Quando se limpou Marsh tomou fôlego e pediu coragem aos deuses para dar o sermão que queria na filha, mas seu orgulho por ela, era tão maior que Não se via capaz de brigar com ela, sua teimosia pôs carne na mesa de toda tribo, será que não era a hora dele ceder um pouco?
Se dirigiu ao quarto da filha, esperando a encontrar lá, mas não a achou lá, foi a sua procura e a encontrou na sala de costura conversando com as fiandeiras, e tecendo a lã.
__ Chele, achei que havia dito para ficar em seus aposentos.
__ Desculpe papai, eu ouvi um barulho vindo da sala de tecer, e vim ver o que tinha acontecido, a senhora Tanda esbarrou na roca sem querer e ela acabou caindo e quebrando, assim como o pulso da senhora Tanda, então eu cuidei da mão dela e limpei a bagunça, e para não atrasar o trabalho das senhoras vim ajudar na costura.
__ Chele, você não ousaria mentir sobre algo assim, apenas para acobertar sua falha?
__ Oh, não papai, veja, pergunte as senhoras aqui presentes, vá aos aposentos da senhora Tanda e comprove com ela mesma o ocorrido.
Marsh ficou confuso por alguns instantes, será que a filha não fora até a floresta? mas se não foi ela o que houve com os servos, ninguém mais poderia fazer tal proeza. Antes que completasse suas suposições as senhoras saíram em defesa da princesa.
__ É verdade meu rei, se a jovem princesa não tivesse vindo até aqui, provavelmente Tanda ainda estaria sangrando no chão, nenhuma de nós poderia ergue-la.
__ Lamento muito por ter desobedecido senhor meu pai, mas acho que foi uma questão maior.
__ Sim, claro que foi.
O rei urso olhou para a filha que esforçava-se em manter-se seria e teve vontade de beija-la e agradecer por ser como era, mas conteve-se, apenas disse-lhe em tom baixo, sabendo que os velhos ouvidos ali não escutariam.
__ Não ache que acredito que aqui tenha sido sua única parada, sei que você esteve na mata e que foi você que nos entregou os servos, você vai ter que me explicar como fez isso, aprendeu a se dividir em duas?
Chele não mais aguentou e gargalhou escandalosamente, chamando a atenção das senhoras, seu riso era tão leve e contagiante que todos também começaram a rir.
__ Eu não posso com você, Chele.
Marsh seguiu para seus aposentos deixando a filha as risadas com as velhas cosedeiras. Ele tinha que admitir que precisava da filha se quisesse trazer carne que não fosse de porcos e ganso ao seu povo, e seria melhor tê-la sob sua vista e proteção.
Chele não sabia ainda, mas seus pequenos atos inconsequentes a prejudicariam, futuramente e não tardaria para seu riso torna-se choro.
Na manhã que ela completou 17 primaveras, ela acordou tensa, sabia que passaria pelo rito de passagem e que agora seria considerada uma mulher feita, pronta para casar e ter filhos, ela não queria aquilo, não agora e não de qualquer forma. Queria se apaixonar, sentir o coração bater mais forte e casar -se por amor, assim como sua fez, ela adorava as histórias da vó embora não acreditasse na maioria delas.
As mulheres invadiram seu quarto antes mesmo dela despertar, a respiram, banharam, fizeram massagens e pinturas em seu corpo, pinturas que contavam a história de seu povo, era costume fazerem isso no rito de passagem das jovens princesas, no topo da pintura estava ela, representada pelos seus olhos violetas, que já muito não existiam.
Ficou calada o tempo inteiro, demonstrando seu aborrecimento com tudo aquilo, foi vestida com uma fina camisola de seda de carneiro, que deixava a mostra seu belo corpo e as pinturas nele.
__ Precisa mesmo disse ama?
__ Claro querida, toda princesa tem que passar pelo seu rito, ou então como saberão que ela está pronta?
__ Mas eu não estou pronta.
__ Está assustada, é normal, conhecerá coisas novas a partir de agora.
__ Porque meu irmão não teve nada disso?
__ Com os homens é diferente.
__ Eu devia ter nascido homem.
__ Agora fique quieta, temos que pintar seu rosto também.
Ela se manteve imóvel enquanto as mulheres faziam seu trabalho, logo seu pai adentrou no quarto, mas fechou a porta atrás de si, assim que a viu praticamente nua.
__ Isso é mesmo necessário?
__ Sim meu rei, são os costumes!
__ Ela não irá sair vestida assim, não permitirei isso.
__ Mas meu senhor.
Chele vendo ali sua oportunidade de mostrar ao pai que costumes não tem que ser seguidos a risca disse inocentemente.
__ Então posso me vestir meu pai?
__ Claro, vá se cobrir.
__ Mas, meu rei é o costume toda princesa antes dela o fez, não pode quebrar as regras, os deuses se irritarão
__ Que se irritem, minha filha não mostrará suas partes a todos.
__ Então papai, podemos quebrar algumas regras, não é mesmo?
O rei urso se viu preso em uma armadilha que ele mesmo montara, ponderou e então se retirou dizendo.
__ Que seja feito do jeito que se deve.
Chele olhou para as costas do pai com raiva e teve vontade de atirar um jarro na cabeça dele.
