Capítulo 5: Babá

O som irritante do despertador arrancou Luca de um sono inquieto. Ele se revirou na cama, tentando abafar o barulho com o travesseiro, mas sabia que não poderia adiar o inevitável. Com um suspiro, estendeu a mão e desligou o despertador, ficando deitado por mais alguns segundos, encarando o teto.

A primeira coisa que veio à sua mente foi a conversa com Felícia . Aquela missão que ela havia lhe confiado, que ainda pairava sobre sua cabeça como uma nuvem carregada. A responsabilidade de se aproximar de Connor, de lidar com aquela situação que parecia completamente fora de seu alcance, agora precisava de uma resposta.

Luca se sentou na cama, esfregando os olhos enquanto tentava organizar seus pensamentos. "Hoje vou ter que decidir", ele pensou, sentindo o peso da escolha se instalar em seu peito.

Depois de se arrumar e tomar um café da manhã rápido, Luca pegou sua mochila e seguiu para a escola, a sensação de incerteza crescendo a cada passo.

 

Ao entrar na sala de aula, não teve tempo nem de se sentar. Um dos alunos do grêmio, usando a tradicional gravata azul que os distinguia dos outros, já estava à sua espera. O garoto, com uma postura séria, aproximou-se rapidamente.

— Luca, Felícia pediu para você ir à sala de reuniões do grêmio — disse ele, sem perder tempo.

Os olhares na sala voltaram-se imediatamente para Luca, e os sussurros começaram.

— O que será que ele aprontou pro conselho estudantil chamar ele? — cochichou uma das garotas, olhando curiosa.

— Será que ele se meteu numa fria? — sussurrou um garoto próximo a ela, com um tom de preocupação forçada.

Luca ouviu tudo, mas não reagiu. Ele já estava acostumado a ser o centro de fofocas involuntárias, especialmente agora, depois de ter sido chamado pelo grêmio mais de uma vez. No entanto, dessa vez, alguém decidiu ir além.

Um garoto, sentado ao fundo com seu grupo de três amigos, deu um sorriso sarcástico e não perdeu a chance de fazer uma piada.

— Olha lá, gente! Luca deve ter virado o delinquente da vez. Cuidado com ele! — disse, rindo alto.

Os outros três riram junto, dando tapas nas costas uns dos outros como se tivessem acabado de ouvir a melhor piada do dia. Luca, no entanto, continuou impassível. Ele não olhou para trás, nem reagiu ao comentário. Sua cabeça estava em outro lugar, muito distante daquela sala e das risadas.

— Vamos logo — disse ele ao membro do grêmio, dando a entender que não se importava com o que os outros estavam dizendo.

O garoto do grêmio assentiu e saiu da sala, com Luca seguindo de perto. Enquanto caminhava pelos corredores, os murmúrios e olhares curiosos pareciam segui-los como uma sombra, mas Luca manteve seu foco no que estava por vir.

 

Quando chegaram à sala de reuniões do conselho estudantil, Luca sentiu o peso da situação aumentar. Ao entrar, viu que a sala estava diferente do que esperava. Não era apenas Felícia esperando por ele. Sentado em uma das cadeiras ao redor da mesa de reuniões estava Connor, olhando distraidamente para o lado, como se não estivesse realmente interessado em estar ali.

Além de Connor, havia mais dois membros do grêmio. Um deles, um garoto com o cabelo penteado perfeitamente e expressão séria, parecia ser um dos assistentes de Felícia . A outra era uma garota de óculos com uma expressão neutra, folheando alguns documentos.

Felícia estava no centro, como sempre, com sua postura impecável e aquele olhar que fazia qualquer um se sentir observado de perto.

— Luca, sente-se — disse Felícia , apontando para a cadeira à sua frente.

Luca se aproximou lentamente, sentando-se sem desviar os olhos de Connor. O garoto do primeiro ano mal olhou para ele, mas Luca podia sentir a tensão no ar.

— Hoje quero saber sua decisão — disse Felícia , sua voz firme e direta. — Você já sabe o que está em jogo. A situação de Connor exige uma intervenção, e a diretoria quer que façamos isso de maneira discreta. Precisamos proteger a reputação de todos os envolvidos.

Luca sentiu o olhar penetrante de Felícia sobre ele, mas também percebeu que Connor estava se mexendo desconfortavelmente em sua cadeira. Ele parecia alheio à seriedade do que estava acontecendo, ou talvez estivesse apenas tentando fingir que não se importava.

— Entendo a responsabilidade — respondeu Luca, sua voz saindo mais calma do que ele realmente se sentia. — Mas não tenho certeza de como posso ajudar.

