Após o meu — trágico — café da manhã, eu decidi voltar ao meu quarto e tentar ler algum livro, dentre os cinco que trouxe. Todos eles já haviam sido lidos por mim em algum momento da minha vida, mas de repente, senti que hoje eu precisava ler novamente, já que não tenho nada demais para fazer e se não buscasse entreter-me com algo de útil, meu dia seria exatamente da mesma forma que a noite anterior. Eu me renderia ao choro, porque não consigo ser tão humilhada e não poder sequer falar um "a" para me defender.
Entretanto, meus planos foram frustrados quando a minha sogra, repentinamente, entrou no meu quarto sem autorização. Eu obviamente estranhei, não sei ao menos porque ela ainda está aqui já que a sua casa não é essa. Ela me olhou de um jeito estranho, sério e sem qualquer simpatia e eu, instintivamente, acabei me sentando na cama para lhe dar a devida atenção. ── Aconteceu algo, Sra. Ancelotti? ── perguntei educadamente, não porque estou preocupada.
── Ah, querida. Não seja tão formal, me chame de Jana mesmo. Ficarei extremamente agradecida. ── surpreendentemente, sua expressão séria caiu quando ela me rebateu e eu concordei, ainda confusa ── Eu só vim aqui pedir para você me acompanhar, já que quero te mostrar e ensinar tudo o que você precisa saber sobre os cuidados que terá com o Chad a partir de agora, ── ergui as minhas sobrancelhas, mas a ouvi com atenção ── Jackson realmente foi despedido, não vimos mais necessidade em mantê-lo como cuidador do nosso filho já que você está aqui.
Meu coração afundou dentro de mim ao ouvir isso, assim como meus ombros, que caíram. Então eles realmente pretendem me manter aqui, presa ao Chad e ainda sendo humilhada de diversas formas por ele. Eu devo ter lançado pedras na cruz para merecer tamanho castigo ── Tudo bem, Esther? ── perguntou ela depois de um breve momento em que passei em silêncio, digerindo aquelas informações e tentando aceitar a minha nova vida.
── Ah, claro! Está tudo bem sim, só estava um pouco distraída. ── eu sorri e ela pareceu acreditar em mim, pois acenou levemente com a cabeça
── Certo, eu entendo. Mas também devo pedir para você tomar mais cuidado quanto à essas distrações, já que para cuidar de Chad, é necessário muita responsabilidade. Você também vai precisar manusear os remédios que ele toma diariamente. ── ela foi explicando e já caminhando para fora do quarto, olhando brevemente para mim como quem me convida para acompanhá-la.
Contragosto, eu precisei fazer exatamente isso já que não queria nem uma discussão a essa hora, minha cabeça está cheia o suficiente. A propósito, até mesmo a minha vontade de ler passou voando.
Jana foi me dizendo alguns dos remédios que Chad toma, me apavorando já que eu sabia que não poderia memorizar tudo aquilo, tampouco os horários. Eu sou péssima em lembrar de qualquer coisa. ── Jana, eu não consigo mem-
── Quanto a isso, não precisa se preocupar, Esther. Tudo o que eu estou dizendo e ainda um pouco mais do que você precisa saber está dentro daquele manual, ── ela apontou para um livro grosso em cima do balcão da cozinha ── Até mesmo os remédios que ele começou a tomar após a cirurgia está ali, você vai poder se informar corretamente quando ler com mais calma.
── Não entendi... Após a cirurgia? ── perguntei num ímpeto de curiosidade, mas preocupada ao mesmo tempo.
Vejo que cuidar de Chad exige muita responsabilidade e é isso o que eu temo.
── Sim. Há dois anos, Chad passou por uma cirurgia para tentar reverter a sua cegueira, mas não adiantou. Ele tinha bastante esperança de que pudesse voltar a enxergar, e como isso não aconteceu, ele acabou ficando depressivo e precisa desses remédios em seus momentos de crise e até mesmo para evitá-las. ── Jana explicou tudo pacientemente, e mesmo que ela tenha tomado uma péssima decisão em nos casar, eu percebi que se importa com Chad, pois a dor em seus olhos ao falar sobre isso diz muito sobre.
