Fazia muito tempo desde que coloquei os pés em uma casa noturna. E aquela que Amanda me levou estava pegando fogo de várias formas. Era possível sentir o calor humano exalado por todas aquelas pessoas que dançavam, bebiam e se pegavam alí mesmo. Não era nenhuma boate voltada especificamente para o público LGBT, mas notei alguns casais, que se fosse em outros tempos passariam despercebidos por meus olhos que viam apenas em uma única direção.
No bar Amanda pediu duas doses de vodka com alguma coisa que não entendi muito bem devido a música alta que tocava não nos permitindo conversar a menos que colocássemos a boca no ouvido uma da outra.
Eu me sentia tão pouco arrumada diante de todas aquelas pessoas em seus salto altos e vestidos tubinho, super maquiadas enquanto eu o máximo que fiz foi passar rímel tentando ficar o mais natural possível para as fotos. Já Amanda, assim como eu, usava all star nos pés e estava muito à vontade. Pegamos nossas bebidas e ela parecia ser movida pela música levantando sua saia enquanto dançava movendo o corpo pequeno que parecia ter um imã que atraía meus olhos. Ela mesma disse estar alí para dançar, pois tudo que lhe atraía naquele tipo de lugar era a música. Pude notar o quanto o som a envolvia e como o sorriso não saia de seu rosto.
Foram preciso alguns copos até que eu caísse na pista esquecendo todas as preocupações e estresses daquela semana, assim como todos os meus medos e incertezas. Me permiti dançar como nunca antes e em meio a toda essa excitação causada pela música tínhamos que driblar os engraçadinhos que surgiam vez ou outra tentando nos agarrar, alisando sem nenhum sinal de respeito.
Até que cansadas decidimos ir ao banheiro juntas, mas antes de sairmos da pista percebi que Amanda ficou para trás e notei que um cara tentava beijá-la. Me aproximei para ajudar ela a se livrar do sem noção que estava completamente bêbado e apesar de magro parecia ter bastante força, seus braços enormes enlaçavam a cintura dela de maneira firme. Tomei o copo da mão de uma moça que ia passando e joguei a bebida no rosto do sujeito, Amanda conseguiu escapar de suas mãos e seguimos entre as pessoas fugindo até mesmo da moça da bebida.
Chegamos no banheiro rindo daquela situação tosca. Amanda sentou na pia enquanto eu fiquei encostada na parede tentando recuperar o fôlego. Passei a mão em minha testa e estava suada, assim como Amanda que também parecia em chamas, se abanando com a mão esquerda enquanto a direta segurava os cabelos em um rabo de cavalo.
— Não te aconselho sair comigo, sempre me meto nesse tipo de confusão — disse ela.
— Então precisamos sair mais juntas, pois todos os lugares que vou são uma chatice.
— Achei que Milena fosse do tipo que te levava à lugares legais.
— Milena? Por quê? — Ela deu de ombros e fiquei um pouco pensativa.
Seria Milena realmente o tipo dela assim como Jason falou?
Aquilo me deixou verdadeiramente incomodada. E como a bebida ainda estava fazendo efeito agi sem pensar e me aproximei o bastante para ficar quase entre as pernas dela. Amanda me olhou um tanto surpresa, soltando os cabelos que antes segurava, enquanto eu a encarava de cima. Apoiei uma mão na pia e devagar baixei o rosto até encará-la de frente, tentando decifrar seu olhar, tentando ver se havia algo além de confusão, assim como nos meus olhos que deviam ter o desejo que estava de beijá-la estampado neles. Desde quando eu sentia aquele tipo de coisa? Desde quando a boca de uma mulher me parecia tão atraente quanto a de meu noivo? Por que eu não conseguia pensar nele naquele momento? Eu estava esquecendo completamente de tudo e focando apenas em meus instintos que pareciam desejar me levar ao inferno.
Não sei se o álcool quem me levou a fazer aquilo ou apenas usei ele como desculpa. Eu queria saber como era beijá-la, saber como me sentiria, entender o fato de ter ficado a semana inteira a espera de uma mensagem e o motivo de meu corpo reagir ao ver uma simples fotografia dela. Eu queria respostas, mas no olhar dela não havia nada, nem mesmo de sua boca entreaberta que parecia prestes a dizer algo, nada saía.
E quando por impulso fiz um leve movimento em meu rosto diminuindo a distância, eu a vi inclinar para trás colocando as mãos abertas entre nossos corpos, prestes a me parar. Seus olhos nesse momento diziam claramente que não, eu não devia fazer aquilo e não entendi, mas atendi seu pedido silencioso no mesmo momento, me afastando.
— Louise... — Passei a mão pelos cabelos sentindo frustração, decepção e vergonha.
