Terça-feira 13 de Março de 2020
O lugar estava fervilhando de gente. A casa de Damien sempre fora o ponto ideal para aquele tipo de evento — espaçosa, afastada de olhares curiosos, e com quartos suficientes para quem precisasse de um pouco mais de privacidade ou simplesmente quisesse escapar do barulho por um momento.
A festa já estava a pleno vapor quando Preston viu o estado em que Rony. A música pulsava pelas paredes, e o cheiro de álcool e perfume já dominava o ambiente. Rony se destacava, mesmo em meio à agitação. Ele sempre tinha uma postura despretensiosa, o sorriso levemente torto que parecia carregar uma dose de desprezo pelo mundo ao redor. Preston o conhecera na faculdade, algumas semanas atrás. Rony era o típico rebelde por obrigação, filho de um deputado influente que o obrigará a cursar direito, mas Rony nunca levara aquilo a sério. Ele preferia as festas, a adrenalina e o vício ao rigor da sala de aula. Naquelas festas clandestinas, ele podia ser quem realmente era, longe dos olhos do pai.
Não demorou muito para Rony ficar alterado. Seus passos estavam vacilantes, o rosto brilhando de suor, e a garrafa de uísque que segurava balançava perigosamente em sua mão. Preston percebeu o risco e logo foi alertar Nico, que estava do outro lado da sala, cercado por alguns amigos e um de garotas, sempre no centro das atenções.
"Rony tá aqui, e acho que ele exagerou... de novo," disse Preston, seu tom calmo, mas preocupado.
Nico, que sempre tinha um ar despreocupado, olhou para o lado e avistou Rony. Um sorriso de canto surgiu em seu rosto.
"Ah, merda, esse cara. Ele nunca sabe quando parar, né?"
Na verdade, Nico gostava de quando Rony aparecia. Rony não tinha freio. Ele gastava todo o dinheiro e o dinheiro dele parecia que não acabava.
"Ele tá mal, cara. Melhor a gente tirar ele daqui antes que alguém perceba," sugeriu Preston.
Com um aceno discreto, Nico se afastou do grupo, e os dois caminharam até Rony, que estava encostado na parede, tentando equilibra-se.
Quando Nico se aproximou de Rony, ele lhe deu um tapa firme no ombro e um leve tapa de brincadeira no ombro, e disse com um sorriso sarcástico:
"Olha só quem tá por aqui! Tá curtindo, Rony?"
Rony, visivelmente alterado e com a fala arrastada, retribuiu o sorriso torto e respondeu, rindo de forma incoerente:
"Porra, Nico... essa festa tava me esperando, não é?"
A gargalhada de Rony era forçada, mas ele tentava manter a pose, mesmo já sem controle de si. Preston percebeu as narinas dele esbranquiçado de pó branco.
Preston, percebendo o estado de Rony e sabendo que precisava tirá-lo dali sem causar suspeitas, se inclinou e disse de maneira casual, mas firme: “O que acha de dar um tempo? Até você se recompor?
Rony, ainda zonzo, tentou focar no que Preston dizia, mas a paranoia alimentada pelas drogas o fez hesitar por um segundo. Preston aproveitou a deixa, colocando a mão no ombro dele e o olhando nos olhos. Convencido pelo tom amigável, Rony assentiu, sem perceber o real motivo por trás da sugestão.
Sem fazer alarde, Nico e Preston o pegaram pelos braços e, em meio a multidão, o conduziram para um dos quartos vazios do apartamento. O movimento era discreto, e ninguém parecia notar a dupla arrastando o amigo semiconsciente.
Eles o deitaram na cama. Rony, já visivelmente alterado, abrindo a própria camisa com mãos trêmulas, a respiração ofegante e irregular.
Nico observava a cena com uma risada nervosa, tentando aliviar a tensão.
"Acho que você está exagerando, cara," disse ele, rindo da situação, sem perceber a gravidade “Ele parece bem.”
Rony tentou rir também, mas logo seu sorriso sumiu, dando lugar a uma expressão de desespero. Ele começou a abrir a camisa com mais urgência, como se estivesse buscando ar, enquanto repetia entre arfadas: "Tô bem... tô bem, sério..."
Preston, observando a cena de perto, notou que o rosto de Rony começava a perder cor. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, os espasmos começaram. O corpo de Rony começou a tremer violentamente, seus olhos revirando nas órbitas enquanto ele engasgava com a própria saliva, sufocando.
