Quarta-feira 14 de Março de 2020
Preston parou o carro e observou a casa por um momento antes de descer. A dor de cabeça insistente que ele atribuía à ressaca agora parecia ter outra origem; talvez fosse o nervosismo. Não via o pai desde o enterro de sua mãe, e agora, parado em frente ao quintal onde crescera, sentiu um turbilhão de nostalgia e desconforto.
Respirando fundo, Preston finalmente saiu do carro e andou em direção à casa, os passos pesados. O pai dele, Arthur, estava do lado de fora carregando uma caixa grande, o rosto franzido pelo esforço. Quando percebeu a aproximação do filho, Arthur parou, largando a caixa no chão e limpando as mãos rapidamente, como se não tivesse planejado o reencontro, mas agora, diante do fato, precisasse de um gesto mais formal.
“Oi, Preston,” disse o pai, forçando um sorriso que parecia quase tão incômodo para ele quanto o silêncio entre eles.
“Oi.” Preston manteve uma distância segura, um cumprimento breve e seco. Percebia a tentativa do pai de soar mais amistoso, mas não ajudava que seus próprios sentimentos estivessem tão confusos.
Arthur balançou a cabeça, tentando esconder a tensão, e gesticulou para que Preston o seguisse. “Bom, vou direto ao ponto,” disse, como se estivesse falando com um colega de negócios. “Vendi a casa. Os novos donos vão se mudar logo, e preciso esvaziar tudo isso aqui.” Ele olhou em volta, o olhar breve mas com certo peso. “Seria bom ter uma ajuda...”
Preston assentiu, ainda um pouco hesitante. “Claro.”
Enquanto o pai o guiava para dentro da casa, cada canto que eles passavam reacendia uma lembrança. O papel de parede desbotado na sala, o sofá onde ele se sentava com a mãe enquanto ela contava histórias… Era estranho ver aqueles espaços tão vazios, como se a casa em si estivesse se despedindo. Sentiu uma dor fina no peito e desviou o olhar, acompanhando o pai até o cômodo onde estavam as caixas.
Arthur pegou uma delas e a abriu, mostrando o conteúdo com um pouco de desconforto. “Olha só o que encontrei… coisas suas.” Ele afastou a tampa, revelando brinquedos, desenhos antigos, uma pilha desordenada de memórias.
Preston se aproximou, mexendo de leve nos objetos, até encontrar uma foto. Era ele, ainda pequeno, com a mãe. A lembrança do rosto dela, do toque dela, parecia tão próxima que ele quase sentiu o coração acelerar.
“Posso ver?” perguntou Arthur, com uma expressão mais suave que Preston não costumava ver no rosto do pai.
Preston entregou a foto, e Arthur a olhou por alguns segundos, como se as memórias que ela evocava fossem difíceis de encarar. “Ela faz falta,” murmurou, a voz dele baixa e um pouco distante.
“Sim, faz,” Preston respondeu, tentando manter a voz firme. Mesmo que a infância tivesse sido cercada de uma frieza quase sufocante, ele ainda lembrava de sua mãe com carinho.
A mãe de Preston havia perdido a luta contra a depressão; ele a encontrou sem vida quando tinha apenas sete anos. O pai, que já era distante, passou a se refugiar ainda mais no trabalho, e foi Nana, a governanta da casa, quem cuidou dele nos anos seguintes. Por isso, ver Arthur se emocionar agora, mesmo que brevemente, era quase desconcertante.
Com a intenção de aliviar o momento, Preston olhou ao redor e disse: “Precisa de ajuda para carregar mais algumas caixas?”
Arthur assentiu, um pouco surpreso. “Sim… é, tem mais lá no escritório.”
Os dois continuaram trabalhando em silêncio, movendo caixas de um lado para o outro, com o ruído ocasional das madeiras velhas rangendo sob seus pés. O ar era denso, uma mistura de poeira e emoções não ditas, mas a tensão que outrora definia suas interações parecia suavizada pela simplicidade do momento. Era como se, por um breve instante, as camadas de formalidade e expectativas tivessem se dissipado, deixando apenas pai e filho.
“E como vai a faculdade?” perguntou Arthur, quebrando o silêncio novamente. Havia uma leve hesitação em sua voz, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.
Preston empurrou uma das caixas maiores para o canto e respondeu com um leve toque de sarcasmo: “Voltei há alguns meses. Dessa vez eu pretendo terminar.” Ele evitou encará-lo, mantendo os olhos na próxima tarefa.
Arthur parou por um instante, e um esboço de sorriso apareceu em seu rosto. “Isso é muito bom, filho,” disse ele, surpreendendo Preston. Aquelas palavras, simples e sinceras, pareciam deslocadas vindo de alguém que sempre associara orgulho a conquistas grandiosas e irreais.
Preston ergueu uma sobrancelha, ainda processando o inesperado elogio. “Não precisa se preocupar. Não vou cobrar pela ajuda,” brincou ele, um sorriso cansado se formando em seus lábios.
Arthur riu baixinho, um som raro e quase esquecido na memória de Preston. O silêncio que se seguiu não era mais desconfortável. Dessa vez, era carregado de um entendimento tácito, um início de reconciliação que parecia improvável há algum tempo.
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Atualizado até capítulo 111
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