Capítulo 2: O Novo Aluno

O som abafado da bola de basquete quicando no chão ecoava pelo pátio do colégio. O sol estava alto, e a maioria dos alunos aproveitava o intervalo ao ar livre. Luca estava sentado na arquibancada, afastado da confusão, com o caderno de desenhos equilibrado no joelho. Para ele, o intervalo era o momento perfeito para observar a vida escolar de longe, em silêncio. Seus dedos traçavam rapidamente as linhas que formavam o esboço de uma cidade à noite, enquanto seus olhos, atentos, captavam cada detalhe ao seu redor.

No entanto, naquele dia, algo fora do comum aconteceu. Um burburinho maior do que o normal tomava conta do pátio. Todos os olhares estavam voltados para um grupo de veteranos do terceiro ano jogando basquete, mas não era o jogo em si que chamava atenção. No centro da agitação, um aluno novo, que Luca ainda não tinha visto, implicava com os veteranos.

O garoto era alto, com uma expressão desafiadora e ombros largos. Suas roupas pareciam desalinhadas, o que combinava com sua atitude desleixada e, ao mesmo tempo, agressiva. Ele se movia de um lado para o outro da quadra, tentando tirar a bola das mãos dos jogadores mais velhos. Suas provocações eram barulhentas e diretas.

Ei, veteranos, por que não me deixam jogar? – provocou ele, rindo de forma sarcástica. – Ou será que têm medo de perder para um novato?

Luca observava em silêncio, sem se importar muito no início. Esse tipo de conflito entre veteranos e novatos era comum. No entanto, algo nesse novo aluno parecia diferente. Ele não estava apenas implicando — ele estava claramente tentando causar problemas.

"Ele vai acabar arrumando confusão mais cedo ou mais tarde," pensou Luca, enquanto voltava sua atenção para o caderno, traçando as sombras da cidade fictícia que desenhava.

O novo aluno, cujo nome ele ainda não sabia, finalmente conseguiu pegar a bola das mãos de um dos veteranos. O grupo de terceiro ano parou, encarando o garoto com desdém.

Você quer mesmo jogar com a gente, novato? – perguntou um dos veteranos, um garoto alto com expressão de tédio, conhecido por ser um dos capitães do time de basquete da escola. – Então, por que não tenta vencer a gente numa partida de verdade?

A tensão no ar ficou palpável. Alguns dos alunos ao redor começaram a se aproximar, esperando para ver no que aquilo ia dar. O novo aluno sorriu de forma desafiadora e segurou a bola com força.

Vamos nessa – disse ele, olhando diretamente nos olhos do veterano. – Eu sou melhor do que vocês pensam.

Luca, que observava de sua posição na arquibancada, começou a rabiscar os traços do garoto novo em seu caderno, quase sem perceber. Ele tinha o hábito de desenhar as figuras que chamavam sua atenção, mesmo que indiretamente. Algo na postura do garoto, na maneira como ele desafiava o sistema natural da escola, lhe parecia interessante.

Os veteranos trocaram olhares rápidos entre si, e então a partida começou. O novo aluno era habilidoso com a bola, movia-se com agilidade e parecia determinado a provar seu ponto. Entretanto, os veteranos não eram inexperientes, e o jogo rapidamente se transformou em uma troca intensa de provocação e competitividade.

Os alunos ao redor assistiam com olhares ávidos. Alguns torciam pelos veteranos, outros estavam simplesmente curiosos para ver até onde o novato iria.

Luca, por sua vez, observava tudo com uma certa distância emocional. Ele nunca se envolvia em situações como aquela. Na maioria das vezes, preferia permanecer à margem, invisível, observando como um espectador silencioso. Assim como Viewer, ele preferia ver o mundo de fora, sem se deixar envolver.

A partida se arrastou por mais tempo do que o esperado. Apesar da provocação inicial, o novo aluno estava conseguindo manter o ritmo, forçando os veteranos a se esforçarem mais do que o normal. Mas a tensão logo começou a transbordar.

