Conformada com seu destino, não querendo mais ver seu pai sentir tamanha dor, Chele decidi aceitar a cerimônia de casamento, dessolada por dentro, se desliga do último fio de esperança que tinha, ela tinha que entender que apesar de ser a princesa e de ser a última e única herdeira de sangue de Florence, não era melhor que nenhuma das outras que vieram antes.
Aceitar logo seu destino era o melhor a fazer, pelo menos assim ela seria a única que sofreria, não aguentaria ver e sentir novamente a dor e a angústia que viu nos olhos do pai.
Uma semana depois de sua "não fuga", a cura da mazela misteriosa dela havia sido declarada, e o pretendente escolhido, o pai se reuniu com os anciãos para decidir o candidato mais adequado já que a princesa abriu mão da escolha, optaram pelo jovem, Tigger Wold, ele era um belo rapaz, alto, forte e saudável, descendia da linhagem de Florence também, não era um candidato a rei provável, mas ainda assim era um nobre, sua família era rica e próspera, seu pai era dono da maior fortuna do vale, sendo superado apenas pelo próprio rei, o jovem não tinha má fama e era um ótimo guerreiro, as moças do vale com certeza se ofereciam aos montes para ele, escolhido o noivo, e avisados todos os outros, o torneio foi encerrado e o cortejo começou.
A jovem princesa passaria um ano noiva de seu escolhido, ao completar 18 primaveras de sua existência, a cerimônia seria iniciada e o casamento realizado.
Para alívio de Chele, ela teria tempo para pensar em um modo de burlar as regras sem prejudicar seu pai e sem fazer ninguém sofrer.
Aliviada por não mais ser o centro das atenções pelo menos por enquanto, Chele passou a se concentrar em outras coisas, queria aproveitar ao máximo sua vida de solteira.
Naquela manhã ela acordou feliz, o dia estava lindo, o sol brilhava no céu, os passarinhos cantavam suas melodias sonoras, e o vento soprava baixinho como uma música, e além do mais na noite seguinte ela teve uma visita, Haivar seu amigo escalador e magricela foi de novo a sua janela, a princípio ela achou que as notícias eram más, pela cara de enterro dele, porém ele apenas agradeceu e disse que a mãe se recuperava a olhos vistos.
__ Fico feliz pela sua mãe, vou vê-la em breve, prometo.
__ Oh, não se incomode, princesa, eu lhe darei seus cumprimentos.
__ Eu mesma quero dar meus cumprimentos a ela, Haivar.
__ Não creio que seja oportuno que vossa alteza vá até a minha casa.
__ O que se passa com você? está sendo grosseiro e descortês em demasia, acaso lhe ofendi de alguma forma?
__ Não vossa alteza, só acho que seu noivo não aprovaria sua visita, a casa de outro homem que participou de seu torneio.
__ Ah, entendi. Você está bravo porque não o escolhi, mesmo sabendo de suas intenções.
__ Como me escolheria tendo tantos outros melhores que eu.
__ Haivar, nenhum deles é melhor que você, e nunca serão. Eu não escolhi nenhum deles, eu nem conheço esse que foi escolhido eu me recusei a escolher, meu pai e os anciãos escolheram por mim.
__ Então não foi você?
Uma pontada de esperança cruzou os olhos dele, e a boa vontade voltou.
__ Não, eu não poderia, e também não poderia escolher você, você não merece ficar preso a mim apenas por gratidão. Tenho certeza que encontrara a moça certa.
__ Então não o viu ainda? digo, seu noivo?
__ Não, só sei seu nome, não me recordo de ter conhecido ou visto ele em algum lugar, nunca fui de prestar atenção em nada, e no torneio me fechei em minha mente de tal forma que nem lembro dos rostos de nenhum, bem mesmo do seu.
__ Você é estranha.
Haivar riu como uma porco guinchando e eu não pude deixar de rir também, me senti aliviada, ele me passava uma sensação tão boa, era como um calmante espontâneo.
__ Sabe Haivar, eu quero muito ser sua amiga e quero continuar te vendo sempre, você me promete que não se afastará de mim, nem depois que eu casar?
