Luca estava em sua cama, o brilho suave da manhã entrando pela janela enquanto ele rolava a tela do Instagram. Entre várias curtidas e comentários sobre sua última obra, algo específico chamou sua atenção. Um comentário de @mikello:
| @mikello: “A gente sempre tenta escapar do passado,escondê-lo, mas ele sempre nos encontra, não há como escapar desse vício fardo, engraçado não acha?”
Luca franziu a testa por um instante. A mensagem parecia inocente à primeira vista, mas algo no tom o incomodava, como se houvesse uma insinuação oculta, uma compreensão mais profunda do que ele queria que as pessoas vissem. "Quem é esse cara?", pensou, não reconhecendo o perfil de imediato. Era comum seguidores comentarem algo mais reflexivo em suas obras, mas essa parecia estranhamente pessoal.
Por um momento, Luca ficou encarando o comentário, pensando em responder, talvez algo vago, mas decidiu que era melhor não alimentar aquilo. Com um suspiro, ele ignorou e bloqueou a tela do celular, jogando-o de lado. Tinha coisas mais importantes para se preocupar, ou assim ele se convencia.
Na escola, o clima de fofoca ainda pairava no ar. A história de Connor parecia não ter saído da boca dos alunos desde o incidente com os veteranos, mas Luca já estava treinado para se manter à parte. Ele escrevia distraidamente no caderno, esboçando algumas ideias para sua próxima arte, quando foi interrompido.
— Luca? — uma voz educada, mas firme, chamou à porta da sala.
Ele levantou a cabeça e viu um aluno parado ali, usando uma gravata azul, o que imediatamente o fez sentir um leve desconforto. A gravata azul era o distintivo de quem fazia parte do grêmio estudantil. Luca não gostava de se envolver com eles. Naquele microcosmo de hierarquia estudantil, o grêmio tinha um papel importante — mantinham a ordem e, mais importante, coordenavam a reputação dos alunos. Era um poder silencioso, mas notável.
— A secretária do grêmio, Felícia , está te chamando na biblioteca — o aluno disse, com um tom de voz que não parecia sugerir que aquilo era opcional.
Luca hesitou por um segundo. Ele nunca havia sido chamado por ninguém do grêmio antes, e não conseguia imaginar por que isso estava acontecendo agora. Olhou para o professor, que apenas acenou com a cabeça, permitindo que ele saísse da sala.
Ele pegou seu caderno e seguiu o aluno até a biblioteca. O espaço era silencioso, apenas alguns estudantes estudavam em mesas ao redor. Sentada à mesa mais afastada, com alguns papéis organizados à sua frente, estava Felícia . Ela era uma garota de postura impecável, cabelos negros presos em um coque e óculos que destacavam seu olhar sério e preciso. A gravata azul que usava parecia uma espécie de armadura. Quando ela viu Luca se aproximar, indicou a cadeira à sua frente com um movimento de cabeça.
— Luca, obrigado por vir — disse ela, sua voz calma, mas carregada de autoridade.
Luca sentou-se, ainda sem entender o motivo para estar ali.
— Eu vou direto ao ponto — continuou ela. — Recebemos uma solicitação da diretoria. Existe um aluno que tem chamado bastante atenção recentemente. Ele tem se envolvido em incidentes, e os pais dele pediram para que a escola tenha um olhar mais atento sobre ele.
Luca já sabia aonde isso estava indo, mas não gostou da direção. Suas suspeitas se confirmaram quando Felícia olhou diretamente para ele.
— Estamos falando de Connor, do primeiro ano. A diretoria sugeriu que um aluno responsável o acompanhasse, alguém que possa influenciar suas ações para o bem. E eu sugeri você.
— Eu? — Luca não conseguiu esconder o espanto. — Por que eu? Eu nem conheço o garoto.
— E é exatamente isso que te torna a pessoa ideal — Felícia respondeu, ajustando os óculos. — Você não está envolvido nos dramas da escola. Não tem uma reputação a zelar além do que já construiu com seu talento. E... — ela fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. — Sabemos que você prefere ficar fora dos holofotes. Essa é uma qualidade rara, e é o tipo de equilíbrio que Connor precisa.
Luca franziu o cenho, desconfortável com a ideia. A última coisa que queria era se envolver em mais drama, especialmente com alguém como Connor, que parecia atrair confusão por onde passava. Ainda assim, havia algo mais ali, e ele sabia que Felícia ainda não tinha revelado tudo.
— Você quer que eu... o observe? — Luca perguntou, ainda tentando entender a lógica por trás da escolha.
— Em certo sentido, sim. Mas é mais do que isso. — Ela se inclinou um pouco para a frente. — A reputação da escola está em jogo. E, francamente, a reputação do grêmio também. Se Connor continuar a causar problemas, isso vai se refletir mal em todos nós. Precisamos que ele se comporte, mas sabemos que uma abordagem direta, ou pior, punitiva, só vai piorar a situação.
