Capítulo 8: Primeiro Degrau

A luz suave da biblioteca iluminava as mesas de estudo, o som distante de páginas sendo viradas preenchia o ambiente, criando um ritmo tranquilo e propício à concentração. Luca estava no fundo da sala, com seus fones de ouvido descansando sobre a mesa e seu caderno aberto, exibindo notas cuidadosamente escritas ao lado de pequenos desenhos que ele havia feito para descontrair. Cada página estava cheia de dicas sobre socialização, coisas que ele aprendera em vídeos e tutoriais pela manhã.

Com a playlist finalmente terminada, ele deu uma olhada em suas anotações e se inclinou um pouco mais sobre a mesa, passando os olhos pelas palavras e recitando algumas dicas em voz baixa.

— "Lembre-se de fazer contato visual... Não interrompa a pessoa enquanto ela fala..." — sussurrou Luca para si mesmo, repetindo frases que ele achava particularmente úteis. Ele queria absorver tudo, queria realmente internalizar aquelas lições, embora soubesse que colocar em prática seria o verdadeiro desafio.

Enquanto folheava o caderno, desenhando o contorno de uma pequena figura no canto de uma página, ele ouviu passos leves. A biblioteca não estava lotada, então qualquer movimento era perceptível, mas ele não deu muita importância. Continuou concentrado em sua revisão.

Depois de mais alguns minutos de sussurros e rabiscos, Luca foi interrompido por uma voz tranquila e educada.

— Oi, você é o Luca, certo?

Ele ergueu a cabeça, os olhos encontrando uma figura familiar. Uma das membras do Conselho Estudantil, uma garota de aparência amigável e expressão serena. Ela usava o distintivo dos Gravatas Azuis, que, mesmo de longe, sempre trazia uma certa formalidade. Mas seu tom era relaxado, nada ameaçador.

— Sou sim. — Luca respondeu, hesitante.

— Eu sou Helena — disse ela, com um sorriso que iluminava seus olhos castanhos. — Acho que estávamos na mesma reunião com o Connor, lembra?

Luca assentiu. Helena parecia ser o tipo de pessoa que fazia tudo parecer fácil. Seu jeito calmo colocava qualquer um à vontade, algo que Luca secretamente admirava. Ela se aproximou um pouco mais da mesa dele, com um livro na mão que parecia ter encontrado recentemente.

— O que você está fazendo? — ela perguntou, apontando com o queixo para o caderno aberto de Luca, mas sem ser intrusiva.

Ele olhou para o caderno com as anotações de socialização e, por um segundo, sentiu um leve calor subir ao rosto. Não era algo que ele se orgulhava de mostrar. Na verdade, era um reflexo de sua dificuldade em lidar com as interações humanas. No entanto, ele sabia que esconder aquilo não o ajudaria.

— Ah, eu estava... revendo umas dicas. Sabe... para melhorar como eu lido com as pessoas. — Ele tentou parecer casual, mas sua voz entregava um certo desconforto.

Helena observou as notas com curiosidade, mas sem julgá-lo.

— Isso é ótimo! Eu percebi você anotando algumas coisas durante a reunião... — Ela sorriu, genuinamente impressionada. — Acho muito legal você se esforçar desse jeito.

Luca desviou o olhar por um momento, um pouco envergonhado. Não estava acostumado com elogios, muito menos em algo que ele mesmo considerava uma fraqueza.

— É... ainda estou aprendendo — murmurou ele, tentando relaxar.

— Todos estamos — disse Helena com uma risadinha, cruzando os braços de maneira leve e amigável. — Às vezes, parece que é só com a prática que a gente realmente entende como se comunicar bem com as pessoas. A teoria ajuda, mas a vida real é um pouco mais complicada, né?

Luca sorriu de volta, percebendo que, de alguma forma, ela compreendia exatamente o que ele estava tentando fazer.

— E o Connor? Como ele está se saindo? — Helena perguntou, depois de uma breve pausa. Seu tom era casual, mas havia uma ponta de preocupação.

Luca hesitou por um segundo antes de responder. Ele não tinha falado muito com Connor desde o incidente, apenas observando de longe.

— Bem, eu... não sei ao certo. Ele não parece do tipo que desiste fácil, mas... ainda estou aprendendo a como lidar com ele também. — Sua voz saiu sincera, quase um reflexo de sua própria frustração.

Helena deu um sorriso compreensivo e assentiu.