Felícia cruzou as mãos sobre a mesa, inclinando-se levemente em direção a Luca.

— Eu te escolhi porque acredito que você pode. E sei que, por mais que pareça complicado, você é capaz de fazer isso da sua maneira. Não estamos pedindo para você mudar quem você é, Luca. Só queremos que você seja um ponto de equilíbrio. Connor está num caminho perigoso, e você pode ser a pessoa que vai impedi-lo de cometer erros maiores.

Luca olhou para Connor de relance. O garoto estava com os braços cruzados, ainda evitando olhares, mas seus punhos estavam cerrados, um sinal claro de que ele estava com raiva — ou frustrado. Luca se perguntava o que passava pela cabeça dele, mas, ao mesmo tempo, não sabia como se aproximar sem parecer forçado.

— E o que você acha disso tudo, Connor? — perguntou Luca, arriscando falar diretamente com ele pela primeira vez.

Connor levantou o olhar devagar, seus olhos estreitando-se um pouco.

— Eu não preciso de ninguém cuidando de mim — murmurou ele, com uma ponta de irritação na voz. — Não pedi isso. Não preciso de ajuda de ninguém.

A resposta de Connor era previsível, mas ainda assim, fez o estômago de Luca revirar. Ele sabia que lidar com Connor não seria fácil, e ouvir isso logo de cara só reforçava suas dúvidas.

— Eu não estou aqui para te vigiar — disse Luca, tentando soar o mais neutro possível. — Nem quero isso. Mas parece que estamos nessa situação juntos, quer a gente queira ou não.

Connor deu uma risada curta, cínica.

— Boa sorte com isso, então. Porque eu não vou facilitar pra ninguém.

Luca permaneceu em silêncio por alguns segundos, absorvendo a resposta de Connor. Aquilo só tornava a situação ainda mais complicada, e a última coisa que ele queria era ser empurrado para um papel que não sabia como desempenhar.

— A decisão ainda é sua, Luca — interrompeu Felícia , observando a troca entre os dois. — Você pode aceitar ou recusar. Mas, como eu disse antes, confio na sua capacidade. E você sabe que, se aceitar, vai ter nosso apoio.

Luca sentiu o peso das palavras de Felícia novamente. Ele sabia que, uma vez que aceitasse, não haveria como voltar atrás. Connor precisava de alguém, mesmo que ele não admitisse. E talvez, só talvez, Luca fosse a pessoa certa para isso.

— Eu aceito — respondeu Luca, finalmente, depois de uma pausa.

Felícia assentiu, satisfeita, e os outros membros do grêmio fizeram o mesmo em silêncio. Connor, por outro lado, apenas revirou os olhos e voltou a olhar para o lado, como se aquilo não significasse nada para ele.

— Ótimo — disse Felícia , um leve sorriso surgindo em seus lábios. — Vamos trabalhar juntos nisso, então.

E assim, a reunião chegou ao fim, mas Luca sabia que aquilo era apenas o começo.

Luca e Connor saíram da sala do grêmio estudantil em completo silêncio. O ar entre eles era pesado, e Luca podia sentir a tensão irradiando de Connor, como se ele estivesse à beira de explodir. Os dois caminharam pelo corredor, os passos ecoando no chão de azulejo. O clima era visivelmente desconfortável, e Luca sabia que precisaria tentar quebrar o gelo, por mais difícil que fosse.

Assim que saíram da sala, um dos membros do grêmio, o mesmo garoto que havia chamado Luca mais cedo, disse:

— A diretoria pediu para vocês passarem o resto da manhã na biblioteca, enquanto resolvem alguns detalhes sobre essa situação.

Luca assentiu sem questionar, e Connor deu de ombros, claramente alheio à ideia de seguir qualquer ordem. Caminharam em direção à biblioteca em completo silêncio, até que Luca, incapaz de suportar a atmosfera pesada, decidiu tentar iniciar uma conversa.

— Então... você gosta de basquete? — perguntou Luca, referindo-se ao time que Connor parecia ter problemas.

Connor revirou os olhos, soltando uma risada curta e sarcástica.

— Ah, claro. Eu adoro o time de basquete. Eles são minha inspiração de vida — respondeu, carregando a voz com ironia.

Luca imediatamente sentiu o constrangimento se instalar, mas tentou manter a compostura.

— Certo, foi uma pergunta idiota — admitiu Luca, esfregando a nuca. — Eu só... estou tentando conhecer você melhor.

