A Origem
Após intermináveis dias de viagem David finalmente conseguiu retornar ao castelo, ansioso, tratou de entrar e buscar informações sobre o estado de saúde do pai. Fazia apenas um dia que o Marquês havia falecido quando o jovem Sr. Ionesco chegou. Com o semblante triste, a fiel governanta o aguardava imóvel no hall de entrada segurando com firmeza a carta em suas mãos, entregando-a ao seu novo amo assim que ele cruzou a porta.
— Senhor, após semanas sofrendo moléstias intermináveis, ontem pela manhã, Milorde Costel finalmente descansou... ele lhe preparou essa carta, contando um pouco do seu passado, deixando algumas orientações de como tocar os negócios de agora em diante, bem como as suas suspeitas a cerca de sua morte repentina.
— Suspeitas? Por acaso a morte de meu pai tem causas desconhecidas? — Questionou surpreso.
— Todos os sintomas indicavam envenenamento por saliva de lobisomem... mas o Marquês nunca cruzou com um lobisomem durante toda sua existência. Ele desconfiava que as novas criadas estavam envolvidas de alguma forma... elas trabalhavam no castelo a pouco mais de um ano, sempre executaram suas tarefas corretamente, porém na mesma época que o amo adoeceu, suas condutas tornaram-se extremamente suspeitas... — Confessou pesarosa.
— Onde elas estão? — Indagou obstinado.
— Antes de sucumbir aos alucinantes delírios, o Sr. Ionesco as aprisionou na masmorra. E elas estão lá desde então... — Confirmou reticente.
— Vou investigar isso imediatamente Abigail! — Afirmou soberbo.
— Antes... leia a carta jovem mestre David... — Suplicou a serva de forma insistente.
O jovem vampiro se dirigiu aos seus aposentos e iniciou a leitura. A carta era interminável e seu conteúdo parecia o roteiro de uma peça teatral de tragedia, onde não faltaram mentiras, trapaças, segredos e mistérios. Tudo em que acreditava, tudo do que sempre se orgulhou, seus laços familiares nobres, a pureza de seu sangue, seu berço de ouro, não passavam de uma história inventada para esconder sua origem trágica, pobre de qualquer glamour ou honra:
Querido David,
Em breve sucumbirei, provavelmente vítima de veneno de lobo, meu corpo está muito frágil e não resistirá por muito tempo. Os sintomas a cada instante tornam-se mais e mais insuportáveis e logo partirei.
Não poderei me despedir de você apropriadamente meu amado filho... mas não posso deixar essa vida sem levar a luz os segredos que cercam sua origem.
Infelizmente, você não é vampiro de nascimento, meu estimado amigo Duque Albert Drummond o encontrou em um casebre, único sobrevivente de uma família humana massacrada pela terrível Herege Tessália Badrean. Eu a amava em segredo, mas ela só tinha olhos para Albert, não importando-se com nada nem ninguém a sua volta.
Éramos companheiros de longa data, e confiei ao meu amigo meus sentimentos secretos por sua esposa. O Sr. Drummond acabou confessando que nunca a amou, casaram-se envolvidos por uma série de trapaças mentiras e feitiços, com a Srta. Badream fazendo-se passar pela reencarnação da jovem Luana, único grande amor de meu amigo.
Para evitar que o Duque a abandonasse, Tessália engravidou e o prendeu a ela com uma maldição... com o intuito de torturá-lo e deixá-lo infeliz, impedindo-o de encontrar sua prometida em sua próxima reencarnação.
Mesmo sabendo que minha adorada vendeu sua alma ao Demônio Hazahell em troca de poderes infernais e que era incapaz de amar, eu não conseguia esquecê-la. Para me escravizar ao seu lado, vez ou outra alimentava minhas ilusões com migalhas de seu afeto, mais falsas do que seus incontáveis disfarces para convencer pobres humanos inocentes a convidá-la a entrar em suas casas.
Não... essa mulher desalmada não é sua mãe como eu te fiz pensar que era. Nem tão pouco és fruto de um adultério como por toda sua vida fiz você acreditar. Porém sua existência deveria ser discreta. Essa cruel bruxa matou sua família com promessas que não pretendia cumprir. Sua jovem mãe morreu apertando seu corpo debilitado contra o peito, tentando assegurar que existiria uma pequena chance de você ser salvo pelo homem que se negou a participar do massacre naquela noite e teve seu pescoço quebrado pela herege.