Luca sentiu o peso da situação se desenrolar diante de si. Felícia , o grêmio, a escola... todos estavam preocupados com a aparência, a ordem mantida à base de status e influência. Ele não fazia parte disso, nunca quis fazer, e agora, de repente, estava sendo puxado para dentro.
— Olha, Felícia , eu entendo que vocês precisam de ajuda, mas... — Luca hesitou, buscando as palavras certas. — Eu não sou a pessoa certa para isso. Eu mal falo com os outros alunos, quanto mais com alguém como o Connor.
— É exatamente por isso que você é a escolha certa, Luca. — A voz de Felícia era suave, mas firme. — Você não vai tentar controlá-lo, mas pode influenciá-lo. Você não está tentando ganhar nada com isso, não está buscando poder ou status. E isso é o que o Connor precisa. Alguém que não tente transformá-lo em um projeto. Alguém que simplesmente... esteja lá. Ele precisa de alguém que o ajude a entender que não está sozinho, que existem outros caminhos além da raiva e da revolta.
Luca ficou em silêncio, processando as palavras de Felícia . Parte dele queria recusar imediatamente, se afastar de qualquer responsabilidade que o envolvesse com Connor e o grêmio. Mas havia algo na maneira como ela falava que o fez hesitar. Talvez fosse o fato de que ela, também, parecia estar lidando com pressões que ele mal podia imaginar. O grêmio não era só um grupo de adolescentes controlando a escola — havia uma tensão real, uma necessidade de manter a paz.
— Pense nisso, Luca — ela disse, após alguns momentos de silêncio. — Não estou pedindo uma resposta agora, mas a situação é delicada. Você tem uma oportunidade de fazer a diferença, e, sinceramente, acho que você pode ajudar a todos a evitar uma confusão muito maior.
Luca respirou fundo. Parte dele ainda queria fugir daquela responsabilidade, mas outra parte, aquela que o fazia observar tudo ao seu redor com atenção, começava a considerar a proposta. Talvez, só talvez, ele pudesse fazer algo bom. E quem sabe, evitar que as coisas saíssem ainda mais do controle.
— Ok — disse ele, finalmente. — Eu vou pensar nisso.
Felícia sorriu levemente, satisfeita.
— É tudo o que eu peço.
Felícia se levantou da cadeira, pegando alguns papéis que estavam sobre a mesa e os organizando com a eficiência de quem faz isso diariamente. Antes que Luca pudesse dizer mais alguma coisa, ela o surpreendeu com palavras que o fizeram sentir o peso da responsabilidade que lhe havia sido atribuída.
— Se eu confiei essa missão a você, Luca, é porque sei que você é capaz. — Sua voz era calma, mas havia uma determinação inegável em cada palavra. — Sei que não parece, mas eu conheço cada um dos alunos, principalmente os que eu mais observo. E você é um desses.
Luca ergueu os olhos, encontrando o olhar sério e atento de Felícia . Ela lhe lançou um sorriso suave, mas cheio de confiança, um gesto que fez com que o garoto sentisse como se tivesse sido visto de uma maneira que nunca antes fora percebido.
— Confio na sua capacidade.
Essas palavras ecoaram na cabeça de Luca enquanto ela se despedia e saía da biblioteca. A ideia de ser observado por alguém como Felícia , e pior ainda, de ser considerado "capaz" para algo tão complicado quanto ajudar Connor, mexia com ele de um jeito que não conseguia definir. Ele sabia que a situação exigia uma resposta, mas tudo parecia incerto demais. Como ele, alguém que mal falava com os colegas, poderia ser útil?
Durante o resto da aula, Luca mal conseguia prestar atenção. Seus pensamentos estavam presos àquela conversa, àquele pedido. "Aproximar-se de Connor e ajudá-lo?" Não fazia ideia de como poderia fazer isso. Connor parecia ser uma tempestade ambulante, e Luca, alguém que sempre optou pelo silêncio e a invisibilidade, sentia-se completamente deslocado naquele cenário.
O sino do recreio tocou, mas a cabeça de Luca ainda estava mergulhada em incertezas. Ele pegou seu lanche e foi até o pátio, onde se sentou em um dos bancos de madeira, isolado de toda a movimentação ao redor. O burburinho de conversas parecia distante enquanto ele observava os outros alunos se dispersando pelo pátio, cada um com seus grupos, risadas e conversas triviais.
Então, ele viu Connor.
O garoto estava conversando com dois colegas do primeiro ano, um loiro e um ruivo. Mesmo à distância, era fácil perceber a intensidade na linguagem corporal de Connor. Os gestos rápidos, o jeito que ele encarava os outros dois, como se estivesse tentando convencê-los de algo. Os outros garotos pareciam desconfortáveis, mas escutavam. Luca, por algum motivo, continuou observando. Ele não sabia exatamente o que Connor estava dizendo, mas a sensação de que o garoto estava sempre à beira de explodir era palpável.