— Connor tem uma personalidade forte. Mas, quem sabe, ele só precisa de alguém que o entenda. Acho que você vai conseguir ajudá-lo com o tempo. — Sua confiança em Luca era evidente, o que o fez sentir um leve constrangimento.

Ela deu uma olhada no caderno de Luca mais uma vez, antes de continuar.

— E sobre as suas dicas... Eu sei que você está se preparando, e é ótimo estudar, mas não se pressione tanto. Às vezes, as melhores interações acontecem quando a gente não está pensando demais em tudo.

Luca corou levemente.

— Você viu o que eu escrevi?

Helena riu suavemente, mas sem malícia.

— Só um pouquinho. E, para ser honesta, você parece estar no caminho certo. Eu aposto que logo, logo, você vai estar botando tudo em prática.

Ela piscou para ele de forma amigável, antes de pegar o livro que havia encontrado.

— Bom, foi ótimo te ver, Luca. Continue praticando, e não se preocupe, vai ficar mais fácil. — Com um último sorriso, ela se afastou, caminhando em direção ao balcão da biblioteca.

Luca ficou ali, ainda sentado, observando-a se afastar. Ele se sentia um pouco constrangido, mas ao mesmo tempo, havia algo reconfortante na forma como Helena lidou com tudo. Talvez ele realmente estivesse no caminho certo, mas ainda assim, ser pego revisando dicas de socialização o fez pensar no quanto ele dependia daquilo.

Por um momento, ele olhou para o caderno, depois para o relógio em seu celular. Faltavam apenas sete minutos para o intervalo. Fechou o caderno com cuidado, respirando fundo. Sabia que precisava continuar tentando, mesmo que sentisse que ainda tinha muito a aprender.

Ao se levantar e guardar suas coisas, ele ainda estava um pouco pensativo, refletindo sobre o que Helena havia dito. Talvez, no fim das contas, socializar fosse algo que ele pudesse melhorar aos poucos, um passo de cada vez. E, com isso em mente, ele se preparou para o intervalo que estava por vir.

O sino tocou, e Luca fechou a porta da biblioteca atrás de si, caminhando pelo pátio da escola. O dia estava quente, mas o vento fresco que soprava ajudava a amenizar o calor. Com o caderno em mãos, ele caminhava com os olhos fixos nas anotações, recitando mentalmente as dicas que revisava antes. Desviar de pessoas tornou-se quase automático, como se ele estivesse em uma coreografia que evitava colisões, apenas seguindo as silhuetas no seu campo de visão periférica.

Enquanto passava por grupos de alunos que conversavam, ele se sentiu um pouco alheio à movimentação. A ideia de socializar ainda lhe causava uma leve ansiedade, mas ele sabia que era necessário. E quando se preparava para desviar de três silhuetas à frente, uma voz familiar o fez parar no meio do passo.

— Luca! — chamou alguém com uma energia casual e um tanto travessa.

Luca congelou por um segundo, seus olhos ainda fixos no caderno. Reconheceu a voz imediatamente. Era Connor. Ele levantou a cabeça devagar e viu Connor parado à sua frente, com Joshua e Emett ao lado dele. Os três o observavam com expressões curiosas e um tanto divertidas.

— Oi — disse Luca, rápido e um pouco constrangido, fechando o caderno com certa pressa e tentando parecer o mais casual possível. Ele enfiou o caderno na mochila, evitando o olhar dos garotos por um breve momento.

Connor, com seu habitual sorriso desafiador, deu um passo à frente e disse, com o tom despreocupado que ele sempre tinha:

— Vejo que você anda bem estudioso, hein? Mas agora é intervalo, então acho que é hora de socializar.

Luca sorriu, tentando parecer mais relaxado do que realmente estava.

— É, eu... estou tentando.

Connor riu, cruzando os braços e olhando para seus dois amigos.

— Beleza, então deixa eu apresentar o Joshua e o Emett. Eu sei que você os viu na outra vez, mas agora é a hora de conhecer melhor. — Ele apontou para Joshua, que estava segurando um skate debaixo do braço e tinha uma postura relaxada. — Joshua é incrível no skate, você precisa ver o que ele consegue fazer. Ele pode te ensinar algumas manobras, se quiser.

Joshua levantou o queixo em saudação, com um sorriso amigável.

— E aí, cara? — Sua voz era calma, carregada com a típica gíria dos skatistas. — Se algum dia quiser dar umas voltas, só chamar. Sempre tenho um skate a mais pra emprestar.

Luca assentiu, tentando encontrar uma resposta rápida.

— Valeu, quem sabe um dia eu tento...

