Luana
Acordar com o raio de sol adentrando meu quarto, e o canto do galo aqui no sítio da minha tia, anunciando a chegada do novo dia, me faz abrir os olhos e despertar.
Enquanto olho para o teto, sinto uma calmaria, uma serenidade. É como se o fluxo do dia, o tempo aqui fosse diferente, me sinto em sincronia com o ciclo da vida seguindo seu percurso.
Essa atmosfera me faz relaxar e por um momento me permitir refletir sobre quem eu sou, e sobre a responsabilidade que recai sobre mim. Ser forte o tempo todo é incrivelmente cansativo.
Já passei por tantas provações nessa vida. Minha tia e minha prima são tudo que tenho aqui. Minha mãe partiu cedo, meu pai, por outro lado, me rejeitou.
Aquele que deveria ter protegido sua filha foi o mesmo que desejou minha morte várias vezes. Quando descobri fazer parte de algo tão grandioso como a Ordem Celestial e trazer a centelha divina do amor, foi algo surpreendente.
Afinal, eu, a garotinha que sempre foi rejeitada, que teve sua infância marcada pelo caos, fazer parte de algo dessa magnetude, pareceu irreal para mim naquele momento.
Quantas vezes meu pai chegava bêbado, e quantas vezes eu, a pequena Luana, olhava para ele buscando amor e compreensão. Mas, todas as vezes, aquele olhar vazio e frio era a única resposta que eu recebia.
Lembro-me de todas as vezes em que ele me disse que desejou que eu tivesse morrido quando nasci. Refletindo sobre minha infância, percebo que, apesar de tudo, o amor sempre esteve dentro de mim.
Quantas vezes aquela criança que eu era olhou para o céu estrelado e, com toda sua fé, implorou para que as forças do bem não permitissem que a maldade do mundo, o veneno letal desse vírus, consumisse seu coração.
Agora, aos 31 anos, compreendo que o que senti desde a infância tinha um significado maior. Todas as vezes que sofri bullying na escola, todas as vezes que fui chamada de estranha, tudo isso parece ter sido um treinamento, pelo menos é assim que vejo agora.
Afinal, qual a melhor maneira de nos manter despertos senão através da dor? No entanto, isso tem um preço alto a pagar. Agora que conheço tantas coisas, às vezes penso que a ignorância pode realmente ser uma bênção para algumas pessoas.
Apesar de tudo, me sinto privilegiada por ter sido escolhida, por ser uma das escolhidas pela Ordem Celestial. Sei que isso é apenas o começo, algo ainda maior está por vir, e estou pronta para enfrentar o que quer que o destino reserve para mim.
Logo sou surpreendida por Belinha, que entra correndo em meu quarto e se joga na cama sobre mim. Toda eufórica, ela diz:
— Luana! Luana! A mamãe perguntou se você pode me levar até a escola?
Rindo para ela, respondo:
— Claro! Mas com uma condição.
Ela me olha curiosa, perguntando:
— Qual é?
Pegando-a no colo e rindo, digo:
— Vou fazer cócegas em você.
Começo a fazer cócegas, e ela ri muito. Paro as cócegas, ambas sorrindo com a respiração descompassada.
Ela me olha, entre sorrisos, e diz:
— Eu amo você, Luana.
Olho para ela, dou um beijo em sua testa e digo:
— Eu também te amo, Belinha, muito mesmo.
Minha tia entra no quarto e nos avisa:
— Se você for levar ela, Luana, vocês precisam se apressar.
Olho para Belinha sorrindo e brinco:
— Olha só, Belinha, acho que alguém mais aqui está precisando de cócegas.
Belinha concorda com a cabeça e diz:
— É verdade, atacar!.
Minha tia nos olha e sai correndo, enquanto nós duas a perseguimos. Tia Clara ri e grita:
— Socorro, estou sendo atacada por cócegas severas!
E assim, após ela dizer isso, caímos todas na risada, especialmente eu e Belinha. Nossos risos enchem o ambiente, criando uma atmosfera leve e alegre que parece afastar qualquer sombra de preocupação.
A brincadeira se estende pelo corredor e se espalha pelo quintal, até que finalmente paramos ofegantes, abraçadas em meio à diversão. Olhando para o céu azul e sereno, sinto um profundo contentamento preencher meu coração.
Às vezes, é nos momentos mais simples e genuínos que encontramos a verdadeira essência da vida. A cada risada compartilhada com Belinha, a cada instante de alegria, eu me reconecto com a razão pela qual luto, pela qual me tornei uma guardiã Lunar.
Após nos acalmarmos, tia Clara nos chama para o café da manhã. O aroma das panquecas recém-preparadas enche a cozinha, e sentar à mesa com minha família, mesmo que pequena, é um tesouro que valorizo imensamente.
Enquanto mastigamos e conversamos animadamente, sinto uma gratidão profunda por cada momento vivido, por cada desafio superado e por cada vitória conquistada.
Ser uma guardiã Lunar pode ser uma jornada árdua, mas encontro forças para continuar quando penso em como meu propósito é maior do que eu mesma, como estou contribuindo para o equilíbrio do universo.
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Atualizado até capítulo 51
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