Terça-feira 13 de Março de 2020
O campus universitário era o último lugar onde ele queria estar, mas era o que ele precisava – um ambiente onde pudesse se distrair e preencher a mente com alguma coisa além da pesada realidade que o aguardava.
O dia se arrastou. As horas pareciam se estender infinitamente, como se o tempo tivesse desacelerado para acompanhar o peso que Preston carregava. As aulas de administração, normalmente uma distração bem-vinda, pareciam intermináveis. Ele se esforçava para prestar atenção nos professores, mas as palavras se misturavam em um ruído distante.
Noite passada seu pai havia ligado para ele novamente. Preston havia falado para si mesmo que estava evitando um confronto, mas no fundo sabia que estava com medo. Preston sempre teve uma relação complicada com o pai. Desde pequeno, ele sentia que nunca conseguia estar à altura das expectativas que lhe eram impostas. Seu pai, um homem rígido e controlador, esperava que Preston seguisse um caminho seguro e tradicional – um emprego estável, uma vida dentro dos padrões. Porém, Preston sempre foi atraído por caminhos menos convencionais, o que inevitavelmente criou uma tensão entre eles.
Na adolescência, as brigas se tornaram mais frequentes e intensas. Preston sentia-se sufocado pelas constantes críticas e pela falta de apoio em suas escolhas. Quando decidiu se mudar para a cidade para estudar e seguir sua própria vida, o pai viu isso como um ato de rebeldia e desrespeito. Desde então, o relacionamento dos dois nunca mais foi o mesmo.
A comunicação entre eles se reduziu a telefonemas esporádicos, que muitas vezes terminavam em discussões. Preston evitava esses confrontos porque sabia que qualquer tentativa de reconciliação acabaria em frustração. Mas, no fundo, ele também tinha medo – medo de que, um dia, seu pai desistisse completamente de tentar manter qualquer contato.
O que mais doía em Preston era a sensação de que nunca seria aceito pelo pai, independentemente do que fizesse. Isso o fazia sentir-se inadequado, levando-o a buscar conforto em outros lugares – no trabalho perigoso que havia escolhido, nas amizades duvidosas, e até em sua vida amorosa instável. Evitar o pai era uma forma de proteger-se da dor e da rejeição que sempre vinham junto com cada interação.
Preston sabia que, eventualmente, teria que enfrentar esse medo e resolver as questões pendentes com seu pai. Mas, por enquanto, ele optava por ignorar as ligações, tentando focar nas coisas que estavam ao seu alcance, mesmo que essa escolha só aprofundasse ainda mais a distância entre eles.
Para tentar afastar o sentimento de impotência, Preston mergulhou nos estudos, embora sua mente estivesse longe da sala de aula. Ele lutava para se concentrar nas discussões e nas anotações, tentando se agarrar à normalidade das tarefas acadêmicas. Mas, no fundo, sabia que estava apenas adiando o inevitável. O cansaço da vida noturna também pesava sobre ele. As noites intermináveis de festas, bebidas e trabalho, embora aparentemente excitantes, deixavam um rastro de exaustão que tornava cada tarefa diária um esforço.
No meio da aula, Preston sentiu a inquietação crescendo dentro dele. Ele já havia passado quase uma hora ali, mas não estava absorvendo nada. Os pensamentos se embaralhavam, e as palavras do professor soavam distantes, quase inaudíveis. Ele sabia que, naquele ritmo, estava só perdendo tempo. Respirou fundo e decidiu sair. Tentou ser o mais discreto possível enquanto se levantava, mas era difícil não chamar a atenção numa sala tão pequena.
Uma vez do lado de fora, o ar fresco do campus trouxe algum alívio, embora não fosse o suficiente para afastar os pensamentos que o consumiam. Enquanto andava em direção ao estacionamento, sentiu o celular vibrar no bolso. Tirou o aparelho com uma leve curiosidade, e o nome que apareceu na tela fez um sorriso escapar: NICO.
"Fala, Bravo" atendeu ele, colocando o celular no ouvido e continuando a caminhar.
Do outro lado, a voz de Nico explodiu com o entusiasmo de sempre. "Onde você tá, caralho?
Preston riu. "Tô saindo agora da aula, cara. Não tava dando mais pra aguentar. E você, tá onde?"
Nico bufou. "Eu? Tô me arrumando pra noite, porra! Festa hoje, esqueceu, não? Vai ser foda! Já falei com uma galera, tá ligado, mas tu tem que trazer umas amigas, cê sabe como é."
"Amigas, né?" Preston soltou uma risada curta, sabendo exatamente o que Nico queria. "Cara, vou ver o que posso fazer, mas você sabe que eu não tenho esse poder todo."
Nico gargalhou do outro lado da linha. "Ah, vai se foder, Preston. Tu sempre tá com umas mina gata por aí. Faz teu milagre, porra, dá um jeito! Só pra dar uma agitada na festa."
"Tá, beleza. Vou ver quem eu consigo," Preston respondeu, rindo do jeito desbocado do amigo. Nico sempre falava como se fosse o dono do mundo, sem filtro nenhum. "Mas você que se vire depois, hein? Não quero ser babá de ninguém."
Nico riu alto. "Eu cuido do resto! Só aparece lá e, de preferência, com umas loiras, morenas, ruivas, asiáticas, cor de rosa " Ele fez uma pausa e soltou uma gargalhada. "Não sou exigente, não!"
Preston balançou a cabeça, ainda rindo. "Beleza, Nico!"
“Caralho, quase esqueci. Preciso de algumas coisas, vou mandar a lista. Te pago quando chegar. Valeu!" , Nico desligou, e o som da risada dele ecoou pela mente de Preston por alguns segundos.
Automaticamente, Preston começou a espalhar as mensagens para todas as garotas que conhecia, usando o mesmo tom casual que Nico sempre usava. "Festa hoje! Vai ser daquelas!"
Ele não precisou esperar muito. As respostas começaram a chegar quase instantaneamente, com um fluxo de notificações tão rápido que mal dava tempo de ler. Uma após a outra, as meninas confirmavam presença, algumas até perguntando se poderiam levar mais amigas. Preston deu um sorriso satisfeito e, antes que seu celular explodisse com mais alertas, resolveu deixá-lo no mudo.
"Beleza," pensou ele, com uma sensação de alívio. "Tá feito." Agora, era só esperar a noite e ver o que Nico ia aprontar dessa vez.
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Atualizado até capítulo 111
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