O som da porta se fechando atrás dos garotos ressoou pelo ambiente pesado do porão. O cheiro azedo e forte de mofo e bebida fermentada os envolvia, tornando a respiração quase insuportável. Com apenas a luz de seus celulares iluminando o espaço, sombras densas se espalhavam pelas paredes, enquanto eles exploravam cada canto daquele lugar esquecido. Connor ia na frente, com passos firmes, enquanto os outros três o seguiam um tanto relutantes.
– Cara, o cheiro aqui é insano – Emett reclamou, tampando o nariz. – Como é que alguém aguentava ficar aqui por mais de cinco minutos?
– Talvez ninguém tenha realmente aguentado – Luca murmurou, com um tom tenso, olhando ao redor com desconfiança. As prateleiras estavam cobertas de poeira, e o chão de concreto tinha manchas antigas que eles preferiam não saber a origem.
Joshua, apesar do desconforto, parecia o mais calmo do grupo. Ele balançou a cabeça em direção ao Emett.
– Relaxa, cara. Você já entrou em lugares piores quando tava correndo com o teu patins por aí.
Emett deu uma risadinha curta, embora claramente não estivesse à vontade.
– Bom, pelo menos nesses lugares eu podia sair rápido. Aqui parece que estamos presos numa... caixa fedida.
Luca lançou um olhar preocupado para Connor, que continuava andando em silêncio pelo porão, passando os dedos nas paredes desgastadas.
– O que de importante a gente veio fazer aqui? – Luca finalmente quebrou o silêncio, sua voz soando baixa, mas firme. – Tem algo que você quer nos mostrar, não tem?
Connor parou no meio do cômodo, o som dos outros passos também cessando quando os garotos se agruparam perto dele. Ele virou lentamente a cabeça para Luca, os olhos sombrios e duros, como se revivesse memórias que o estavam consumindo.
– Sim... – Connor começou, respirando fundo. – Eu trouxe vocês aqui por um motivo. Esse lugar... – Ele olhou ao redor, o asco evidente em sua expressão. – ...não é só um porão velho e esquecido. Ele guarda algo muito pior.
Joshua franziu a testa.
– Pior? Tipo o quê?
Connor esfregou o rosto com as mãos, o peso das palavras que viria a seguir parecia esmagá-lo. Quando finalmente voltou a falar, sua voz estava baixa, mas carregada de uma raiva contida.
– Foi aqui que minha irmã morreu.
Os garotos congelaram no lugar. O choque percorreu o grupo como uma onda silenciosa. Luca sentiu o corpo tenso, como se o peso daquela frase se alojasse em seu peito, tornando difícil até mesmo respirar.
Emett, sempre tão brincalhão, agora parecia sem palavras. Ele apenas olhou para Connor, esperando que ele continuasse, sem saber o que dizer.
– Sua irmã...? – Joshua foi o primeiro a se manifestar, sua voz cautelosa.
Connor assentiu, os olhos fixos em algum ponto distante na escuridão do porão.
– Ela foi trazida aqui... por Ryan e pelos caras do time de basquete – Connor cuspiu os nomes como se fossem veneno. – Eles a forçaram a usar entorpecentes... e depois... – Ele fez uma pausa, o maxilar trincado. – Depois a usaram como brinquedo.
O silêncio que caiu sobre o grupo era palpável, quase sufocante. Luca, que sempre mantinha uma postura mais reservada, sentiu seu estômago se revirar com aquelas palavras. “Brinquedo...?” Era como se a mente dele não pudesse processar completamente o que isso significava, mas o significado, cruel e sujo, estava ali, claro como o dia.
Emett foi quem quebrou o silêncio, a voz trêmula, cheia de incredulidade.
– O que... o que você quer dizer com ‘brinquedo’, Connor?
Connor virou-se para ele, os olhos cheios de uma fúria fria que parecia prestes a transbordar.
– Eu quero dizer que eles a drogaram até que ela não pudesse mais se defender... e depois... depois enfiaram seus paus imundos na minha irmã. Na boca, na vagina... rindo, enquanto a transformavam em algo descartável. E quando terminaram, a deixaram aqui. Ela com certeza morreu de tanto que esses desgraçados abusaram dela!