Em um momento decisivo, um dos veteranos tentou derrubar o novo aluno com um empurrão mal disfarçado de uma "jogada" de corpo. O garoto, desequilibrado, tropeçou e caiu de costas no chão da quadra, segurando-se pela borda da cesta.

O silêncio caiu sobre o pátio. Luca levantou o olhar do caderno, vendo a cena desenrolar-se com mais atenção. O garoto permaneceu deitado no chão por um segundo, o rosto escondido pela sombra da cesta de basquete. Então, lentamente, ele se levantou, batendo as mãos nos joelhos e ajustando as roupas. O sorriso desafiador voltou ao seu rosto.

É assim que vocês jogam? – perguntou ele, a voz carregada de sarcasmo. – Achei que fossem mais durões.

Os veteranos não responderam, mas seus olhares eram frios, como se esperassem outro tipo de provocação para avançar. Era claro para Luca que a situação estava prestes a se descontrolar.

"Esse cara vai acabar se metendo em problemas," pensou Luca, observando a dinâmica entre eles. "Se continuar assim, vai arranjar encrenca com todo mundo, até os que não se importam."

Mas, como sempre, Luca ficou apenas observando. Ele não era do tipo que interferia — sua vida estava nas sombras, assim como seu alter ego, Viewer. Além disso, ninguém esperava que ele fizesse algo. Para eles, ele era apenas mais um rosto no fundo da multidão, invisível, enquanto o caos se desenrolava à sua frente.

Ele observou a situação de longe, capturando o momento em seus desenhos, refletindo sobre como esse novo elemento, esse garoto problemático, mudaria o clima já caótico da escola. O mundo ao seu redor continuava a girar, e Luca, como sempre, observava tudo de seu ponto seguro, à distância.

A quadra de basquete, que antes estava tomada por risos e gritos de incentivo, agora parecia envolta em uma tensão densa. O novo aluno se levantou, batendo a poeira de suas roupas, enquanto os veteranos trocavam olhares silenciosos. O capitão do time, um garoto chamado Ryan, se aproximou lentamente, os punhos cerrados ao lado do corpo.

- Acha engraçado? Ryan perguntou, a voz baixa, quase um sussurro, mas carregada de fúria.

O novato ergueu uma sobrancelha, desdenhoso.

- É, um pouco. Vocês acham que são donos desse lugar, né? Só porque estão aqui há mais tempo não significa que são melhores que eu. E, de qualquer forma, até agora, parece que quem tá ganhando sou eu.

Ryan não respondeu. Os outros veteranos, que antes observavam de longe, começaram a se aproximar lentamente, formando um semicírculo em volta do garoto. Um silêncio pesado tomou conta da quadra. Os alunos que assistiam ao jogo perceberam a mudança no clima e começaram a se afastar, pressentindo que algo ruim estava prestes a acontecer.

Luca, sentado na arquibancada, parou de desenhar por um momento. Seus olhos estavam fixos na cena, o lápis suspenso no ar. Ele podia sentir a tensão crescente, e, embora preferisse manter-se alheio às confusões da escola, algo nessa situação o prendeu.

"Isso não vai acabar bem," pensou Luca, observando a postura tensa dos veteranos. Ele conhecia aquele tipo de situação. Vira muitas outras parecidas ao longo dos anos uma faísca de provocação que, em um piscar de olhos, poderia se transformar em uma explosão violenta.

Ryan deu mais um passo à frente, o rosto agora a poucos centímetros do do novato.

- Quer uma lição, novato? a voz de Ryan estava carregada de desprezo. - Você precisa aprender a respeitar os veteranos. E a gente vai te ensinar do jeito difícil.

O novo aluno, teimoso, riu, como se estivesse desafiando o inevitável. Ele se endireitou, seus olhos brilhando com a mesma atitude provocadora que tinha mostrado desde o início.

- O que foi? Vocês precisam de um grupinho pra se sentirem fortes? Que piada.

O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Ninguém ao redor ousava dizer nada. Luca observou enquanto os veteranos avançavam mais um passo, cercando o garoto de maneira ameaçadora. O novo aluno não recuou, mas Luca conseguia ver que ele estava começando a entender a gravidade da situação.