— Desculpa. — Algumas mulheres entraram no banheiro e me encostei novamente na parede, escondendo o rosto com as mãos.
— Ei, não tem problema. — Ela pareceu ter descido da pia e segurou meus braços tentando me fazer tirar as mãos do rosto. — Olha para mim, Lou. Vem cá, olha para mim! Não fica assim, poxa. Olha para mim. — Encarei ela ainda com o rosto queimando de vergonha. Me perguntando porquê tentei beijá-la.
Sou noiva, amo meu noivo e estou aqui apenas complicando as coisas.
— Eu acho que bebi demais. — Dei aquela desculpa esfarrapada, mas que não deixava de ser verdade.
— Eu sei, por isso tenho medo que você queira se afastar novamente.
— Por isso recusou meu beijo? — Eu só podia estar mesmo bêbada perguntando aquilo enquanto várias meninas usavam a pia ao nosso lado, e enquanto meus olhos estavam fixos aos de Amanda.
— Também. — Ela suspirou olhando ao redor, esperou a maioria das garotas saírem para então falar. — Você é noiva, Lou. Mesmo se estivesse sóbria eu não teria te beijado.
— E se eu não fosse noiva? — Eu queria controlar minha língua, mas quando via já tinha falado.
— Vamos encerrar isso por aqui, ok? Amanhã, quando estiver sóbria e o arrependimento vier, prometa que virá falar comigo e não apenas se afastar. Pode ser?
— Ok... — Me afastei da parede e fui até uma das cabines onde fiquei por alguns minutos tentando não gritar de raiva da situação e raiva de mim mesma, desejando ir embora sem ter que olhar novamente para Amanda.
Quem eu era afinal? Uma adolescente frustrada por levar um fora? Por que quando nos deparamos com essas situações nos tornamos tão bobos? Lembrava-me de Milena que eu vivia julgando por sofrer feito uma menina, por não saber lidar com situações que envolviam relacionamentos sem surtar, mas olha só eu. Estava disposta a trair meu noivo com uma mulher e ainda me acho no direito de sentir raiva por ter sido recusada.
Lamentável, sentia-me verdadeiramente lamentável.
— Louise, você vai ficar aí até quando? — Amanda bateu na porta e só então lembrei onde estava.
A noite acabou alí, nós saímos e nos despedimos lá fora mesmo, onde por sorte haviam vários táxis naquele horário à disposição dos frequentadores da boate. Segui para casa desejando me enfiar embaixo de meu edredom até segunda pela manhã.
Eram duas da madrugada e quando abri a porta da frente o barulho vindo da piscina chamou minha atenção, segui para lá e havia uma verdadeira boate com música eletrônica e vários jovens que não deviam ter mais que vinte e dois. Minha prima, irmã da que ia casar, dançava de maneira provocante usando apenas biquíni e short jeans, segurando uma garrafa de vodka.
— Era só o que me faltava! — Fechei a porta e segui para o segundo andar.
Entrei em meu quarto e sem acender a luz joguei-me na cama, mas no mesmo momento gritei levantando ao sentir ter deitado encima de alguém. Corri para acender a luz sentindo o coração acelerado devido ao susto e vi Josh sentado bocejando e coçando a nuca.
— Isso são horas? — Ele olhou para meu relógio ao lado da cabeceira. — Quase três da madrugada. Onde você estava?
— F-fui dar uma volta. — Caminhei pelo quarto a procura de meu pijama.
— Uma volta sozinha? Liguei para a Milena e Agatha, nenhuma sabia onde você estava. Te liguei várias vezes e não atendeu, chega a essa hora e está na cara que bebeu. Com quem?
— Com uma amiga. — Estava prestes a fechar a porta do banheiro quando ele impediu.
— Você não tem nenhuma amiga além daquelas duas. — Ele fixou o olhar no meu e tentei sustentar ao máximo para não deixar desconfianças, mas falhei me afastando.
— Agora eu tenho! Josh não começa, estou cansada... — Enfiei as mãos por baixo do vestido para puxar a calcinha, mas quando peguei nas laterais lembrei que ainda usava a fio dental. Amanda aconselhou que ficasse usando a lingerie e eu já estava tão a vontade que nem lembrava. — Da licença, por favor.
— Pode falar, estou aqui para ouvir quem é essa nova amiga que te leva para beber e te impede de atender minhas ligações.
— Ninguém me impediu de atender, eu deixei o celular no carro. Agora me deixar fazer xixi em paz, caralho! — gritei a última frase e vi os olhos dele ficar arregalados. Até eu mesma me assustei devido ao fato de ter me alterado. Algo muito raro.
— Você está bêbada. — Ele saiu e suspirei me encostando na pia aliviada.
