O vento frio da noite cortava a pele exposta, e as respirações dos três rapazes formavam pequenas nuvens de vapor no ar. Connor, Emett e Joshua estavam parados em frente ao portão da casa de Emett, encolhidos em seus agasalhos. O céu estava claro, mas a temperatura tornava tudo mais quieto, exceto pela conversa baixa entre eles.
- Então, Connor, pra onde vamos mesmo? – perguntou Joshua, batendo os pés no chão para se aquecer, o tom impaciente. – Tá um frio do caramba e você ainda não disse nada.
- Relaxa, só o fato de vocês estarem aqui já significa muito – respondeu Connor, com um sorriso enigmático no rosto.
- Significa que estamos congelando – Emett completou, ajeitando o cachecol e olhando ao redor. – Sério, o que você tá tramando?
Connor olhou para os dois com aquele sorriso que indicava que sabia mais do que estava disposto a revelar.
- Vocês vão ver. Vai valer a pena.
Joshua bufou e olhou ao redor, balançando a cabeça, claramente sem paciência para os joguinhos de Connor.
- Você sempre faz isso, cara. Fica enrolando, se achando o mestre dos segredos. Tá de sacanagem, né? – Joshua falou com seu jeito despreocupado, mas curioso.
- Vai ser divertido, confiem em mim – disse Connor, cruzando os braços e olhando para cima da rua. As casas modernas alinhadas formavam uma espécie de corredor, e ele manteve o olhar fixo na inclinação da rua.
"Será que o Luca vem mesmo?" – pensou ele, com uma fagulha de esperança. Sabia que Luca estava hesitante, mas havia algo nele que dizia que o garoto não iria conseguir resistir. Mesmo assim, depois de alguns segundos observando e não vendo ninguém aparecer, Connor soltou um suspiro, sem demonstrar decepção para os amigos.
- Provavelmente ele arregou – murmurou Connor, virando-se para os outros dois. – Acho que o Luca não vem.
Emett deu de ombros.
- Vacilou, hein? – comentou com tranquilidade, ajustando o gorro que usava.
Joshua, mais expressivo, fez uma careta exagerada.
- Grande vacilo, maninho. Tá deixando de viver uma aventura por quê? Medo do escuro? – disse ele, imitando alguém assustado com um sorriso travesso.
Connor deu um risinho de lado.
- Cês sabem como ele é. Cagão. – Ele começou a andar em direção à descida da rua. – Vamos sem ele.
Os outros dois seguiram sem hesitar, ainda comentando sobre a ausência de Luca. Joshua, com as mãos nos bolsos, olhou para o lado.
- Eu tava achando que o Luca não ia aguentar a pressão, mas né... – ele disse, num tom que misturava zombaria e uma ponta de sinceridade.
- Verdade – Emett concordou. – Só que, bom, não dá pra forçar ninguém.
Connor assentiu, mas algo nele ainda esperava, embora tentasse esconder.
- A gente não pode fazer nada. Quem nasceu pra ser cagão vai ser cagão sempre. – Ele sorriu de canto, mas antes que pudesse continuar a andar, ouviu um som que fez seus ouvidos se aguçarem.
Passos rápidos ecoavam na rua. Connor parou, e os outros dois também, virando-se ao mesmo tempo. A rua inclinada que antes estava vazia agora exibia uma figura se movendo com pressa. O vulto aproximava-se, e logo puderam ver claramente: Luca, de calça branca e suéter preto, corria na direção deles, um pouco ofegante, mas decidido.
Joshua riu animado.
- Aí, olha só quem apareceu! – gritou ele, levantando as mãos em comemoração.
Emett sorriu, surpreso, mas satisfeito.
- Bom ver que você mudou de ideia, Luca. Achei que não vinha mais.
Luca parou perto do grupo, ainda tentando recuperar o fôlego. Sua respiração rápida e o rosto um pouco avermelhado pelo esforço deixavam claro que ele havia corrido para encontrá-los.
- Nem eu sei por que tô aqui... – disse Luca, ainda ofegante.
Connor olhou para ele de cima a baixo, o semblante firme, mas com um olhar sugestivo.
- Foi uma boa decisão. Você não ia querer perder isso.
Luca soltou uma risada nervosa.
- Ainda tô tentando entender o que tô fazendo aqui – admitiu, mais para si do que para os outros.
Emett, encostado no poste ao lado, cruzou os braços.