"Ele passou do ponto," pensou Luca, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. "Agora não tem mais volta."

Os veteranos se moveram ao mesmo tempo, como se tivessem ensaiado. O primeiro golpe foi um empurrão no peito do novato, que o fez cambalear para trás. Ele tentou se manter firme, mas antes que pudesse reagir, Ryan desferiu um soco direto no estômago, fazendo-o dobrar-se de dor.

O novo aluno caiu de joelhos, arfando, e os outros veteranos o cercaram. Ninguém interveio. A multidão de alunos que antes assistia ao jogo agora apenas observava em silêncio, como se estivessem paralisados pelo que viam. Luca, ainda na arquibancada, sentia o nó no estômago apertar. Era como assistir a uma queda lenta e inevitável, algo que ele sabia que poderia ter sido evitado, mas que agora seguia um curso irreversível.

"Deveria fazer algo?" pensou Luca, mas a resposta veio rápida em sua mente. "Não. Isso não é problema meu."

Os veteranos começaram a desferir chutes e socos no garoto caído. Cada impacto ecoava pelo pátio, misturado aos murmúrios da plateia. O novo aluno, que antes era cheio de confiança e arrogância, agora estava vulnerável, tentando proteger-se como podia, mas sem chances de escapar.

Luca observava tudo de longe, o lápis ainda suspenso no ar. Algo na cena o prendia, uma mistura de curiosidade e repulsa. Ele sabia que não era o único a sentir isso a tensão no pátio era palpável, como uma tempestade prestes a desabar. E então, no meio do caos, o olhar do novo aluno, ainda deitado no chão, cruzou-se com o de Luca.

Por um breve momento, parecia que o tempo parou. Os olhos do garoto, antes cheios de desafio, agora mostravam dor e desespero. Luca sentiu um aperto no peito, mas permaneceu imóvel. Ele sabia que ninguém esperava nada dele. Ele era apenas uma sombra, uma figura apagada nas arquibancadas, um espectador invisível. No entanto, aquela troca de olhares ficou gravada em sua mente.

O som de passos apressados rompeu o silêncio. Um professor, finalmente percebendo a situação, correu em direção à quadra, gritando para os veteranos pararem. Em um instante, os veteranos se dispersaram, afastando-se como se nada tivesse acontecido, suas expressões neutras e indiferentes.

O novo aluno ficou no chão por alguns segundos, antes de se levantar lentamente, o corpo claramente marcado pela surra que levara. Ele passou os olhos pela multidão, ainda com uma sombra de orgulho no rosto, mas os sinais de dor eram evidentes. Com um último olhar para os veteranos, ele se afastou, caminhando com dificuldade em direção à saída do pátio, sem dizer uma palavra.

Luca, parado no meio da arquibancada, observou o garoto desaparecer pelo corredor. Ele sabia que aquela não seria a última vez que veria o novo aluno, e que a tensão entre ele e os veteranos estava longe de acabar. Algo naquela situação parecia inacabado, como se houvesse mais por vir.

"Que Déjà vu" pensou Luca, fechando o caderno de desenhos. O som da campainha interrompeu seus pensamentos, sinalizando o fim do intervalo.

Enquanto Luca descia as escadas da arquibancada e seguia em direção à sala de aula, sentia o peso daquela troca de olhares ainda preso em sua mente. O novo aluno poderia ser um problema, mas, de alguma forma, ele parecia ter mais profundidade do que a primeira impressão deixava transparecer.

Ainda pensativo, Luca entrou na sala e sentou-se em sua mesa. O zumbido habitual das vozes dos colegas encheu o ambiente, mas ele não conseguia tirar o acontecimento do pátio da cabeça.

"Quem é esse garoto, afinal?" pensou Luca, enquanto rabiscava distraidamente no canto de uma folha de papel. Algo naquele olhar, naquela vulnerabilidade escondida sob a fachada de rebeldia, mexera com ele de uma forma que não conseguia entender.

Essa mancada do aluno novo não acabaria ali, com certeza os veteranos colariam os olhos nele agora que ele os provocou

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