Mas não sei o que aconteceu para ela deixar seu amor pela fama e uma boa posição na sociedade ultrapassar o amor de mãe que deveria haver em seu coração. É quase como se Chad não tivesse uma mãe, e nisso eu tenho que admitir que somos extremamente parecidos, porque a minha "mãe" também não me ama nem um pouco e àquela que me trouxe ao mundo me abandonou quando eu ainda era uma bebê.
── Entendo. ── eu respondi, me sentindo mais mal do que já me sentia com essa informação. Chad sofre muito, acho que agora eu consigo entender o porquê de ele ser tão amargo com as pessoas ao seu redor.
Seus pais não o amam verdadeiramente, o abandonaram nessa mansão aos cuidados, inicialmente, de um homem desconhecido e agora, nas mãos de uma mulher que ele também não conhece... Não pode viver a sua juventude e nem sair na rua para não manchar a reputação de seus pais; as pessoas acham que ele é um monstro e ficou desfigurado depois do acidente e o pior... Todas as suas esperanças acabaram depois de uma cirurgia mal-sucedida.
Realmente, ele vive uma péssima vida. Eu acho que o que eu vivi não se compara, não chega nem ao rastro do que esse homem vive há tantos e tantos anos.
Jana me explicou que iria viajar com o seu marido a trabalho e me pediu, gentilmente, que eu cuidasse bem do Chad. Eu não cheguei a garantir que iria dar tudo certo, mas prometi tentar. Até porque Chad já demonstrou que me odeia, ele não me deu a chance nem de eu explicar o que me trouxe a esse casamento mentiroso, mas está tudo bem.
Tendo em vista o sofrimento dele, eu acho que vai ser de extrema importância que eu, pelo menos tente ser gentil e conquistar a confiança dele. O que eu acho muito difícil, mas não é impossível e eu não sou do tipo que desiste fácil.
Mas também não sou do tipo que me humilha por atenção e nem implora que as pessoas façam por mim o mínimo. Entretanto, eu não tenho muitas escolhas com o Chad. Ele precisa de mim, não consegue se cuidar sozinho e pode morrer sem os seus medicamentos.
Ou seja, eu estou ferrada!
•••
Depois que Jana saiu, eu me dei o trabalho de ler e tentar entender a rotina do Chad. Ele toma alguns remédios no decorrer da semana, mas não são muitos. O problema é que alguns deles são bem fortes e a mãe dele já me disse que, pelo fato de estar sempre tomando essas medicações mais fortes, ele acabou tendo uma úlcera no estômago e sofreu por muito tempo com isso.
Até hoje, ele sente algumas dores e quando isso acontece, é necessário fazer um chá natural para ele ingerir, já que dar a ele analgésicos não adiantaria muito, visto que o problema dele é justamente por causa dessas medicações.
Agora, preciso levar algo para ele comer, já que não se alimentou pela manhã. Fiquei sabendo também que, caso ele não coma nada, pode sentir desconforto estomacal. Ou seja, o cara é praticamente um recém-nascido que eu preciso cuidar agora.
Peguei algumas frutas, umas torradas, suco de maracujá... Um pouco de cada coisa que foi servida no café da manhã. No "manual" que Jana me apresentou, eu vi também as comidas que ele mais gosta e vejo que o café da manhã foi feito justamente pensando nisso. O que não é de se admirar, já que eu estou na casa dele.
Não peguei muita coisa, peguei bem pouco para que pudesse equilibrar numa bandeja prata que Maise me deu. Quando cheguei no quarto dele, bati suavemente na porta e já fui abrindo, o vendo sentado na borda de sua cama, meio pensativo. ── Chad... ── quando eu falei o nome dele, ele bufou, pigarreando. ── Trouxe algo para você. Precisa se alimentar.
Ele continuou inexpressivo e eu senti o suor escorrendo pelo meu pescoço, tamanho o nervosismo que estou sentindo.
Só espero que ele não resista muito para comer.
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Atualizado até capítulo 123
Comments
Carla Vitória
Leve o pano e o balde, você provavelmente vai precisar. E prepare-se para mais humilhação.
2024-09-01
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Carla Vitória
Cadê a funcionária da mansão? Será que eles mandaram todo mundo embora? Não pode ser, né? Eles tomaram café da manhã, então alguém fez e serviu.
2024-09-01
0
Carla Vitória
Estou começando achar o contrário.
2024-09-01
0