Os rostos de todos ficaram pálidos, e a tensão no ar era quase insuportável. Joshua, geralmente tranquilo, estava sem palavras. Emett parecia querer dizer algo, mas sua boca se abriu e fechou sem emitir som algum. Luca, por outro lado, sentiu um nó se formar em sua garganta, o suor frio descendo por sua nuca. A cabeça latejava de confusão e horror, enquanto tentava processar a brutalidade daquilo que acabara de ouvir.
“Como... isso pôde acontecer? Como alguém pode fazer isso com outro ser humano...?”
Connor respirou fundo, tentando se controlar. Ele sabia que os garotos estavam processando o que acabavam de ouvir. Eles não esperavam por isso. Talvez tivessem pensado que ele os trouxe para algo menos sério, uma aventura ou qualquer coisa... mas agora sabiam que estavam em algo muito mais sombrio e real.
– Eu não trouxe vocês aqui apenas para contar isso. – Connor voltou a falar, sua voz ainda mais firme, mas cheia de dor. – Trouxe vocês porque... preciso de vocês. Preciso que vocês me ajudem a lidar com Ryan e o time de basquete. Eles são os culpados, e não vão se safar dessa.
O silêncio voltou, mas dessa vez parecia mais pesado. Cada palavra de Connor pairava sobre eles como um peso impossível de carregar.
Luca sentiu sua mente correr em mil direções. “Como eu posso ajudar? O que ele está pedindo?”
Connor caminhou até o centro do porão, onde a luz fraca de seus celulares deixava a poeira dançando no ar, iluminando um espaço que parecia ainda mais sufocante agora. Ele parou por um momento, fechando os olhos como se buscasse a força para continuar. Quando voltou a falar, sua voz estava pesada, carregada de lembranças que ele preferia esquecer.
– Depois que minha irmã não voltou... eu fiquei desesperado. Saí à procura dela, bati de porta em porta, liguei para todo mundo que conhecia. Ninguém sabia de nada. Eu já estava no meu limite quando recebi uma mensagem dizendo que ela tinha sido levada para o necrotério.
Joshua, Emett e Luca ficaram em silêncio. A gravidade das palavras de Connor se entranhava no ar.
– Eu corri até lá. Quando cheguei, tudo era burocracia – continuou Connor, o sarcasmo e o desprezo tomando conta de sua voz. – Precisava provar que eu era parente, mostrar documentos... Enquanto eu estava ali, a única coisa na minha cabeça era: ‘Ela está viva. Ela vai sair desse lugar andando.’
Ele balançou a cabeça, com um sorriso amargo nos lábios.
– Mas não foi isso que aconteceu. Quando consegui entrar... eles me levaram até onde ela estava... Eu nunca vou esquecer o que vi. – Connor passou a mão pelo rosto, como se quisesse apagar as imagens da sua mente. – Disseram que ela tinha morrido por insuficiência hepática ou cardíaca, causada por overdose. Mas eu sabia. Eu sabia que ela não usava drogas, que não bebia. Eles... eles a drogaram. Fizeram isso com ela até ela morrer.
O silêncio que seguiu foi espesso, quase palpável. Emett olhou para o chão, incapaz de encarar Connor. Joshua esfregava a nuca, tenso. Luca, por outro lado, estava imóvel, a mente cheia de perguntas, mas sem nenhuma resposta.
"Isso... é insano. Como algo assim pôde acontecer?", Luca pensava, sentindo-se mais perdido do que nunca.
Connor levantou o olhar, sua expressão endurecendo.
– Vocês entendem o que eu estou pedindo? Eu preciso que vocês me ajudem. Eles não podem escapar dessa. Não podem. E... eu preciso de vocês pra isso.
Emett, visivelmente incomodado, cruzou os braços.
– Connor... isso é... é muito sério. Não sei se...
Connor o interrompeu, sua voz tingida com um sarcasmo cruel.
– Ah, sério, Emett? Muito sério? A morte da minha irmã é o suficiente pra você pensar que talvez seja um pouquinho sério?
Joshua, percebendo a tensão crescer, tentou intervir.
– Calma aí, Connor. Não é que a gente não se importe. Isso é horrível. Ninguém deveria passar por algo assim, mas... o que exatamente você espera que a gente faça?
Connor olhou para os dois, seus olhos queimando com uma intensidade que deixava clara a gravidade do que estava pedindo.
– Eu espero que vocês sejam meus amigos. Amigos de verdade. Porque, caso vocês tenham esquecido, somos um grupo. E um grupo precisa se apoiar... mesmo que seja pra resolver algo como isso.
