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Sentadas à beira de um lago, Leah e a mãe Sara conversam. Sara, com um lenço cobrindo a cabeça, está sentada numa cadeira de roda. A quimioterapia tinha tirado não só seus cabelos, havia levado toda a sua energia. Agora ficava satisfeita só de ficar sentada olhando o ambiente à sua volta. Os pássaros e o verde faziam com que ela esquecesse tudo o que estava passando. Deste que fora diagnosticado com câncer no pulmão tardio, os médicos a condenaram a 6 meses de vida. Quando ela decidiu abandonar o tratamento, seu tempo caiu para 3. Ela insistiu no tratamento até ver a filha chegar, com o mais que um braço quebrado, e sim parte da alma. Ela decidiu, a contragosto de Leah, abandonar todos os tratamentos e ser a mãe de que a filha precisava. Agora, ainda mais cansada, olhava a doce jovem mulher que formara, sentada ali com o rosto virado para o sol... Sabia que tinha feito a escolha certa.
Ela estava agora mais calma, bem diferente de quando ela descobriu, Leah ficou tão doente que por dias teve que vestir a capa de mãe da filha, até ela ter coragem e se abrir e contar tudo o que tinha acontecido com ela. Tão jovem, tantas decepções, tantas humilhações. E ela não pode fazer nada além de entregar seu colo para ela chorar.
,_ Aqui é tão bonito. _ Diz Leah para a mãe.
_ Aqui é mesmo, obrigado por me fazer companhia. Não é justo você tomar conta de mim, quando nesse momento eu deveria tomar conta de você.
Leah fecha os olhos, virando para o sol.
_ Não se culpe, mãe, eu estou adorando esse tempo com você, apesar de que eu ainda acho que a senhora deveria voltar para o hospital.
_ Eu não quero passar os últimos dias da minha vida enfurnada em um hospital, prefiro estar aqui com você, nesse momento não deveria estar em outro lugar, além de ao seu lado. _ Ela olha para a filha que retribui, olhando com olhos cheios de lágrimas.
_ E quanto à casa, já pensou como vai fazer? _ Pergunta antes que a filha desabe.
_ Eu não quero pensar nisso. _ Diz ela, limpando os olhos. Não queria pensar em nada envolvido com a morte da mãe.
_ Não quero que você fique por aí, sozinha e sem casa. Eu e seu pai compramos a casa quando ainda éramos muito jovens. Quando nos separamos, ele me deixou a casa, com a condição de que ela não seria vendida até ser entregue a você. Tenho boas recordações de você sentada naqueles degraus com suas bonecas. _ Lembra saudosa.
_ Eu não lembro dessa casa, mãe. _ Ela diz.
_ Nem deveria, você era somente um bebezinho quando nos mudamos de Michigan para Boston. Suas memórias daquele tempo foram apagadas. _ Ri Sara. _ Por isso, quero que você vá para lá quando eu partir, e um bom lugar, com boas pessoas, você pode recomeçar lá. _ Diz, olhando serio para Leah.
_ Mamãe, não quero ter que pensar, que em breve a senhora vai me deixar. _ Disse engolindo o choro, já que prometara para a mãe não chorar.
_ Mas você nunca ficará sozinha. E de onde eu estiver, sempre vou olhar por você em todas as suas fases.
_ Eu sei. _ Diz abaixando o olhar.
_ E demais, Logan me deixou uma boa quantia em dinheiro, você pode se mudar e terá tempo de arrumar um trabalho. E quem sabe até voltar para a universidade, tudo é possível.
_ Não sei se vou ter condição de voltar à universidade, trabalhar e tomar conta de uma casa. Na verdade, não sei nem por onde começar...
_ Isso é fácil, comece sempre pelo começo. _ Riu.
_ Mãe posso te perguntar uma coisa?
_ Claro aproveita minha promoção, hoje sou um livro aberto até a meia-noite. _ Disse em tom de brincadeira.
_ Você amou mais meu pai ou o Logan? _ Questionou, olhando bem para a mãe.
_ Seu pai me deu meu bem mais valioso, você. _ Disse olhando a filha, respirou fundo e continuou. _ Quando eu e seu pai nos conhecemos, eramos duas crianças, ele foi o grande amor da minha infância. Lembro quando ele brigou com seu avô e foi para Boston, meu coração ficou dilacerado, eu ficava sentada até tarde próximo à cabine telefônica, na hora que ele marcava de me ligar, por mais que nossa conversa não passasse de 10 minutos, eram os dez minutos mais incríveis do meu dia. De repente ele sumiu e não deu mais notícia, eu quase morri. _ Riu lembrando. _ Comecei a trabalhar na lanchonete da família Perkins. Eles tinham um filho jovem, muito galanteador, Travis, ele tentava ganhar meu coração. No início, eu achava ele infantil, mas com um tempo percebi que poderia virar algo sério, mas meu coração era do seu pai. Um dia, eu estava organizando as prateleiras do depósito em cima de uma mesa, lembro que eu me esforçava para alcançar as partes altas. Quando eu me virei, seu pai estava lá, parado, lindo, com aquele sorriso gigante para mim. Senti minhas pernas falharem, não conseguia respirar, lembro que quase caí se ele não tivesse me amparado, eu sabia que era ele, eu sentia isso. E foi durante anos, mas um dia nos percebemos que não passamos de amigos. Quando você tinha por volta de uns 3 anos, nos mudamos para Boston tentando reacender nosso amor, mas foi em vão. Então, eu fui viver minha vida com você e ele a dele. Ele sempre foi um bom amigo, quando ele casou de novo, eu fiquei feliz. E um dia, Logan apareceu e eu senti algo que eu nunca tinha sentido com seu pai, eu tinha um companheiro para a vida. Eu podia contar com ele em todos os momentos. Quando ele tocava minhas mãos, ele emitia sinais por todo meu corpo. Ele sabia como agradar uma mulher, foram os melhores anos da minha vida. Foram 6 anos de muita felicidade, eu ainda lembro do perfume dele. Nós ficamos juntos até o fim, quando finalmente nos decidimos nos casar, tudo aconteceu. Foi tudo tão rápido, eu sofri muito, o que me consola é que agora vou ficar com ele, quando tudo aqui acabar. Ele é minha alma gêmea. Eu não tenho medo da morte e não quero que você sofra, eu estou feliz, eu tive uma vida boa, vi você crescer e se tornar a mulher que é hoje, vou morrer em paz. Quando eu fechar os olhos aqui, vou abrir e encontrar ele lá, sei que ele vai estar me esperando. _ Leah chorava em silêncio, observando a mãe.