"Como eu deveria lidar com isso?", Luca pensava, enquanto seus olhos seguiam os movimentos de Connor. A ideia de se aproximar dele, de ser o mediador entre um garoto problemático e um sistema escolar que só se preocupava com a própria reputação, parecia quase impossível. Luca sabia que Felícia estava certa em uma coisa: Connor precisava de ajuda. Mas ele? O garoto que preferia observar de longe, sem nunca se envolver?
O restante do dia passou em uma névoa de pensamentos confusos, e Luca mal notou quando o último sinal tocou, liberando os alunos para casa.
Assim que chegou em casa, Luca foi direto para o quarto, como fazia de costume. Largou a mochila em um canto, trocou de roupa e se sentou à mesa com seu tablet gráfico. Normalmente, esse era seu refúgio — a arte, as linhas que fluíam sem esforço, o mundo que ele conseguia controlar através de suas criações. Mas, naquela tarde, algo estava diferente.
Ele tentou rabiscar algo, uma ideia vaga de uma figura solitária no meio de uma tempestade, mas as linhas não faziam sentido. Por mais que tentasse, nada parecia certo. Frustrado, Luca largou a caneta digital sobre a mesa e passou as mãos pelo cabelo, respirando fundo.
— O que está acontecendo comigo? — murmurou para si mesmo.
Depois de alguns minutos, desistiu. Não adiantava tentar desenhar quando sua mente estava tão cheia de incertezas. Ele precisava de uma pausa. Com um suspiro, desceu as escadas até a sala.
Sua mãe estava sentada no sofá, assistindo a algum programa na televisão. Ela sempre gostava de ter algo ligado, mesmo que fosse apenas barulho de fundo. Quando Luca entrou na sala, ela lhe lançou um sorriso acolhedor.
— Oi, meu bem. Como foi a escola hoje? — perguntou ela, com sua voz sempre suave e compreensiva.
Luca se sentou ao lado dela, hesitante por um momento. Ficou em silêncio, olhando para a TV, mas sua mente estava longe.
— Mãe... — ele começou, a voz baixa. — Já te deram alguma responsabilidade que você não sabia se conseguiria lidar?
Ela olhou para ele por um momento, surpresa com a pergunta, mas seu rosto logo suavizou com uma compreensão quase imediata. Ela desligou o volume da TV e virou-se completamente para Luca.
— Muitas vezes, Luca — respondeu com um sorriso gentil. — A vida está cheia de momentos assim. A gente recebe algo grande, algo que parece maior do que nós, e no começo... bem, parece que não vamos conseguir. Parece assustador.
Luca permaneceu em silêncio, processando suas palavras. Ele sabia que sua mãe sempre tinha respostas sábias, mas ele precisava de algo mais do que conselhos vagos. Precisava entender como lidar com o que sentia.
— O que você fez? Quando isso aconteceu com você? — perguntou, sem tirar os olhos da TV.
Sua mãe suspirou, sua expressão ficando mais pensativa.
— A primeira vez que senti isso foi quando você nasceu, acredita? Eu me perguntava como eu, com todos os meus defeitos, ia cuidar de uma vida tão frágil. — Ela riu baixinho, balançando a cabeça. — Mas sabe o que eu aprendi? A gente nunca está totalmente pronto para as grandes responsabilidades. O segredo é não tentar controlar tudo. Basta dar um passo de cada vez, fazer o melhor possível e confiar que, no final, vai dar certo.
Luca ficou em silêncio, refletindo. A ideia de "um passo de cada vez" parecia simples, mas naquele momento, até o primeiro passo parecia complicado.
— E se eu fizer algo errado? — ele perguntou, quase num sussurro.
Sua mãe sorriu, com uma paciência infinita.
— Todos erram, Luca. O importante é estar disposto a aprender com esses erros e continuar tentando. Você tem uma boa cabeça e um grande coração. Eu sei que vai fazer a coisa certa.
Luca sentiu a tensão em seu corpo se dissolver, mesmo que apenas um pouco. Ele não tinha todas as respostas, e a situação com Connor ainda parecia complexa, mas talvez... talvez ele pudesse tentar.
Sem dizer mais nada, ele encostou a cabeça no ombro da mãe. Ela, como sempre, o acolheu em um gesto simples, mas cheio de conforto. Enquanto ele sentia o ritmo calmo da respiração dela, um sentimento de paz começou a se formar. Luca ainda tinha um caminho pela frente, mas agora, com o ombro de sua mãe como apoio, sentia-se um pouco mais preparado para enfrentá-lo.
- Mas, porque perguntou isso do nada Luca? - perguntou a mãe dele
A paz momentânea dele se quebrou em gelo rapidamente
- E-então mãe...- Buscou as palavras para explicar - aconteceu algo na escola....
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Atualizado até capítulo 21
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