Enquanto Preston se aproximava de imediato para ajudar Rony, Nico se apressou para fechar a porta, trancando-a com a chave em um movimento rápido, como se quisesse isolar o caos do resto da festa. Sempre conhecido por sua frieza em situações tensas, desta vez Nico parecia à beira de um colapso. Ele começou a andar de um lado para o outro, xingando baixinho entre os dentes, tentando encontrar uma solução impossível.
"Merda, merda! Isso não pode estar acontecendo... Não aqui, não hoje!"
"Porra, porra, porra" sua voz carregada de urgência e medo.
Preston entrou em ação, quase que instintivamente. Ele começou a pressionar o peito de Rony, tentando reanimá-lo, e inclinou a cabeça dele para trás, buscando liberar suas vias respiratórias. Mas, quanto mais ele tentava, mais ficava claro que não havia muito a ser feito. Preston sentiu o suor escorrer por sua testa, seu coração acelerado, mas ele sabia que o tempo estava contra eles, e que a situação era crítica.
Nico, que normalmente mantinha a cabeça fria, agora estava paralisado, observando o corpo inerte de Rony na cama. O pânico tomava conta de sua mente, e ele começou a xingar mais alto "Caralho, Rony, você não pode fazer isso agora!" em desespero, tentando pensar em algo que pudesse fazer.
Ele sabia que não estava raciocinando direito — a cocaína que tinha cheirado mais cedo só piorava sua clareza mental, deixando-o ainda mais perdido.
Percebendo o estado de Nico, Preston se aproximou dele, sua voz firme, mas ainda controlada. “Ele morreu, porra.”disse Preston, respirando fundo. "Precisamos tirar ele daqui, Nico. Agora. Se alguém descobrir isso, estamos fudidos."
Preston deu um tapa no braço dele do Nico fazendo-o olhar nos olhos. “Ei, ei, ei… Presta atenção. Preciso que pegue o carro dele e me encontre nos fundos.”
Nico olhou para o amigo por um momento, ainda tentando processar tudo, mas depois assentiu rapidamente, vendo que não havia alternativa. "Tá, tá... eu vou pegar o carro dele.”
Preston foi até o corpo de Rony, mexeu nos bolsos da calça, achando as chaves do carro. Jogou para Nico e falou: “É a porra de um carro velho. Acho que é vermelho”
“A porra de um carro velho e vermelho” repitiu Nico tentando decorar “Encontro você nos fundos. Me dá cinco minutos."
Preston assentiu, enquanto Nico saía apressado, deixando-o sozinho com o corpo de Rony. O silêncio no quarto era opressor. Ele olhou para o corpo inerte, sentindo um nó no estômago, mas não havia tempo para hesitação. Em uma ação rápida, ele jogou o corpo de Rony sobre os ombros e, com dificuldade, o carregou pelos fundos do prédio como se estivesse levando um amigo bêbado não chamando a atenção de ninguém, onde uma saída discreta dava para um beco escuro.
Minutos depois, Nico apareceu com o carro de Rony. O som do motor parecia ensurdecedor no silêncio da noite. Sem perder tempo, eles colocaram o corpo de Rony no banco de trás. Preston se ajeitou no banco do motorista e assumiu o controle do veículo.
"Temos que sumir com o carro," disse Nico, a voz ainda trêmula de nervosismo.
Preston concordou. Nico entrou no lado do passageiro e eles seguiram por ruas mais escuras e que eles tinham certeza da ausência de câmeras.
Nico olhava constantemente para trás e toda vez resmungava algum palavrão. Preston falou para ele parar com aquela merda e se concentrar.
Logo, Preston indaga para Nico se ele têm alguma ideia para se livrar do carro e do corpo. Nico apontando para uma estrada abandonada fora da cidade, onde havia um desfiladeiro perigoso. "Tem um buraco ali, profundo o suficiente. Se a gente conseguir empurrar o carro... ninguém vai achar ele por um bom tempo."
Sem discutir, eles seguiram para o local. A estrada estava deserta, e o silêncio da noite pesava sobre eles. Quando chegaram ao ponto exato, saíram do carro, deixando Rony posicionado no volante. As luzes do veículo iluminavam o abismo à frente. Com um último olhar para o corpo inerte de Rony, Nico e Preston começaram a empurrar o carro. Preston escorregou machucando o joelho. Mas logo se recompôs e voltou a empurrar o carro.