- Eu e Joshua também não sabemos muito bem. Só estamos aqui por... – ele olhou para Connor e sorriu de leve. – Lealdade à nossa amizade, eu acho. Connor pediu, e a gente veio. Talvez você também tenha vindo por isso.
Luca ficou em silêncio por alguns segundos, as palavras de Emett ecoando em sua mente. "Lealdade..." Ele olhou para Connor, que mantinha o olhar fixo nele, e depois para os outros dois. Talvez fosse isso, afinal.
- Talvez seja – disse ele, olhando para o chão.
Connor, vendo que as coisas estavam ficando mais sérias, deu um passo à frente, cortando o clima.
- Bom, agora que estamos todos aqui... é hora de ir. Todo tempo é precioso.
Joshua, como sempre, não perdeu a chance.
- Precioso só porque o Emett tem que estar em casa antes das 23:00, né? – brincou ele, dando um empurrão de leve em Emett.
Emett revirou os olhos e deu um leve sorriso, enquanto Connor ignorava o comentário e começava a descer a rua, liderando o grupo.
- Se liguem – disse Connor, a voz séria. – Não percam tempo.
Os quatro seguiram descendo a rua da casa de Emett, envoltos no silêncio da noite, com as palavras de lealdade e compromisso ainda pairando entre eles. Enquanto caminhavam, o som de suas conversas misturava-se com o farfalhar das folhas secas no asfalto, criando uma trilha sonora quase conspiratória para o que estava por vir.
O silêncio da cidade deserta ao redor parecia aumentar a cada passo que os garotos davam, até que a paisagem mudou drasticamente. Em frente a eles, uma pequena mata se estendia, as folhas das árvores estavam se deixando levar junto ao vento. Luca parou por um momento, olhando para o cenário à sua frente, e tomou a iniciativa de perguntar:
- O que a gente vai fazer aqui? – A voz dele ecoou um pouco na quietude da noite.
Joshua, como sempre, foi o primeiro a quebrar o clima sombrio com uma teoria inusitada.
- Isso aqui tá com a maior cara de acampamento surpresa! – Ele fez uma pausa dramática. – Vocês sabem, daquele estilo raiz, onde ninguém traz nada e a gente tem que matar os bichos e comer por aqui mesmo. – Ele sorriu, claramente animado com a ideia.
Emett, ao lado, soltou uma risada empolgada, batendo as mãos uma na outra como se estivesse pronto para agir.
- Isso seria épico! Cara, imagina a gente caçando e cozinhando como homens de verdade... sobrevivência total!
Luca fez uma careta de puro espanto, como se a ideia de comer um animal recém-abatido não fosse exatamente sua definição de "aventura".
- Vocês só podem estar brincando – disse ele, olhando de relance para Connor, que não se manifestava, apenas observando a interação com um sorriso malicioso no rosto.
Connor finalmente deu uma breve risada, sacudindo a cabeça.
- Isso é uma ótima ideia, na verdade. A gente pode tentar qualquer dia desses... mas hoje, não.
Com isso, ele deu o primeiro passo para dentro da mata, sem mais explicações. Os outros três garotos hesitaram por um momento, mas logo seguiram atrás de Connor, com Luca ainda um pouco relutante. Ele olhou para as árvores ao redor, os galhos altos bloqueando boa parte da luz da lua, tornando o ambiente mais escuro e misterioso.
- Cuidado com as farpas – brincou Emett, observando Connor passar o dedo pelas cascas das árvores enquanto caminhava.
- Farpas? – Joshua riu. – O que você tá fazendo, cara? Tentando arrancar pedaços da árvore?
Connor olhou de volta por cima do ombro, com um leve sorriso.
- Só estou seguindo o rastro. Vocês podem não perceber, mas há cortes sutis nas árvores. Eles guiam até onde precisamos ir.
Joshua estreitou os olhos, encarando as marcas.
- Rastro? Que tipo de lugar é esse?
Connor manteve o tom enigmático enquanto continuava a avançar.
- É um lugar importante. Uma oportunidade de compartilhar algo grande com vocês. O que vai acontecer aqui vai marcar nossa amizade. Positivamente... ou negativamente, depende de uma única resposta de vocês.