Prendi os cabelos em um coque e tomei um longo banho morno tentando me livrar de qualquer resquício daquela noite que começou tão bem, mas teve um fim que eu não esperava. Saí já usando meu pijama e Josh praticamente pulou da cama para me abraçar dizendo que me perdoava, beijando meu pescoço deixando claro suas intenções, mas tentei afastá-lo.
— Amor, estamos precisando disso... — murmurou em meu ouvido.
Estávamos, ou ele estava? Revirei os olhos tentando novamente afastá-lo, mas ele passou a morder meu pescoço segurando em meus braços me empurrando para a cama. Aos poucos fui cedendo, mas não por ele e sim por mim, devido a necessidade que estava de me afirmar como a Louise de sempre, a noiva dele, a mulher que não trairia alguém, muito menos cogitava beijar uma mulher. Eu precisava daquilo, precisava me entregar ao Josh e esquecer tudo o que aconteceu.
...***...
Passamos o domingo no clube. Josh, o pai dele e o meu foram jogar golf e minha mãe junto a uma tia que estava de visita aproveitaram para ficar entre massagens e outros cuidados no spar. Quanto a mim, fiquei fazendo companhia a minha sogra que estava mais interessada em se juntar ás outras madames que se arriscavam a jogar golf em outra área longe dos maridos. Fiquei para lá e para cá com elas, sem muito interesse no esporte.
A noite fomos para a igreja como de costume e na volta Josh queria dormir em minha casa novamente, mas tentei de todas as formas mandá-lo embora. Não estava com a minima vontade de ceder, me mantive atenta a todos os seus truques.
— Louise, eu tenho tentado fingir que não percebo, mas está ficando cada vez mais difícil — disse ele quando ameacei sair do carro. — Você mudou comigo e nunca quer transar. Como acha que seria nosso casamento? Em quartos separados? E sabe o que é pior? Quando transamos você é fria.
— Se é pior, então porquê não para com essa insistência? — Só então o encarei. — Você deseja que eu esteja sempre quente e pronta para te atender. Quer me levar para jantar nos mesmos lugares, me levar para a igreja e depois irmos direto nos enfiar no quarto um do outro para que eu te satisfaça. Está reclamando agora que estou fria, mas por acaso parou para perguntar se estou gostando de como você é na cama? Já me propôs fazer algo novo, mas que não seja do tipo comentando sobre o ménage que seu amigo e a esposa farão com outra mulher?
— O que deu em você? Agora a culpa é minha? Você fica fria, sai por aí sabe Deus com quem para beber sem dar notícias, começa a engrossar a voz comigo e tudo isso por minha culpa? — Abri a boca, mas voltei a fechá-la, estava sem palavras diante das dele, me resumi a abrir a porta do carro e sair.
Mal dei alguns passos em direção a porta de minha casa e senti seus braços me envolvendo em um abraço por trás enquanto sussurrava um pedindo de desculpas seguido de beijos em meu rosto.
— Eu te amo Louise, me perdoa... Vamos tentar de um jeito diferente, hã? Vamos sair mais juntos para onde você quiser e voltar a conversar como antes, trocar mensagens, essas coisas. — Suspirei fechando os olhos.
Eu claro cedi, mas não deixei que ele dormisse comigo, nos despedimos com beijos e quando finalmente pude entrar deitei a cabeça em meu travesseiro e minha mente foi invadida por Amanda, quem eu tinha passado o dia inteiro tentando fugir até mesmo em pensamento, mas bastava pensar meu intuito era pegar o telefone, e foi exatamente isso que fiz, logo vendo que havia uma mensagem dela.
Tudo bem? Quando as fotos ficarem prontas te aviso, mas antes disso, podemos nos encontrar? 08:15
Quando eu puder aviso. 10:10
Por que será que eu acho que você vai ficar fugindo? 10:12
Se eu fugir, importa? 10:12
Gosto de como tem se aberto comigo, não quero perder essa relação que estamos construindo. 10:13
Você não quer perder uma possível peça para o seu projeto. Estamos nos aproximando? Você passou uma semana sem dar notícias, sempre que nos falamos por mensagem é fria e corta a conversa rapidamente. Tudo o que importa para é seu trabalho, onde deseja me incluir...
Apaguei toda a mensagem e joguei o celular ao lado, levando as mãos ao rosto. Lá estava eu novamente agindo feito uma idiota com raiva dela por não ter interesse em mim.
Controle-se Louise!
Peguei novamente o celular e digitei novamente uma resposta.
Podemos nos ver na terça? 10:18
Perfeito! Nos vemos na terça a noite, te mando o endereço. Beijos! 10:18
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Atualizado até capítulo 38
Comments
Srta.Peônia 💗
kkķkk essa é nova.
2024-11-18
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Srta.Peônia 💗
Eita que a gatinha está nervosa.
2024-11-18
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Ana Faneco
já amando a história 😍
2024-05-30
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