Luca estava com a cabeça apoiada sobre os braços na mesa, tentando acalmar a mente. O ar da sala parecia mais pesado, e o silêncio, embora normalmente reconfortante, agora só fazia seus pensamentos se agitarem ainda mais. O embate com Felícia não saía de sua cabeça. A conversa, as responsabilidades, o peso de ser o secretário. Ele nunca pediu por nada disso, mas ali estava, no olho de um furacão que parecia só crescer.
"Tudo isso... está virando uma bola de neve." Ele pensava, exausto.
Sentiu o corpo se mover quase por instinto, como se estivesse em um torpor. Levantou-se da carteira e, sem pensar muito, saiu da sala. Os corredores estavam vazios, o eco dos seus passos era o único som que o acompanhava. Cada batida de seu sapato no piso parecia amplificar o turbilhão de pensamentos que ele mal conseguia controlar.
Ele caminhava distraído, absorto, até que algo o fez parar subitamente. Um vulto familiar estava à sua frente. Connor.
O garoto, com os mesmos olhos de sempre cheios de raiva contida e algo mais, uma indignação que Luca conhecia, mas não conseguia nomear, estava lá, bloqueando sua passagem. Luca sentiu o corpo congelar por um instante, lembranças atravessando sua mente como uma onda avassaladora.
– Finalmente... você. – A voz de Connor era baixa, quase um sussurro, mas carregada de ressentimento. – Achou que eu não tinha te visto aquele dia, não é? Lá no pátio.
Luca mal conseguiu respirar. As palavras de Connor o lançaram de volta àquela tarde no anexo fundamental, quando Connor, no 8º ano, foi cercado por um grupo de alunos e apanhou no chão. Luca estava ali, observando de longe, sem saber o que fazer. E então, simplesmente ignorou e seguiu seu caminho.
– Acha que pode simplesmente esquecer, Luca? Que ninguém se lembraria? Você podia ter feito algo. Podia ter parado aquilo, mas ficou ali, olhando. Não fez nada. Não fez nada! – A voz de Connor foi subindo, suas palavras pareciam chicotear Luca, que sentia a culpa e a impotência crescentes.
Luca engoliu em seco, incapaz de se defender. Sabia que Connor estava certo, mas... o que ele poderia ter feito? Naquele momento, não havia resposta. Agora, anos depois, as palavras de Connor soavam como facadas.
– E agora você tá aí, achando que pode ser secretário, que pode resolver problemas? Você não conseguiu nem me ajudar naquele dia! Como vai ajudar alguém agora? – O olhar de Connor era impiedoso, os olhos cheios de julgamento. – Tudo o que você faz é fugir, Luca. Acha que não vejo isso? Acha que os outros não veem?
Aquelas palavras, aquelas acusações, eram pesadas demais. Luca sentia o coração apertar no peito, a respiração acelerada. Ele queria responder, queria justificar de alguma forma, mas sabia que qualquer palavra sairia vazia. Connor estava certo. Luca sempre fugia, sempre optava por se afastar, e agora estava sendo confrontado por esse fato. E era doloroso.
– Eu... eu não pedi por isso... – sua voz saiu fraca, um murmúrio quase inaudível. – Eu nunca pedi para ser secretário. Eu não sei se posso fazer isso. Eu só... só estou tentando... sobreviver. – Ele quase cuspiu as últimas palavras, sentindo-se mais pequeno a cada segundo.
Connor se aproximou um pouco mais, a expressão carregada de frustração e desdém.
– Sobreviver? Você chama isso de sobreviver? – Ele riu, uma risada amarga, cheia de desprezo. – Você vive no mundo dos que observam e não fazem nada. Mas, um dia, Luca, você vai ter que decidir. Vai ter que escolher entre agir ou fugir. E, quando esse dia chegar, não vai ser só sobre você. Vai afetar muita gente.
O peso das palavras de Connor parecia dobrar Luca. Ele se sentia esmagado. Sua mente era um caos, tentando processar tudo, tentando encontrar uma saída. Ele queria correr dali, se esconder, evitar esse confronto. Mas, desta vez, estava preso. E o pior de tudo: Connor estava certo.
Então, algo estranho aconteceu.
Um som. Um ruído distante.
O sinal do colégio.
Luca piscou, confuso. O corredor desapareceu. Connor desapareceu. E, de repente, ele estava de volta à sala de aula, com a cabeça ainda sobre a mesa, suando, o coração batendo acelerado.
Ele se levantou bruscamente, os olhos arregalados e o corpo ainda trêmulo, tentando entender o que havia acontecido. Olhou ao redor, confuso, os colegas de sala já começando a se mover com o fim do intervalo.
" Era só um... sonho? "
As batidas do seu coração ainda ecoavam em seus ouvidos, mas tudo parecia tão real. Connor, suas acusações, a culpa... Era possível que seu subconsciente estivesse lhe pregando uma peça ou... havia algo mais profundo ali? Algo que ele precisava encarar, mesmo que fosse doloroso?
Luca ficou ali por um momento, tentando recuperar o fôlego. A sensação de alívio era pequena, quase inexistente. O peso do sonho continuava com ele, e, por mais que fosse apenas um reflexo de sua mente, sabia que não podia mais evitar as decisões que estavam por vir.
Luca, ainda abalado pela intensidade do sonho, ergueu-se da carteira. Seus pensamentos estavam embaralhados, misturando passado e presente, memória e fantasia. "Era só um sonho," ele repetia para si, mas a sensação de que havia mais por trás daquilo continuava a atormentá-lo.
