── Esther Richards ──
Tenho um nó em minha garganta e um enjôo chato por perceber a falsidade dos meus pais e dos pais do meu agora marido. Eles agem como se o nosso casamento tivesse sido algo planejado por nós dois e, depois de muito esforço, posto em prática. Não sei como podem existir pessoas que agem desse jeito... Por dinheiro. Porque os meus pais me colocaram nessa situação por causa do dinheiro prometido pelos pais de Chad, e os pais dele também se beneficiaram com esse casamento, já que agora não vão mais precisar cuidar e se responsabilizar pelos cuidados extras do filho.
Literalmente, jogaram tudo no meu colo sem se importar em como eu faria para me virar com esse homem que ao menos conheço.
Eu só tenho 23 anos. Não pretendia me casar agora, na verdade, queria mesmo era cursar alguma faculdade, fazer algo que gosto antes de me submeter a um casamento. Eu não tenho nada, meus pais nunca se deram o trabalho de me dar ao menos um veículo para que eu pudesse me deslocar para a escola em que eu estudei, quando fazia um curso de francês. Eles nunca gostaram de mim, não sei nem porque se dispuseram a me adotar, se tivessem me deixado lá eu poderia estar com outras pessoas que, provavelmente, me tratariam melhor e me amariam.
Eles nunca me amaram de verdade, e eu demorei muito tempo para perceber isso, já que achava que era filha legítima quando era criança. Nunca entendi o porquê de ter sido adotada por eles, mas uma vez, há muitos anos atrás, Bryant me disse que só fui adotada pois, na época, sua mãe estava tentando engravidar de uma menina mas como não estava conseguindo (ela sempre sofria abortos espontâneos) Paul, o seu marido, me adotou para tentar fazê-la feliz, achando que uma filha adotiva seria suficiente para ela.
Obviamente, Mariah não aceitou a ideia muito bem e não gostou dessa decisão tomada pelo seu marido. Entretanto, ele já não me podia devolver e para fazer isso, de acordo com o regimento do orfanato, ele precisaria pagar uma multa altíssima caso não cedesse provas concretas do porquê estar me devolvendo. Digamos que, arrepender-se da adoção não é lá um motivo válido para devolver uma criança para o orfanato de onde foi tirada.
Pela rejeição que sofri, Paul começou a não gostar de mim também e assim, nasceu o rancor profundo que a família Richards tem ao meu respeito. Por isso mesmo me entregaram facilmente para uma família de ricaços que negligenciam o próprio filho deficiente visual e não tem pena dele quanto a isso. Se eles fazem tamanha atrocidade com o próprio filho, imagina o que farão comigo? Realmente, uma maldade sem tamanho, mas o que a "minha família" está visando nessa união, é só o dinheiro que estão recebendo para eu continuar casada com aquele que eu acabei de descobrir se chamar Chad Victor.
Não sei quem ele é, e não sabia ao menos o seu nome. Só descobri porque chequei no papel que estou assinando, concordando em ser a sua esposa. ── Está com medo, querida? ── Jana, a minha "sogra", perguntou fingindo uma preocupação e cordialidade que eu sei bem que ela não tem. Para mim, ela nem deveria ser chamada de mãe. Fiquei em silêncio, e como nada saiu da minha boca, ela sorriu e olhou para meus pais, que estavam bem atrás de mim e aí eu senti um beliscão na pele sensível do meu braço, e depois notei que foi Bryant quem fez isso
── O gato comeu a sua língua, querida irmã? ── perguntou ele, num tom ameaçador e levemente debochado. Ergui uma sobrancelha.
── Ah, não se preocupe Bryant! Ela só está um pouco tímida, com medo... Mas isso é normal no começo. ── Jana explicou e eu me surpreendi pela forma como ela parece ser uma ótima e simpática mulher, mas só aparenta mesmo. Infelizmente. ── Chad é um ótimo homem, ele não dá trabalho. Vocês vão se acostumar um com o outro.
── Sim, eu tenho certeza. ── falei baixo, pois meu "irmão" continuava me beliscando, agredindo o meu braço. Ficou dolorido! ── Me desculpe, Sra. Ancelotti. Só estou me sentindo um pouco indisposta. ── menti e a velha acenou, como se não acreditasse nas minhas desculpas mas também não iria perder tempo me fazendo qualquer pergunta.
── Está tudo bem, querida. Vou te mostrar o quarto do meu filho assim que ficarmos a sós, sei que está sem graça com a presença dos seus pais aqui. ── não olhei para os que estavam atrás de mim, mas sabia que ficaram sem graça pela forma como o clima mudou drasticamente após esse comentário ── Me espere aqui. Meu marido está esperando seus pais no escritório dele. Por favor, me acompanhem! ── Jana ainda soou bem educada, mas eu sei que ela já não aguenta a presença dos Richards em sua casa.