Luca observava a cena em silêncio, o caos se instalando em sua mente. "O que ele quer que a gente faça? Nos vingar? Ir atrás de Ryan e os outros? Isso... isso pode acabar mal. Muito mal."
Connor virou-se para Emett, seu olhar se fixando no garoto. Um sorriso carregado de ironia surgiu em seus lábios.
– Você lembra do dado de quatro lados, Emett?
Emett piscou, confuso, e assentiu lentamente.
– Lembra daquela incógnita dos dados de 4 lados contra um dado de 12 lados que te fiz na sala de aula?
Os olhos de Emett começaram a entender onde Connor queria chegar. Ele engoliu em seco.
– E... o que você está querendo dizer com isso, Connor?
Connor deu um passo à frente, seus olhos penetrando os de Emett.
– Nós quatro... somos o D4. E Ryan e o time de basquete... são o D12. Eles têm mais poder, mais força... mas se jogarmos nossas cartas direito, podemos vencer. A gente pode fazer justiça. E o melhor, com as próprias mãos.
A tensão no ambiente aumentou, e Emett olhou para o chão, claramente abalado. Ele entendeu o que Connor estava sugerindo, e isso o assustava. Mas ao mesmo tempo... havia algo em Connor, na dor crua que ele expunha, que o fazia hesitar em recusar.
– Então... o D12... são eles? Ryan e os outros? – Emett perguntou, sua voz fraca.
Connor assentiu.
– Exatamente. E nós quatro somos o que resta pra equilibrar esse jogo. Vocês são os únicos que eu posso contar pra isso.
Joshua olhou para Emett e depois para Connor, sentindo a pressão aumentar a cada segundo.
– Connor... isso é pesado, cara. Não tô dizendo que você tá errado, mas... isso pode dar muito ruim pra gente. E a justiça? Não tem como você... sei lá, denunciar isso? Fazer com que eles paguem por isso legalmente?
Connor riu. Não era uma risada de humor, mas de frustração amarga.
– Denunciar? E confiar no sistema? O mesmo sistema que registrou a morte da minha irmã como uma overdose? O mesmo sistema que finge que garotas como ela escolhem morrer de drogas enquanto um bando de filhos da puta faz o que quer com elas? – Ele balançou a cabeça. – Não. Isso aqui... isso é mais que justiça. Isso é sobre o que vocês são. Se vocês são de verdade.
Joshua, embora hesitante, parecia considerar as palavras de Connor. Ele olhou para Emett e Luca, procurando alguma resposta. Por fim, soltou um longo suspiro.
– Merda... eu não acredito que vou fazer isso. Mas, porra, Connor, eu tô com você. Se é isso que precisa ser feito, eu tô dentro.
Emett ainda estava em conflito. Ele olhou para o chão, para os amigos e, por último, para Connor. A pressão estava esmagando-o, mas algo no olhar de Connor, naquela metáfora do dado, o fez finalmente falar.
– Tá... tá certo. Eu entendo o que você quer dizer. E, se isso significa alguma coisa... eu tô dentro também.
O alívio momentâneo de Connor ao ver dois de seus amigos aceitando sua causa não aliviava o peso do que estava prestes a acontecer. Ele então virou seus olhos para Luca, o último a falar.
Luca, no entanto, estava paralisado. A mente dele estava em um turbilhão de pensamentos, de dúvidas, de medos. Tudo o que ele ouviu naquela noite o havia abalado profundamente, e agora, Connor estava pedindo mais do que ele jamais poderia imaginar.
Connor percebeu a hesitação em Luca e se aproximou, com um olhar misto de exasperação e expectativa.
– Você, Luca. E então? – Ele inclinou a cabeça, suas palavras carregadas de uma provocação sutil. – Ou você vai ser o único a arregar, o único a ficar de fora desse D4? A única peça que vai fazer a gente perder?
A mente de Luca explodia com pensamentos confusos, a pressão de todos os olhares sobre ele aumentava a cada segundo. As palavras de Connor, carregadas de peso, ecoavam em sua cabeça.
“Eu... o que eu devo fazer?”
O ambiente foi tomado com o silêncio de Luca, enquanto o caos em sua mente só aumentava e Connor,Emett e Joshua esperavam uma resposta.
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Atualizado até capítulo 21
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