Há muito silêncio em minha boca e muito barulho na minha cabeça.
As palavras que saíram da boca da Ayla calaram a minha voz. Não estava esperando tanta ousadia da parte dela, mas admito que ela me impressionou.
Eu nunca tive nenhum tipo de relacionamento além do profissional com meus alunos, mas até então nenhum deles tinha me interessado tanto quanto a Ayla.
Desde o primeiro momento, ela atraiu minha atenção. Por algum motivo, entre tantos, ela se destacou. Isso nunca tinha acontecido antes e agora quero descobrir até onde isso vai.
Para ter algo que você nunca teve, é preciso fazer algo que você nunca fez. É preciso arriscar e abrir mão de algumas coisas. Então, vou deixar um pouco da ética de lado, vou ignorar um pouco da razão.
A Ayla já é maior de idade e já pode tomar suas próprias decisões. E já que foi ela que disse que quer reviver aquela noite, quem sou eu para negar isso a ela?
A única coisa que precisamos fazer é conversar sobre isso e planejar uma forma de fazer isso sem que nos prejudique. Não digo isso só pela minha reputação ou pelo meu emprego, mas uma situação assim, se outras pessoas souberem, pode acabar gerando fofocas e comentários maldosos relacionados à Ayla. Podem dizer, por exemplo, que eu posso estar ajudando ela com notas e desmerecer qualquer desempenho acadêmico dela.
Não quero que comentários como esses sejam feitos. Jamais seria capaz de beneficiar qualquer aluno. Isso vai totalmente contra o que eu acredito e não acho que, em algum momento, a Ayla pediria algo assim.
Passei na secretaria e pedi o telefone de contato da Ayla. Não só o dela, pedi o de toda a turma para que não levantasse suspeitas. Usei a desculpa de que eu ia criar um grupo de estudos.
Depois de salvar o número dela, fiquei refletindo se deveria ou não mandar mensagem para ela. Optei por não mandar, pois não queria ser inconveniente e também não queria revelar como consegui o número dela.
Decidi que o ideal seria conversar pessoalmente com ela. Depois da aula, falaria com ela e perguntaria se ela realmente tem interesse em ficar comigo novamente.
Mandei mensagem para Kelly e contei a ela da minha decisão. Ela apoiou totalmente a minha decisão e, segundo ela, "estava orgulhosa de finalmente eu ter aprendido o conceito de aproveitar a vida". Ela também fez questão de frisar que "é muito melhor se arrepender de fazer algo do que se arrepender por não fazer".
Se eu dissesse que consegui dormir bem, estaria mentindo. Fui dormir já estava tarde e passei muito tempo pensando em tudo isso. Mais precisamente, estava pensando no que eu faria se Ayla dissesse que não quer.
Cheguei na universidade uma pilha de nervos. O reitor pediu para chegarmos mais cedo porque ele queria fazer uma reunião pedagógica para que pudéssemos discutir o planejamento, metodologia, disciplina, avaliação e conteúdos curriculares e extracurriculares.
Não havia nada de novo nessa reunião. Os mesmos assuntos foram debatidos, os mesmos professores chatos fizeram as mesmas sugestões chatas de atividades extracurriculares que fizeram nos anos anteriores.
Depois que aquela reunião terminou, veio a pior parte: a confraternização e socialização. É o momento em que pessoas que passam por você todos os dias sem nem ao menos falar bom dia se aproximam de você e começam a falar de assuntos aleatórios.
Mas ainda tem aqueles que eu considero um pouquinho piores, que são aqueles que aproveitam essa oportunidade para tentar flertar com você ou te convidam para almoços. Eu sempre busco uma forma sutil de deixar claro que eu não me envolvo com colegas de trabalho, nem com os meus superiores. Tinha mais um item nessa regra (não me envolvo com os meus alunos), mas esse se tornou um caso à parte e está temporariamente fora da minha regra.
Quando deu o horário da minha aula, eu peguei minhas coisas e fui para a minha sala. Os alunos já estavam devidamente acomodados. A Ayla não estava sentada na frente como ontem, ela mudou de lugar novamente. Depois de varrer meu olhar pela sala, eu a avistei sentada no fundo da sala.
Ela estava sentada de cabeça baixa e tinha uma garota ao lado dela acariciando seu cabelo. Ela estava cochichando algo para Ayla, era a mesma garota de ontem.
Dessa vez, eu não chamei a atenção delas como fiz na aula passada. Apesar de estar incomodada, eu não falei nada.
Eu comecei a dar minha aula e, felizmente, a garota se afastou de Ayla e começou a prestar atenção no que eu estava explicando.
A Ayla, por outro lado, não demonstrou tanto interesse pelo que eu estava explicando. Ela passou a aula toda distraída. Fiquei curiosa para saber o porquê dela estar tão distraída assim.
Assim que a aula chegou ao fim, a garota de cabelos castanhos se aproximou de Ayla e sussurrou algo no ouvido dela. Ayla fez um gesto de concordância e, depois de depositar um beijo no rosto de Ayla, ela juntou suas coisas e, antes de sair da sala, sorriu para mim. Sorriso este que eu não retribuí.
Restou apenas Ayla e eu na sala. Ela tombou a cabeça novamente sobre a mesa. Apesar de não saber muito sobre Ayla, tenho certeza de que essa atitude dela não é normal.
Decidida a descobrir o que estava acontecendo, me aproximei dela e me sentei ao seu lado.
— Ayla, você não me parece bem. Quer conversar sobre isso? — questionei, fazendo um leve cafuné em seus cabelos.
Ela não disse nada e nem fez menção de tirar minha mão de seus cabelos, então presumi que era para continuar, e foi isso que fiz.
— Se você não quiser conversar comigo, tudo bem. Eu sei que ainda não temos esse nível de intimidade, mas se quiser, podemos sair para almoçar e, quem sabe, assim você consegue se distrair um pouquinho, hein?
Ayla ergueu o rosto e olhou nos meus olhos, como se estivesse tentando enxergar algo além das minhas palavras. Não faço ideia do que está acontecendo, não sei quais são os problemas dela, mas a verdade é que a única coisa que quero é deixar o dia dela um pouquinho melhor.
— Mas isso não vai te trazer problemas? — questionou ela.
— Neste momento, não estou preocupada com isso, e não vejo nada demais se a gente, por coincidência, ir almoçar no mesmo restaurante. Até porque coincidência é algo bastante comum entre nós.
— Você tem razão. Então, em que restaurante a gente, por coincidência, vai se encontrar? — perguntou ela, com um pequeno sorriso no rosto.
Ainda não é o sorriso que espero ganhar, mas já é um começo.
— Então, já que, por coincidência, estamos indo para o mesmo lugar, que tal uma carona? — questionei, e ela sorriu novamente.
— Na verdade, estou de carro — falou ela, mostrando a chave que estava no bolso do seu casaco.
Não estava contando com isso.
— Ok, então nada de carona. Então a gente pode ir almoçar naquele restaurante italiano que fica a umas três quadras daqui.
— Tem certeza de que eu não vou te atrapalhar? Ela perguntou, levantando-se e pegando suas coisas.
— Tenho certeza absoluta. Eu também me levantei e fui pegar minha bolsa.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 104
Comments
vitória
kkkkkkkkkkkkkkk ne
2025-01-22
0
Raquel Santiago
mulher, esse chá foi forte mesmo em.
2024-04-07
3
Raquel Santiago
que situação.
2024-04-07
0