Mas conteve-se, ele deixaria mesmo ela se submeter aquela humilhação ultrapassada, com certeza os homens da Vila adorariam ver ela naqueles trajes.
Teve vontade de chorar, mas não chorou, levou sua mente para outro lugar, pensou repetidas vezes "é só um corpo, é só um corpo", deixou as mulheres levá-la como se não estivesse ali.
A cada dez passos elas paravam, jogavam pétalas em Chele e diziam palavras antigas, e pediam bênçãos para a nossa mulher que surgia.
A pior parte foi passear pelas ruas e parar a cada passo para ser tocada e observada por cada homem, mulher e até criança que aguardava a caminhada da princesa, Chele viu seu irmão Sant logo a frente cercado pelos amigos, ele a olhava de cima a baixo como se ela não fosse a chata da irmã, ele olhou-a com desejo, ela percebeu e se encolheu se sentindo desconfortável, os amigos idiotas de Sant mal podiam se conter, faltavam pouco ataca-la ali mesmo.
__ Falta muito ama? Não me sinto bem
perguntou Chele esperançosa.
__ Já acabou criança, todos já viram que não é mais uma menina e sim uma mulher.
Foi dado a Chele um manto, e ela viu quando seu pai virou -se insatisfeito com a cena, pelo menos Chele lhe deu aquele desgosto, ela ergueu a cabeça e voltou para dentro do castelo, agora ela seria arrumada para os torneios em sua homenagem, pelo menos estaria vestida, e gostava de ver as justas, gostaria mais de participar delas.
Foi vestida com um vestido sem as pompas de antes, nada de laços, fitas e volume, foi lhe dado um vestido preto, negro como carvão, com um decote que deixava a mostra quase todo o colo dela, ele era apertado até a cintura, onde se abria em uma saia rodada até chegar ao chão, ela adorou o vestido, mas preferia não usar as saias rodadas, pegou uma faca e arrancou as saias de baixo do vestido deixando ele repousar sobre suas nádegas e pernas, se olhou no espelho e aprovou, muito melhor, as pinturas de seu corpo foram removidas, uma luva que chegava até seus cotovelos foi lhe dada, era encrustada de pedrinhas brilhantes, o sapato não era uma bota, eram uma sandália delicada feita com couro de lobo, também colocaram nelas pedrinhas brilhantes.
Chele estava encantada com aquela roupa, usaria só ela se pudesse, em seu pescoço pérolas do mar foram colocadas em forma de um colar, nas orelhas conchas, os cabelos foram presos acima da cabeça em um coque flor, nos olhos passaram pó de carvão para dar-lhe um ar adulto, nos lábios corante de urucum, e nas faces pó de arroz rosado, ela estava ainda mais linda do que antes, se E que era possível.
Quando Marsh mandou buscá-la, foi Sant seu irmão que aparecera, ela ainda não estava confortável com ele depois do olhar dele para o seu corpo, Ao ver a irmã, Sant mais uma vez olhou-a com cobiça, ofereceu o braço que ela teve que aceitar mesmo a contra gosto.
__ Vamos, querida irmã?
__ Vamos.
Chele seguiu dura pelo corredor até chegar às escadarias, Sant a deixou ali, a olhando mais uma vez e desceu as escadas para informar sua chegada, ela olhou para baixo e pôde ver o salão repleto de pessoas todas bem vestidas e elegantes, sentiu vontade de sumir dali, odiava ser o centro das atenções.
Após ser anunciada desceu as escadas degrau por degrau tentando parecer elegante e despreocupada, olhou para o salão e viu suas amigas lá embaixo, elas acenaram para ela, então Chele se sentiu melhor, seu pai a aguardava no último degrau da escada, lhe estendeu a mão, com uma lágrima a escorrer pelo rosto, imaginava como sua pequena e frágil menina havia crescido tanto e ficado tão linda.
__ Está muito bonita filha, embora eu ache que falta pano nesta roupa.
__ Garanto que é bem mais decente do que a última que me fizeram usar.
Ele olhou para ela com complacência, e seguiu para o meio do salão. As velas brilhavam com sua luzes tremeluzentes, dando um ar de magia a roupa negra de Chele, ela achou que o salão merecia mais luz, então com as mãos iluminou todo o salão que ficou claro como o dia.
O baile seguiu animado e Chele mal teve tempo de se lamentar ou mesmo de fugir dali, passou de braço em braço a noite toda, rodopiando ao som das harpas, pandeiros e flautas de seu povo.
Já quase ao amanhecer do dia o baile foi encerrado pelo rei e todos foram descansar para que dali dois dias dessem início aos torneios pela mão da princesa.
O único desejo de Chele era de ir embora correndo dali, não queria ficar noiva, nem casar, nem escolher marido algum.
Porém esse era seu fardo, se ela fugisse seu pai morreria de desgosto e ela seria a vergonha de seu povo, a primeira e única a fugir de suas obrigações.
Ela estava fadada a viver sempre em um impasse, escolher seu povo, suas tradições, ou a si própria? seria tão errado assim colocar -se a frente dos outros?
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Atualizado até capítulo 73
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