Luca estava em seu quarto, as luzes baixas iluminando apenas o suficiente para que ele pudesse enxergar a tela de seu tablet gráfico. Seus dedos se moviam com precisão enquanto ele traçava linhas firmes, mas delicadas. Na tela, uma nova obra estava tomando forma: uma figura solitária, de costas para o observador, parada diante de uma vastidão nebulosa. A silhueta estava encurvada, quase como se estivesse sendo puxada para trás por memórias pesadas, mas ainda assim, seus pés permaneciam firmes no solo.
A névoa ao redor parecia representar o passado, uma coleção de formas indefinidas e sombras, sussurrando arrependimentos e erros. A figura central, embora de pé, transmitia uma sensação de fragilidade, como se estivesse à beira de ser engolida pelo próprio arrependimento.
"Essa deve ser a sensação," pensou Luca, parando por um momento para observar o progresso de seu desenho. "De carregar o peso do que já foi, sem saber como seguir em frente."
Ele suspirou profundamente. Havia algo melancólico em sua criação dessa vez, algo que tocava em uma parte de si que ele preferia manter trancada. Quando finalmente terminou a obra, Luca recostou-se na cadeira e ficou encarando a imagem por alguns minutos, perdido em pensamentos.
"Será que todos carregam algo assim?" refletiu. "Ou será que sou só eu?"
Era tarde. Ele sabia que deveria estar dormindo, mas aquela sensação persistente de inquietude o mantinha acordado. Mesmo assim, postou a arte em seu Instagram, "Viewer", com uma legenda cuidadosa:
"Às vezes, o peso do passado nos prende, mas o que importa é continuar em pé."
Logo, as notificações começaram a aparecer, mas Luca as ignorou por ora. Desligou o tablet e foi se deitar. O sono o alcançou lentamente, enquanto seus pensamentos vagavam pela figura solitária que havia criado.
No dia seguinte, Luca acordou com o som irritante do despertador. Ele se espreguiçou, pegou o celular e abriu o Instagram. As curtidas e os comentários se acumulavam, como de costume.
| @artsy_glow: “Esse realmente mexeu comigo. Obrigado por compartilhar!”
| @zezu._.vibes: “Viewer, você nunca decepciona. Essa obra é pesada,Transmite a nós a sensação de tormenta por causa de águas passadas. Surreal 🔥
| @eo.alexan_der.bnt: “Sad and Reflective 😔”
Luca não pôde evitar um pequeno sorriso antes de se levantar da cama. A arte que ele criava parecia sempre tocar as pessoas, mesmo que ele nunca soubesse exatamente por quê. Era reconfortante saber que, em algum lugar, alguém compreendia o que ele estava tentando dizer sem precisar de palavras.
Ele se arrumou rapidamente, colocou o material na mochila e desceu para tomar café da manhã. Não demorou muito até estar na escola novamente, caminhando pelos corredores lotados e, como sempre, praticamente invisível.
Quando chegou na sala de aula, as conversas já estavam rolando, todas sobre o que havia acontecido com o aluno novo no dia anterior. Luca ouviu fragmentos aqui e ali enquanto se sentava, mas não deu muita atenção.
"Connor. Então esse é o nome dele," pensou Luca, ao escutar um dos comentários de um colega. Connor, do primeiro ano, era a nova obsessão da escola — o garoto que ousou desafiar os veteranos e pagou o preço por isso.
As horas passaram lentamente enquanto Luca estava na sala de aula, cercado pelo burburinho constante sobre Connor. Murmúrios e fofocas flutuavam pelo ar como uma névoa sufocante.
"Fiquei sabendo que ele ameaçou o pessoal do terceiro ano," sussurrou uma garota sentada à sua frente.
"A Gaby me contou que ele já foi internado duas vezes. Imagina a cabeça desse garoto!" respondeu um colega, com uma risada nervosa.
Luca apenas ouvia, seus pensamentos vagando para longe das conversas. O drama ao redor de Connor estava se tornando uma história de colégio digna de um filme, mas para Luca, era apenas mais uma razão para permanecer invisível. Ele se perguntou o que o motivava a se meter em tal confusão. A ideia de desafiar os veteranos parecia tola, e ele não podia deixar de pensar que Connor estava apenas cavando sua própria cova.
Quando o relógio da sala começou a marcar os últimos minutos da aula, Luca já não conseguia mais suportar a pressão dos cochichos incessantes. O tédio e a dor de cabeça começaram a se acumular, e ele decidiu que precisava de um momento para si mesmo.
Professor, posso me ausentar um momento? – pediu Luca, levantando a mão.
O professor acenou, distraído com a correção de algumas provas, e Luca aproveitou a oportunidade. Ele saiu da sala e seguiu em direção ao banheiro, esperando que um pouco de silêncio o ajudasse a clarear a mente.
Ao entrar, Luca foi direto para uma das cabines. Não estava realmente com vontade de se aliviar; o que precisava era de um refúgio longe do barulho da sala de aula. Sentou-se na privada, tirou um caderninho de notas da mochila e começou a desenhar. As linhas começaram a fluir, uma forma mais abstrata e cheia de angústia, refletindo a confusão de seus sentimentos sobre a situação de Connor.
De repente, a porta do banheiro se abriu, e Luca ouviu passos firmes ecoando pelo azulejo frio. Ele não se importou em olhar, pois estava muito concentrado em seu desenho. Mas, então, reconheceu a voz que começou a murmurar, cheia de raiva.
"Eles vão pagar por isso. Aqueles idiotas do time de basquete... Não vão me deixar em paz, e eu não vou deixá-los em paz," dizia Connor, claramente irritado. "Ninguém me respeita, mas isso vai mudar."
Luca encolheu-se na cabine, sentindo-se um intruso em uma conversa que não deveria ouvir. Ele queria se levantar e sair, mas sua curiosidade o manteve ali, a caneta desenhando com mais intensidade, como se suas emoções pudessem ser capturadas em forma de arte.
Connor continuou a murmurar, e Luca percebeu que o garoto parecia completamente obcecado pela ideia de se vingar. Ele falava sobre planejar algo para o time de basquete, sobre como eles o haviam humilhado e como ele não deixaria aquilo barato.
"Eles não sabem com quem estão lidando. Eu vou fazer eles se arrependerem," resmungou Connor, sua voz se elevando um pouco, como se estivesse se convencendo de que o que estava pensando era o que deveria fazer.
Luca ficou paralisado, a sensação de desconforto crescendo em seu estômago. Ele sabia que aquele caminho poderia levar a consequências sérias, tanto para Connor quanto para os veteranos. O que ele deveria fazer? Era realmente seu lugar se meter naquela situação?
"Eu só quero ser invisível," pensou, enquanto os traços em seu caderno se tornavam mais frenéticos.
A tensão no ar era palpável, e a ideia de sair do banheiro parecia agora um movimento arriscado. No entanto, não poderia ignorar a crescente sensação de responsabilidade. Connor estava prestes a cruzar uma linha que poderia mudar tudo, e Luca, mesmo em sua invisibilidade, não conseguia se livrar da sensação de que deveria fazer algo.
- Pra falar a verdade, o conflito na escola não me é tão relevante,mas eles não sairão ilesos de toda a situação…
"O que ele quis dizer com isto? " - se perguntou Luca
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Atualizado até capítulo 21
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