“— Não tenho tempo a perder com esse seu circo, vadia infernal! Deixe esses humanos em paz! Não tenho interesse em me divertir com a morte dessas pessoas!
— Albertus... está ficando sentimental como Albert? Dois inúteis é o que vocês são! Não preciso de vocês para me divertir! Durma um pouco... quando acordar não lembrará de nada e pensará que a morte dessas pessoas é obra sua... vê-lo sofrer com a culpa será mais divertido do que beber o sangue desses miseráveis até a última gota!”
Gargalhando com requinte de crueldade, Tessália quebrou o pescoço do Duque que se negou a participar de seu show de horrores, com o único intuito de torturá-lo posteriormente.
Depois de se curar do pescoço fraturado... um choro de bebê, desnutrido e fraco, despertou meu amigo... em desalento acreditou que aquela chacina era obra de seu eu amaldiçoado Albertus. Inconsolável e buscando redenção, o nobre me trouxe aquele bebê a beira da morte, implorando que eu o transformasse em vampiro para salvar sua pequena vida. Mesmo que quisesse, ele próprio não poderia fazê-lo, se Tessália descobrisse que meu amigo o resgatou, poderia se vingar em seu próprio filho Eduard. Temendo não conseguir te proteger, o Sr. Drummond confiou sua frágil existência a mim. Concordei imediatamente, decidi criá-lo e chamá-lo de David.
Criei você como se fosse sangue do meu sangue, sem dar muitos detalhes sobre quem era sua progenitora, nem sobre sua origem humana. Anos mais tarde, durante uma discussão, Tessália finalmente confessou a Albert que era a responsável pela morte de sua família meu amado David, mas eu e o Sr. Drummond decidimos manter sua existência em segredo para sua própria segurança.
Então, infelizmente você não é puro sangue e não tem os poderes que vampiros puro sangue tem. Como andarilho algumas de suas habilidades são reduzidas, outras insistentes... encontrará na biblioteca do castelo toda a literatura necessária para obter as informações sobre sua condição. Te deixo todos os meus bens, a destilaria, o parreiral e o pomar, bem como meus criados e o título de Marquês.
Como último pedido, quero que descubra as circunstâncias obscuras que envolvem minha morte, desconfio que uma das criadas acorrentadas na masmorra está envolvida... talvez todas estejam.
Se por acaso, depois de uma minuciosa investigação, for completamente convencido de sua inocência, então as liberte sem hesitar. São moças jovens, muito educadas e extremamente belas... talvez, se for de seu agrado, elas possam aquecer sua cama nas noites frias.
Eu te amo David, não permita que minha morte te transforme em alguém amargo ou desalmado como a bruxa que não mereceu meu amor. Seja feliz... parece ironia... mais de 300 anos de existência e não estou pronto para morrer.
Atenciosamente,
Marquês Costel de Ionesco
David chorou como um bebê ao terminar de ler a carta. Não era puro sangue de linhagem nobre como sempre se orgulhara até então, nem ao menos sabia quem foram seus pais, nem tão pouco sabia como se chamava... todavia, não desonraria a memória do Marquês, de qualquer forma, mesmo não tendo nenhuma obrigação, o nobre impediu sua morte prematura e o criou como se fosse da família, lhe ofertando luxo, conforto e conhecimento, deixando para ele seu título de nobreza e todos os seus bens.
Decidiu que iria descobrir as condições obscuras que estavam envolvendo sua morte. Enxugou sua dor, vestiu um traje mais confortável e foi interrogar as criadas. Depois de esclarecer esse misterioso assassinato, visitaria o Sr. Drummond e sua companheira herege para tentar elucidar mais detalhes sobre sua tumultuada origem.
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Atualizado até capítulo 37
Comments
Marfisa Torres Ferreira
Será se David não é irmão da caçadora de vampiros?
2023-08-16
1
Diva
Vamos esquentar as coisas...
2023-05-06
1
Diva
Porrª que coisa, né?
Sabia que ele não era ruim.
Mas vamos para frente.
2023-05-06
1