_ Não se preocupe, mãe, pode descansar, nós vamos ficar bem...
*** Anos depois...
Leah corria apressada dentro de casa, já eram 18 h, estava muito atrasada.
_ Summer, deixei uma sopa do jeito que você gosta na cozinha, eu estou muito atrasada. Qualquer coisa, você sabe, meu telefone está no silencioso, mas pode me enviar mensagens que, sempre que puder, te respondo. _ Correu em direção à porta, dando um rápido beijo na amiga.
_ Amiga, você não pode continuar assim... _ Ensaiou uma bronca sem sucesso, Summer, já que ficou com a mão para cima enquanto Leah saia batendo a porta. O jeito era comer a sopa e assistir tv.
Leah correu até o ponto de ônibus, ele já estava saindo quando a motorista a viu pelo retrovisor. Parou fora do ponto para ela subir.
_ Você me deve um café, e não pense que eu não vou cobrar. _ Diz a motorista.
_ Sally hoje você merece mais que um café e eu prometo que, terminando seu horario eu vou estar te esperando com seu café e um belo donuts. _ Disse Leah tentando recuperar o folego, correr no frio era doloroso.
Procurou seu lugar no ônibus e sentou-se para esquentar um pouco até chegar na lanchonete. O caminho dava para fazer a pé, mas naquele frio era melhor aproveitar um pouco o conforto. Flint era uma cidade pequena, comparada à loucura de Detroit, gostava dali, das pessoas, até do clima. Passou o dia lembrando da mãe e como aqueles dias foram bons. Teria sempre consigo essas lembranças, a mudança após a morte dela tinha sido complicada, mas foi muito bem recebida pelos vizinhos que lembravam dela ainda no colo da mãe. Com muito esforço, conseguiu terminar o curso de enfermagem, porém o sonho de se tornar médica teve que ser cancelado. Não realizou o sonho, porém estava feliz com suas conquistas e sabia que a mãe também estaria orgulhosa dela. Um dos rapazes do hospital até a tinha convidado para sair, só precisava arrumar um tempo, estava tão encalhada que nem lembrava a última vez que saiu com alguém do sexo oposto. Não era por falta de convite, os rapazes sempre a convidavam, ela sempre arrumava uma desculpa. Até tentou algumas poucas vezes, mas sempre comparava os atuais e alguém do passado. Não importava o tempo, Noah Walker ainda assombrava sua vida, nunca mais sentiu nada parecido. Summer sempre ralhava com ela, que não dava chance para outra pessoa tomar conta dos seus pensamentos. Mas estava decidida a mudar essa parte da sua história. Em breve, quando ela arrumasse um tempo. Fechou os olhos e encostou a cabeça no vidro. As imagens daquele corpo sempre invadiam sua mente, principalmente quando ela não queria. Mas por um instante resolveu revivenciar aquelas partes que ela tentava a todo custo esquecer, quis experimentar por um momento, o toque, o cheiro, os lábios, e que lábios. Tinha a lembrança vivida de uma mão grande segurando seu pescoço e sussurrando palavras desconexas em seu ouvido: _" Agora você é minha."
_ Leah eu gosto muito de você, mas acho melhor você retirar esse bumbum do meu ônibus e ir preparar meu donut. _ Gritou a motorista. Leah deu um pulo, assustada com o calor que estava sentindo.
_ Desculpa, Sally, acho que cochilei. _ Levantou-se correndo, em direção à porta.
_ Esta se sentindo bem? Você está vermelha. _ Perguntou.
_ Estou sim. _ Sentiu o rosto corar.
_ Ok, mais tarde eu passo para te ver, e se você não estiver bem, obrigo Travis a te mandar para casa. Até mais tarde. _ Despediu Sally.
Caminhou até a entrada da lanchonete. Onde foi recebida por um doce cheiro de café e canela. Era hora de voltar para a realidade. Esquecer que, por uma noite, os olhos de Noah Walker, estiveram sobre ela.
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Atualizado até capítulo 25
Comments
Euni Calixto Morbi
puxa vida autora, passou -se anos?
2024-10-28
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