse escolhido isso. Me deram uma ordem e eu estou apenas cumprindo.
— Você é muito talentosa, Ayla. Tem um potencial incrível. Eu apenas te mostrei o caminho certo, eu jamais permitiria que você desperdiçasse o seu talento. Ele disse, como se tivesse o direito de decidir por mim.
— Papai, me diz, como alguém perdido pode me indicar o caminho certo?
Sua expressão facial ficou séria, sua postura ficou tensa e seu olhar vacilou por um breve segundo.
— Não faça isso, Ayla. Ele disse, me advertindo.
— Isso o quê?
— Não me desafie. Sei que você está preocupada, mas o que acontece entre mim e sua mãe só nós dois podemos resolver, porque um relacionamento é construído entre dois, e apesar de você ser nossa filha, você não tem o direito de interferir. Eu te garanto que eu vou resolver as coisas e que tudo vai voltar ao normal, só precisamos de um tempo.
— Não se pode amassar um papel e depois fazê-lo voltar ao normal, assim como também não se pode quebrar um coração e depois exigir que as peças se encaixem perfeitamente e tudo volte ao "normal".
— Não vou discutir com você, Ayla. Você ainda é uma criança imatura que não conhece nada da vida. Tenho certeza de que talvez no futuro, quando você crescer e amadurecer, a gente possa ter uma conversa. Aí você vai me entender.
— Sinto muito, se crescer e amadurecer significa normalizar essa situação, normalizar o fato de você fazer alguém que te ama sofrer... Se significa aceitar normalmente a sua indiferença diante da sua família, se for tudo isso, então, papai, eu sinto muito, porque eu não estou disposta a crescer e amadurecer.
Eu falei e ele saiu do meu quarto batendo a porta. Ele disse que ia resolver as coisas, mas eles voltaram a discutir.
Depois dessa discussão, eu recebi a visita da Alice. O quarto dela fica ao lado do quarto dos nossos pais e, se do meu quarto escutei a discussão, imagino que toda a discussão a tenha acordado.
Ela se deitou usando o meu braço como travesseiro e ficou encarando o meu teto. Deixei a luz fraca do abajur ligada para que ela não ficasse com medo do escuro.
— Por que os adultos brigam tanto? — a Alice perguntou, olhando para mim com os olhos marejados.
Como eu poderia explicar para uma criança algo que nem mesmo eu consigo entender?
— Não sei, princesa. Não consigo encontrar algo que explique isso. Talvez eles só sejam muito teimosos e não consigam reconhecer os seus próprios erros, acabando transformando tudo em um campo de batalha.
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Atualizado até capítulo 104
Comments
vitória
sim com certeza
2025-01-22
0
Raquel Santiago
ela parece a mais madura da família.
2024-04-07
1
Ray Silva
Nessa família toda a única que não está perdida é a Alice. Mas se depender dos pais, isso não durará muito tempo.
2023-11-08
6