Estacas de Carvalho
As areias do tempo, aos olhos de Lana, sempre correram lentamente. Entretanto, após a caçadora estipular um prazo para cumprir sua sina, cada dia evapora com a rapidez da água fervendo em um caldeirão pendurado sobre a lareira.
O jovem Sr. Ionesco seguiu aproveitando cada instante ao seu lado, sem sequer cogitar que em breve seria traído e assassinado. Outrora, Lana levou quase um ano para envenenar e matar o Sr. Costel, foi capaz de executar seus planos com frieza, sem pressa. Agora, precisava urgentemente exterminar David. No fundo tinha total convicção que quando mais tempo tentasse adiar seu objetivo seria dominada por sentimentos que ela insistia em rejeitar. Sabia que se apaixonar por ele seria sua ruina, se deixar levar por esse amor seria sua fraqueza.
Envenenar David estava fora de questão, desejava matá-lo rapidamente, minimizando seu sofrimento sem levantar muitas suspeitas. A única maneira de fazer isso era atravessá-lo com uma estaca de carvalho.
De forma sorrateira, a jovem se dirigiu ao seu antigo quartinho de empregada. Lá tratou de localizar um pequeno banco de madeira que costumava usar para apoiar a bacia e fazer sua higiene pessoal, tinha convicção que aquele banco velho havia sido entalhado em carvalho e serviria perfeitamente para o que precisava. Poucos minutos depois de iniciar sua busca, encontrou o que procurava próximo da cama.
Buscando coragem a caçadora respirou fundo e arremeçou o banco contra a parede com uma força que ela desconhecia. O objeto se desmanchou por completo, com rapidez, escondeu o assento de baixo da cômoda, apoderando-se das três pernas do banco. De forma artesanal usaria um canivete e pacientemente entalharia pontas afiadas produzindo estacas improvisadas.
Calculou que levaria alguns dias para terminar, pois só poderia trabalhar esculpindo seus artefatos bélicos quando estivesse sozinha, distante dos olhares atentos do novo Senhor do castelo e de sua fiel governanta. Por vezes quase foi surpreendida pelas criadas, que não ousaram indagar o que ela estava fazendo quando notaram as lascas de madeira sobre o lençol. Sabiam que Lana era ardilosa e que com apenas uma palavra sua, estariam arruinadas. O mestre David acreditaria em qualquer mentira que saísse de seus lábios.
Depois de trabalhar em seu pequeno projeto em todas as suas horas vagas, Lana estava prestes a conclui-lo. Ainda estava hesitante, teria coragem suficiente para usar aquelas estacas? Pensava nisso quando David abruptamente entrou.
A invasão repentina do vampiro fez com que Lana deixasse escapar a navalha que usava para fazer a estaca. Acabou se cortando com gravidade, o cheiro do sangue impregnou todo o quarto, deixando David inquieto. Por que um nobre de linhagem pura estava com tanta dificuldade de controlar sua sede?
— Lana... você... se cortou? O que... estava... fazendo... — Perguntou sibilando entre as presas que acabaram de surgir.
— Não foi nada... — Afirmou com medo.
— Foi sim... o corte foi... profundo... eu sei... o cheiro... do sangue... o que... houve...? — Disse pausadamente, assustador.
— Eu estava tentando cortar uma pele ressecada no canto da minha unha... — Respondeu sem tirar os olhos do travesseiro que usou esconder o artefato de madeira.
— Com... uma... navalha? — Indagou ele se aproximando a passos lentos, sentando na cama ao lado da caçadora lambendo seu o corte com apetite.
A jovem estava preocupada, se o vampiro se deitasse ao seu lado, afastando travesseiro, sem sombra de dúvida encontraria a estaca que ela tratou de ocultar. Tensa tratou de distrair o filho do Marques tomando iniciativa de beijá-lo, ganhando tempo para jogar a estaca atras da cabeceira da cama.
— Lana... quando foi que ficou tão atrevida? — Questionou ele lhe oferecendo um pouco do seu sangue para curá-la.
A garota não ousou responder, estava envolvida em uma teia de mentiras que crescia sem parar.
— Devo confessar uma coisa...não sou filho legítimo do Marques Costel de Ionesco... não faz muito tempo que descobri isso, meu pai me deixou uma carta quando se viu desenganado a portas da morte.... Não sou puro sangue, nasci humano e fui transformado em vampiro por dois nobres de linhagem pura... isso faz de mim um andarilho e é esse o motivo de não conseguir controlar minha sede... os instintos de predador são mais aflorados naqueles que não nasceram com eles.... Perdoe-me se eu a assustei Lana...
Aquela declaração do vampiro fez a jovem mais uma vez questionar suas decisões... então David nasceu humano e os infortúnios da sorte o tornaram o que é hoje?
Cada nova informação que chegava até ela a fazia duvidar se sua decisão de matá-lo era a mais acertada.
— Eu sinto muito David... — Disse a jovem com os olhos cheios de lagrimas...
— Está tudo bem Lana... o Marques foi um pai exemplar, nunca me deixou faltar nada, sem contar que me tornar um vampiro salvou minha vida... se não fosse por isso, eu teria uma existência breve... eu tinha cerca de três ou quatro anos quando abracei as trevas e não tenho nenhuma lembrança do que aconteceu antes disso. — Esclareceu sem esconder sua gratidão.
Porque David resolveu dividir um segredo tão pessoal com ela? Mais do que nunca a culpa estava a devorar suas entranhas. Como poderia continuar com seu plano se o Jovem andarilho também era uma das vítimas do cruel Marquês Costel de Ionesco? O vampiro, alheio aos tormentos que Lana enfrentava, seguiu seu relato, evidenciando que diferente de sua amada, ele sim conseguia deixar o passado ruim para trás.
— Todavia não vou ficar me lamentando. Entrei aqui tão repentinamente pois estou eufórico... o anel que encomendei ao joalheiro da corte finalmente cegou... e com ele irei desposá-la — Afirmou o andarilho tirando a pequena caixa de veludo azul marinho do bolço do seu terno.
— David!... — Exclamou Lana reticente sentindo que seu coração iria sair pela boca.
— Diga sim... me aceite e faça de mim o homem mais feliz do mundo.... — Implorou ele sem caber em si de tanta felicidade.
— Eu... eu... eu aceito. — respondeu por fim sendo vencida pelos sentimentos que de forma constante tentava sufocar.
O jovem Sr. Ionesco a envolveu em seus braços e a beijou de forma viciante como se não houvesse amanhã. A caçadora mesmo apaixonada ainda não havia desistido da ideia fixa de mata-lo... para David, talvez o amanhã nunca chegue.
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Atualizado até capítulo 37
Comments
Wynnie Drummond
Lana precisa seguir em frente.
2023-11-28
1
Rosária 234 Fonseca
Caraca que pena q ela continua com essa ideia
2023-11-16
1
Marfisa Torres Ferreira
poxa! ela deve pensar melhor na decisão dela, matar David será um convite para os dois abusadores
2023-08-16
1