__ Se a princesa assim quiser e seu marido permitir.
__ Ele não mandará em mim, aí dele se tentar, eu frito ele em banha ardente.
Ambos riram de novo, falaram das estrelas e da lua, Haivar sabia muito sobre as estrelas e Chele adorava ouvir.
Mas era tarde então ela voltou ao seu quarto e Haivar sumiu entre as árvores, ela pode dormir então tranquila, seu sorriso que achava que nunca mais voltaria, se fixou em seus lábios novamente, e graças a Haivar e as boas notícias sobre sua mãe.
Talvez bastasse para ela as pequenas alegrias que ajudar a trazia, ou as conversas com Haivar, olhar as estrelas, ou até correr livre pelo bosque. Esperava que sim, quem sabe até pudesse amar seu noivo, teria um ano inteiro para conhecê-lo, ela não lembrava daquela regra, achava que casaria já assim que decidissem seu noivo.
Abriu a janela do quarto deixando a luz do dia entrar, o ar fresco atingiu o rosto dela e uma lufada de vento fez seus longos cabelos louros voarem para traz, ela ergueu o rosto contra o vento e sorriu sentindo as cócegas no rosto, não percebeu quando lá embaixo um rapaz a admirava, mesmo tão alta a torre a vista dela na janela era notável, a cor de seus cabelos não era comum, se destacava.
O jovem estava vestindo uma calça de malha apertada, botas de cano alto de couro preto muito bem lustradas, usava uma camisa de lã de ovelha branca de mangas longas, e um colete por cima, seus cabelos eram negros como o carvão, assim como seus olhos, era moreno claro, e ostentava um porte e músculos de fazer inveja a qualquer um.
Ele inspirou profundamente como se buscasse sentir o perfume da noiva, já não era de agora que Tigger sentia algo pela irmã de seu amigo Sant, além de ser a moça mais linda de todo o vale, os cabelos dela e os belos olhos violetas prendiam a atenção de quem quer que fosse, sempre que podia ele a espiava lendo na biblioteca do castelo, ou no mercado da Vila, ou até mesmo no bosque caminhando, buscava desculpas para estar sempre com Sant, afim de ver se chamava a atenção dela.
Porém ela sequer notou a presença dele, era muito reservada, o que só o fazia querer mais e mais tê-la pra ele.
Tigger era um moço bom e honesto, teve um desvio em sua conduta há algum tempo atrás, agia como Sant, mas não gostou muito da vida de conquistador e apenas acompanhava o amigo nas bebedeiras, caças e conversas fiadas. Quando conheceu Chele então, o mundo fechou para ele, só existia ela é ninguém mais, agarraria com unhas e dentes a oportunidade de conquista-la, queria que ela o amasse, não apenas tolerasse sua presença.
Tigger entrou no castelo indo diretamente a sala do trono falar com seu futuro sogro, encontrou-o conversando com seus conselheiros, o rei dispensou eles ficando apenas com Tigger.
__ Então meu jovem, vejo que recebeu meu comunicado.
__ Sim senhor, não posso expressar o tamanho da minha felicidade, eu prometo..
__ Espere, não me prometa nada, não é a mim que deverá fazer juras de amor. para mim só me interessa uma promessa sua.
__Eu farei o possível para cumpri-la, meu rei.
__ Você fará o impossível meu caro, sua noiva é temperamental, é dona de si e última herdeira do sangue mágico, saiba que não será fácil convence-la que é digno de seu amor. Ela não aceitará ordens suas, saiba disso, ela poderá mata-lo apenas com um olhar se quiser.
Tigger sabia de tudo aquilo e sabia também que não seria fácil conquistar a noiva, nada do que o rei lhe disse o surpreendeu, mas o rei parecia surpreso com a reação do jovem.
__ Você me ouviu meu jovem?
__ Sim majestade, eu sei bem como vossa filha é, sou amigo de Sant e conheço de perto o jeito indomável da princesa, isso não me assusta, pelo contrário me encanta
__Bem, vejo que a admira, isso é um bom começo.
__ Quem não admiraria? ela é incrível. Eu serei o homem mais feliz do mundo no dia que conseguir arrancar pelo menos um sorriso de seus lábios, e tentarei.
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Atualizado até capítulo 73
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