— Que fofo. — Connor olhou para Luca de lado, seu rosto impassível. — Mas a última coisa que eu preciso é de um cara querendo me conhecer como se fôssemos virar amigos ou algo assim.

Luca franziu a testa, sentindo o peso das palavras. Ele não estava acostumado a lidar com esse tipo de sarcasmo tão agressivo e não sabia muito bem como responder. Mesmo assim, não queria desistir tão cedo.

— Olha, eu não estou tentando ser sua babá. Só quero entender o que você está passando, talvez encontrar um jeito de tornar isso menos... péssimo — Luca tentou novamente, sentindo-se cada vez mais inseguro conforme as palavras saíam de sua boca.

Connor parou de andar por um segundo e olhou para Luca como se estivesse avaliando se ele era sério ou só alguém tentando passar o tempo.

— Menos péssimo? — repetiu Connor, com um meio sorriso no rosto. — Bom, Luca, se você conseguir transformar essa situação em algo que não seja uma grande piada, me avisa. Mas, por enquanto, parece que a única coisa que mudou é que agora eu tenho alguém me seguindo e tentando ser meu psicólogo particular.

Luca sentiu o desconforto aumentar. Ele sabia que não estava indo bem na tentativa de aliviar a tensão. Talvez fosse melhor deixar Connor em paz, mas algo dentro dele o impulsionava a continuar, mesmo que só estivesse piorando as coisas.

Eles chegaram à biblioteca, mas ao invés de entrarem de imediato, pararam próximos à entrada. O silêncio momentâneo entre os dois tornou-se pesado e constrangedor. Luca coçou a cabeça, tentando pensar em algo menos formal, mas que não soasse idiota.

— Então... além de ameaçar o time de basquete, você faz mais alguma coisa? — Luca perguntou com um tom ligeiramente mais leve, esperando que talvez uma tentativa de humor pudesse quebrar a resistência de Connor.

Connor ergueu uma sobrancelha, seu sorriso sarcástico reaparecendo.

— Bem, ameaçar o time é praticamente um hobby, mas quando não estou fazendo isso, eu gosto de colecionar borboletas e praticar tricô. Sabe, hobbies normais — disse ele, com uma expressão completamente séria.

Luca não conseguiu evitar um pequeno riso antes de perceber que talvez não fosse a melhor reação, mas já era tarde demais.

— Desculpa, mas... borboletas e tricô? — perguntou Luca, tentando conter o riso.

Connor soltou uma risada curta e seca.

— Ah, que bom que achei seu ponto fraco, cara. Humor barato. Anotado.

Luca revirou os olhos, sem saber se estava indo bem ou simplesmente afundando cada vez mais. Ele deu uma olhada para a biblioteca e suspirou.

— A gente poderia estar nas nossas salas agora, mas ao invés disso estamos aqui, sabe? Tipo, por que eles querem que a gente fique na biblioteca? Tem algo que eu não sei?

— Provavelmente acham que a biblioteca é o único lugar onde eu não vou sair batendo em alguém — respondeu Connor, ainda mantendo o sarcasmo afiado.

— Faz sentido. — Luca deu de ombros, tentando não parecer afetado.

Os dois começaram a andar novamente, agora em direção a uma das mesas vazias da biblioteca. O silêncio voltou a se instalar entre eles, mas dessa vez parecia menos tenso e mais... estranhamente aceitável.

Quando se sentaram, Luca percebeu que, apesar da resistência de Connor, havia algo em sua postura que não era completamente intransponível. Ele estava frustrado, claramente desconfiado de tudo e de todos, mas Luca sentia que, com o tempo, talvez houvesse uma forma de quebrar essa barreira.

— Escuta, eu não tenho experiência nenhuma com isso — disse Luca, finalmente, virando-se para Connor. — Mas eu vou tentar, mesmo que você odeie cada segundo. E se isso for uma merda, bem... pelo menos a gente pode rir depois.

Connor o encarou por alguns segundos, como se estivesse considerando o que ele acabara de dizer. Um sorriso lento, quase imperceptível, se formou nos lábios dele.

— Você é mais esquisito do que eu pensei — murmurou Connor. — Mas, sinceramente, talvez seja bom ter alguém tão esquisito assim por perto. Vamos ver no que isso dá.

Luca não sabia se isso era um avanço ou apenas mais uma das provocações de Connor, mas decidiu tomar como um pequeno passo à frente. Mesmo que fosse apenas isso, já era algo.

E assim, sentados lado a lado na biblioteca, eles encararam a estranha tarefa de conviver em silêncio, enquanto o desconforto e o sarcasmo flutuavam no ar.

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