O veículo rolou pela borda do desfiladeiro, caindo no vazio, e antes que pudessem pensar em mais nada, o som da explosão ecoou pelo ar. O carro havia caído e explodido ao impactar o fundo do buraco. O clarão iluminou brevemente seus rostos, e Nico soltou uma gargalhada histérica, aliviado e eufórico com a cena.
"Caralho, isso foi louco!" gritou ele, ainda rindo, enquanto Preston se afastava, tentando controlar a respiração e processar tudo o que acabara de acontecer. A adrenalina corria em suas veias, e sua mente estava a mil.
"Vamos embora daqui antes que alguém apareça," disse Preston, finalmente conseguindo falar.
Eles se afastaram o suficiente do local do acidente, o carro avançando pelas ruas escuras e vazias. Nico, ainda ofegante e com o olhar inquieto, esfregou o rosto com as mãos, tentando recuperar a compostura. Depois de alguns minutos de silêncio pesado, ele quebrou a tensão.
“Tem um cara por aqui,” começou, a voz rouca. “Tony. Ele me deve um favor. Nada grande, mas o suficiente pra gente passar a noite e pensar no que fazer.”
Preston lançou um olhar rápido para Nico, suas mãos apertando o volante. “Esse Tony é confiável?” perguntou, a preocupação evidente em seu tom.
“Confia em mim,” respondeu Nico, embora a firmeza em sua voz estivesse tingida de cansaço. “Ele é um sujeito discreto. Ajudou uns caras antes, e não faz perguntas. É nossa melhor chance por enquanto.”
Preston apertou os lábios, claramente pouco convencido, mas não discutiu. Quando chegaram à casa indicada, uma construção simples com janelas apagadas, Nico já estava abrindo a porta do carro antes mesmo de ele parar completamente. Preston suspirou, desligando o motor, mas antes de Nico entrar, ele segurou o braço dele, obrigando-o a encará-lo.
“Ei, Nico, se controla,” disse Preston, a voz carregada de nervosismo e preocupação. “A última coisa que precisamos agora é de mais confusão. Entendeu?”
Nico soltou uma risada nervosa e respondeu, meio provocador. "Virou a porra da minha mãe?" A expressão de Preston não mudava, mas ele sabia que precisava de um pouco de sanidade naquela situação.
Nico entrou, e Preston ficou do lado de fora, sentindo a tensão aumentar a cada segundo. Ele começou a conferir a própria camisa, passando os dedos pela superfície em busca de qualquer mancha que pudesse revelar a confusão que acabaram de deixar para trás. O moletom preto parecia que guardava todos os seus segredos.
Depois de alguns minutos que pareceram eternos, Nico finalmente saiu, comemorando com um sorriso largo enquanto balançava as chaves do carro estacionado em frente à casa. Ele jogou as chaves do velho Chevrolet antigo escuro para Preston e disse, com um ar de desprezo, "Dirige, se não vou bater essa porra."
Não demorou para chegarem de volta à festa. Ninguém parecia ter notado a ausência deles. Preston estacionou o carro a uma curta distância, seus olhos varrendo a cena à frente como um predador avaliando o ambiente. Quando desligou o motor, ele ficou quieto por um instante, o silêncio dentro do veículo contrastando com o caos do lado de fora.
Antes de sair, Nico se virou para Preston, o olhar sério e penetrante. Sua voz soou firme, quase impessoal, como uma ordem mascarada de pergunta.
“Nada aconteceu, certo?”
O tom frio atingiu Preston como um soco, mas ele manteve o olhar no horizonte, evitando encarar Nico. Sua mente ainda estava um caos, repassando o que acabara de acontecer, mas ele sabia que não tinha escolha. Inspirou profundamente, como se o ar pudesse dar-lhe coragem, e finalmente respondeu.
“Nada,” disse, a voz baixa e carregada de resignação.
Nico o observou por mais um momento, avaliando a firmeza na resposta de Preston, antes de abrir a porta do carro. Sem dizer mais nada, ele saiu, ajeitando a jaqueta e caminhando na direção da casa, como se fosse apenas mais uma noite qualquer.
Preston hesitou antes de segui-lo, os ecos do que haviam feito ainda latejando em sua consciência. Enquanto atravessava o jardim iluminado por lâmpadas improvisadas, ele sentiu o peso de cada passo, como se a normalidade aparente ao seu redor fosse uma cruel ironia. Nada havia acontecido. Pelo menos, era isso que eles precisavam acreditar.
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Atualizado até capítulo 111
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