É uma mulher rígida, mas mantém a "classe" e "elegância".
Depois que fiquei sozinha, olhei em volta me surpreendendo de verdade pela magnitude dessa casa, que, por sinal, pertence ao Chad. Pelo que eu entendi, ele já não mora com seus pais, mas a mansão deles fica no mesmo condomínio, então a locomoção deles dentro do bairro irritantemente luxuoso se dá por meio de quadriciclos mais atualizados e super bem construídos, que são pilotados pelos funcionários dos Ancelotti. Por sinal, nem um deles dirige uma palavra a ninguém, são sérios e formais, formais até demais.
Fiquei parada ali no meio da sala, sem nem me mexer. Estava bem desconfortável, não conseguia nem respirar direito pela tensão que sentia, além da vontade massacrante que estou sentindo de chorar. ── Ei. ── ouvi uma voz feminina rígida, soando um pouco mais ao longe e me virei na direção da mesma, vendo na entrada de um outro cômodo da casa uma mulher, de aparentemente 38, 39 anos, mas estava bem vestida. Pela roupa que está usando, eu julgo que seja uma funcionária da mansão também. ── Você é a Esther Richards?
── Sou. ── respondi extremamente sem graça pela forma como ela parece estar me acusando com o olhar, mas creio que deva ser apenas impressão minha, já que estou me sentindo mal aqui. ── Por quê?
── O Sr. Ancelotti está lhe chamando. ── falou apenas isso e se virou, me dando as costas ── Me acompanhe. ── e ela nem disse "por favor", então esse pedido não soou bem como um pedido e sim como uma ordem.
Não falei nada, mas a segui por entre os corredores da casa, me surpreendendo novamente pela forma como tudo parece se encaixar aqui. Essa casa foi minimamente detalhada e planejada, o piso é de porcelanato acetinado branco e brilha tanto, creio que isso deva dar muito trabalho para limpar. ── Por aqui, senhora. ── quando chegamos, ela apontou para uma enorme porta e não deu nem um passo, mais como se eu tivesse que entrar ali dentro e me virar com o... O meu...
Ah, droga.
── Oh... Eu... ── tentei buscar palavras, alguma desculpa para não entrar ali e ficar de frente ao meu marido e lidar com a sua aparência agora, esta que tanto julgam e dizem estar terrivelmente horrível.
Eu não quero acabar me assustando e o ofendendo, pois sei que sua autoestima não deve estar das melhores depois de tudo o que aconteceu, mas não consegui. Eu não consegui pensar em nada tão convincente para usar com essa mulher, até porque ela me olha de um jeito ameaçador, como se soubesse o que estou pensando e não me desse nenhuma alternativa a não ser entrar. ── Tudo bem. Obrigada.
── Ele está no aguardo. ── foi em questão de segundos que a mulher simplesmente desapareceu e me deixou sozinha. Então, sem qualquer escapatória, eu bati na porta e não ouvi uma só palavra. Não ouvi nada, e logo testei a maçaneta, percebendo estar destrancada.
Engoli a seco e entrei no quarto, me assustando com o ambiente escuro, sem nem um tipo de iluminação. Espremi os olhos e tentei ver alguma coisa, mas não conseguia. Já comecei a me assustar, até que ouvi uma respiração pesada e logo em seguida, as persianas das janelas se abriram e eu pude vislumbrar o quarto maravilhoso em que estava.
Havia uma enorme cama, com cobertores aparentemente grossos e travesseiros fofinhos. Um lustre incrível pendurado no teto, mas não estava aceso, então a luz ambiente era pelo fato de estar dia mesmo. Além do mais, as paredes do quarto são feitas de vidro, então consigo ter uma visão periférica do jardim, mas não vejo o solo, então creio que, pela localização, ninguém vá ver o que acontece aqui dentro. Parece mais uma cobertura, uma cobertura incrivelmente bela e que eu provavelmente, não sairia se fosse minha.
Um pouco mais a frente, consegui ver a silhueta de Chad. Ele está de costas para mim, direcionado ao jardim. Não virou em nenhum momento e eu agradeci por isso. Oh, como agradeci. ── Srta. Richards. ── ele disse o meu sobrenome de maneira baixa, firme e rouca, o que me arrepiou dos pés à cabeça.
── Sou eu. ── falei no mesmo tom que o dele, tentando não soar tão nervosa, para não lhe dar esse gostinho de vitória sobre mim.
── Temos muito o que conversar.
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Atualizado até capítulo 123
Comments
Vera Prado
vamos lá. 24.03.25.
2025-03-25
1
Dany
vamos lá — 29/09/2023 as 10:22
2023-09-29
3
Geo_Silva
a escrita perfeita
2023-09-27
0