Com o intervalo começando, Luca decidiu sair da sala. Precisava de ar, de movimento, de algo que o distraísse. O corredor estava lotado, alunos indo e vindo, mas ele se moveu quase por reflexo, sem prestar atenção em ninguém ao redor. Desceu as escadas em direção ao pátio, o lugar que parecia mais oferecer algum conforto naquele momento.
Ao chegar ao centro do pátio, seus olhos vagaram pela multidão de alunos. Ele procurava Joshua, Emett e, principalmente, Connor. Sabia que eles sempre estavam juntos, mas não conseguia encontrá-los. A inquietação crescia dentro dele, mas, depois de andar ao redor do pátio, finalmente os avistou.
Eles estavam debaixo daquela mesma árvore onde haviam estado outro dia. Connor, Joshua e Emett pareciam relaxados, como se o mundo não lhes impusesse nenhuma pressão. Era a mesma árvore onde Connor havia lançado uma indireta para Luca sobre a escolha entre seguir as regras ou proteger quem está ao seu lado. O momento veio à tona na mente de Luca, trazendo consigo uma leve sensação de desconforto
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"– E aí, Connor, por que você tá tão no mundo da lua?" Emett perguntou, rindo levemente, sem malícia.
"– Engraçado como certos compromissos pesam, né? Sempre tem aquele momento em que você se pergunta o que vale mais: seguir as regras... ou quem tá do seu lado."
Joshua e Emett não entenderam a indireta, mas Luca entendeu muito bem. Aquela foi uma provocação clara, quase uma ameaça velada sobre o furto na sala da direção e a possibilidade de Luca dedurá-lo ao conselho.
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Luca respirou fundo e caminhou até eles. Joshua, com seu jeito casual de sempre, percebeu o garoto se aproximando e o chamou para se juntar ao grupo.
– Ei, Luca! Vem cá, senta com a gente, mano!
Luca hesitou por um segundo, mas o cansaço mental o venceu. Ele não queria mais ficar sozinho com seus pensamentos. Quando chegou até eles, Emett, que normalmente começaria com alguma imitação engraçada ou uma piada, desta vez foi direto ao ponto, encarando Luca com uma expressão curiosa.
– Você tá com uma cara pesada, Luca. Tudo bem?
Luca abriu um leve sorriso, mas era forçado. Não tinha ânimo para explicar a confusão que estava em sua cabeça.
– É só cansaço.
Ele se sentou próximo a eles, mas seus olhos evitavam Connor, que parecia estar imerso em pensamentos, olhando para o horizonte de uma maneira que fazia Luca se sentir desconfortável. Agora, com a lembrança do passado nublando sua mente, estar perto de Connor trazia uma tensão estranha. Ele não sabia se o garoto se lembrava de algo daquela época. Ou se ele tinha qualquer ideia do que significava para Luca naquele momento.
Joshua e Emett começaram a falar sobre trivialidades, discutindo quais personagens do universo Toon eram os melhores. Luca mal prestava atenção na conversa, sua mente vagando entre o presente e as memórias de Connor no chão do pátio, gritando enquanto apanhava.
De repente, Connor quebrou o silêncio, virando-se para o grupo com uma expressão quase entediada.
– O que acham de sair essa noite?
Joshua e Emett pararam de conversar, claramente surpresos pela sugestão repentina.
– Sair? Pra onde?
Connor, ainda mantendo o olhar distante, esboçou um sorriso enigmático.
– Quero visitar um lugar. Surpresa. Só vai saber quem topar.
Joshua e Emett trocaram olhares, ambos dando de ombros, como se estivessem prontos para qualquer coisa.
– Beleza, eu topo.
– Também tô dentro. - Emett afirmava com ânimo junto a Joshua
Luca, no entanto, permaneceu quieto. Sua mente estava em outra parte. O que Connor estava tramando agora? E por que parecia tão específico que Luca estivesse lá também?
Connor olhou diretamente para ele, como se lesse seus pensamentos.
– E você, Luca? Tá afim de sair com a gente também?
A pergunta o pegou desprevenido. Luca hesitou, sem saber o que responder.
– Eu... não sei. Talvez eu... tenha coisa pra fazer mais tarde.
Joshua e Emett imediatamente começaram a insistir, como de costume, querendo que ele participasse da noite com eles.
– Ah, qual é, cara. Vai ser de boa! Vai ser divertido. - Dizia Joshua
– É, só uma noite. Desencana!
Luca sentiu a pressão aumentar. Ele estava prestes a dar uma desculpa final quando Connor interrompeu sua linha de pensamento com uma provocação que fez o estômago de Luca revirar.
– Eu queria te mostrar algo. Especialmente pra você, Luca.
Essas palavras pairaram no ar como uma ameaça silenciosa. Luca sentiu um frio subir pela espinha. Ele não conseguia entender se era uma simples sugestão ou algo mais. Aquelas palavras traziam consigo uma sensação de inevitabilidade, como se Connor soubesse muito mais do que deixava transparecer.
Luca mordeu o lábio, sua mente em um turbilhão. O que ele deveria fazer? Aceitar a saída e entrar de cabeça em algo que ele não tinha controle, ou se distanciar e tentar evitar mais confusão?
Seu rosto revelava a indecisão. Estava preso entre o que achava ser certo e o que temia que pudesse acontecer. Connor continuava a observá-lo, esperando uma resposta.
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Atualizado até capítulo 21
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