Connor então olhou para o outro garoto, Emett, que exibia um sorriso constante, como se estivesse sempre pronto para contar uma piada.

— E o Emett aqui... Bom, ele é praticamente um comediante de stand-up. O cara consegue imitar várias celebridades americanas. Tô falando sério, você vai rir até não aguentar mais.

Emett riu, puxando o colarinho da camiseta e soltando uma fala imitando algum ator famoso com perfeição.

— Ah, quer que eu te mostre? Opa, desculpa, tô ocupado sendo hilário! — Ele piscou para Luca, arrancando uma risada contida de Connor e Joshua.

Luca sorriu de volta, meio sem saber o que dizer. Interagir com um grupo tão relaxado e despreocupado era algo que ele ainda estava se acostumando. Mas ele sabia que precisava tentar. Era exatamente por isso que estava revisando seu caderno de dicas.

— Legal conhecer vocês melhor — disse Luca, a voz um pouco hesitante. — Eu, bem... tô tentando melhorar nas conversas, sabe.

Connor cruzou os braços, balançando a cabeça com um sorriso confiante.

— Relaxa, cara. Você só precisa praticar, e o Josh e o Emett são bons nisso. — Ele deu um tapinha no ombro de Luca, como se quisesse tranquilizá-lo.

Luca respirou fundo e decidiu tentar se soltar um pouco.

— Emett, como você consegue imitar tantas celebridades assim? Parece difícil.

Emett sorriu largo.

— Ah, é fácil quando você treina as vozes. Você só precisa estudar o jeito que eles falam, tipo os trejeitos, sabe? Depois de um tempo, fica automático. Quer uma imitação de quem?

Luca pensou por um momento. Ele não estava acostumado com esse tipo de humor, mas não queria parecer desinteressado.

— Hm, que tal o... Leonardo DiCaprio?

Emett riu. — DiCaprio? Ah, fácil! — Ele adotou uma expressão séria e começou a imitar um dos discursos do ator em um de seus filmes mais famosos. — “Eu sou o rei do mundo!”

Joshua soltou uma risada curta, balançando a cabeça.

— Sempre acerta. Emett, você realmente deveria ser comediante um dia.

A interação estava fluindo, e Luca, embora ainda se sentisse um pouco deslocado, tentava se manter no ritmo da conversa. De vez em quando, ele se pegava sem saber o que dizer ou como reagir, especialmente quando as piadas ou conversas se voltavam para algo mais pessoal, como hobbies e preferências. Era nesses momentos que ele sentia um leve desconforto, como se estivesse fora de seu ambiente.

— E você, Luca? — perguntou Joshua, casualmente. — O que você curte fazer? Tem algum hobby fora desenhar?

A pergunta pegou Luca de surpresa. Ele hesitou antes de responder, consciente de que sua vida pessoal nem sempre parecia tão interessante quanto a dos outros.

— Eu... bom, além de desenhar, gosto de assistir uns vídeos e aprender coisas novas... nada tão emocionante quanto andar de skate ou fazer imitações. — Ele riu, tentando aliviar a tensão.

Connor balançou a cabeça com um sorriso encorajador.

— Ah, relaxa, cada um tem o seu lance. Você vai achar o seu jeito de socializar, cara. Vai por mim.

Enquanto a conversa prosseguia, Luca se esforçava para participar mais, mesmo que às vezes suas respostas fossem curtas ou ele não soubesse exatamente o que dizer. Ele percebeu que, apesar de se sentir um pouco desconfortável em certos momentos, os garotos não estavam o julgando. Pelo contrário, eles estavam sendo pacientes, como se entendessem que Luca estava tentando.

A manhã passou rapidamente, e quando o sino tocou anunciando o fim do intervalo, Luca respirou fundo, sentindo que havia dado pequenos, mas importantes, passos. Mesmo com a ansiedade de não saber o que dizer, ele conseguira se manter envolvido.

Enquanto os três garotos se despediam, Joshua deu uma última batidinha no ombro de Luca.

— Ei, se quiser dar umas voltas de skate depois da aula, é só chamar. Vou estar por aqui.

Luca sorriu.

— Valeu, eu... vou pensar nisso.

Connor, com aquele brilho habitual nos olhos, piscou para Luca antes de seguir seu caminho.

— Tá indo bem, Luca. Só continua tentando.

Luca os observou se afastando, sentindo-se exausto mentalmente, mas também satisfeito. Ele havia saído de sua zona de conforto e interagido, algo que, há alguns meses, ele nem imaginaria fazer. Talvez estivesse no caminho certo, afinal.

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