Os três garotos trocaram olhares, ainda sem entender completamente o que Connor queria dizer, mas as palavras dele deixaram o ar mais denso. Enquanto seguiam por entre as árvores, Joshua foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Cara, tô começando a achar que isso tá virando algum tipo de filme de terror. Fala sério, se um de vocês aparecer com uma máscara de palhaço, eu juro que saio correndo.
Emett riu.
- Ah, para com isso, Josh. Tá com medo? Eu, pessoalmente, tô curtindo esse clima misterioso.
Luca, por outro lado, continuava em silêncio, olhando ao redor.
"Por que eu tô aqui, mesmo?" Ele se perguntou, sentindo uma pontada de inquietação crescer em seu peito.
Connor, ouvindo o murmúrio deles, finalmente cortou a conversa.
- Chegamos.
Eles pararam, e o que estava diante deles era uma casa de madeira com um aspecto retrô. A construção parecia estar ali há décadas, desgastada, mas de pé. Sozinha, sem sinal de outros residentes ou civilização por perto.
- Isso aqui... é o que eu tô pensando? – Emett perguntou, com os olhos arregalados. – Uma casa abandonada e assombrada?
Joshua deu um passo para trás, cruzando os braços e sorrindo de canto.
- Grande coisa. Se for assombrada, eu tô fora.
Connor soltou uma gargalhada breve, como se a ideia fosse ridícula.
- Nem fudendo que isso é uma casa cheia de assombrações e esses fantasmas de filme de terror. Tá mais pra um cabaré deserto. Usado para covardias e vícios ilegais.
Luca franziu o cenho, claramente incomodado com a descrição.
- E o que a gente vai fazer aqui, então? – Ele perguntou, um pouco desconfiado. – Se o lugar é tão horrível assim...
Connor respirou fundo, ficando mais sério.
- Eu quero explicar algo pra vocês. Como eu disse, isso vai marcar nossa amizade. Precisava ser aqui.
Sem dar mais tempo para perguntas, Connor tomou a dianteira, indo em direção à casa. Os outros, apesar de um pouco relutantes, seguiram-no.
"Será que isso foi uma boa ideia?", Luca pensou enquanto caminhava em direção àquela casa que parecia guardar segredos sinistros.
Ao chegar à porta, Connor parou por um momento, respirou fundo e empurrou a entrada de madeira com força. O rangido da porta ecoou na mata, revelando o interior escuro. Os garotos ficaram parados por um segundo, hesitando.
- Vocês vão ficar aí fora? – Connor perguntou, de dentro, sua voz ecoando pela casa vazia.
Joshua foi o primeiro a decidir entrar, como se quisesse provar que não tinha medo. Emett o seguiu logo atrás, e Luca, por último, entrou devagar, ainda tentando entender por que estavam ali.
Assim que pisaram dentro da casa, o cheiro pesado de mofo e algo químico os atingiu.
- Que cheiro horrível – reclamou Emett, torcendo o nariz.
Joshua e Luca logo tamparam os narizes, tentando evitar respirar o odor desagradável. Garrafas de bebidas vazias e frascos de entorpecentes espalhavam-se pelo chão, como se ninguém se importasse com o estado do lugar.
Connor se aproximou de um dos cômodos e fez um gesto vago com a mão.
- A casa tem cinco cômodos. Pode não parecer, mas ela é maior do que vocês imaginam.
Joshua deu uma olhada rápida ao redor.
- Maior? Cara, parece que essa casa tá caindo aos pedaços – ele comentou, cutucando uma garrafa com o pé.
- E esse cheiro... – Luca começou a falar, a voz abafada por estar com o nariz tampado.
Connor fez um gesto indiferente.
- Esse é só um aperitivo. Lá embaixo o cheiro é pior. Bem pior.
Os garotos começaram a andar pelos cômodos da casa, explorando o espaço decadente. Emett se aproximou de uma janela quebrada.
- Esse lugar parece ter sido abandonado há séculos. Mas por algum motivo... parece que alguém ainda volta aqui de vez em quando.
- Quem diabos voltaria? – Luca perguntou, mais para si mesmo do que para os outros.
Joshua, por sua vez, abriu um armário e viu mais garrafas e embalagens antigas.
- Esses caras eram dedicados. Até deixaram o estoque de... sei lá o que é isso.
- Alguém com sérios problemas de vício, com certeza – murmurou Emett, ainda desconfiado do ambiente.
Quando terminaram de explorar os cômodos, Connor os guiou até a cozinha. Ele parou no meio do espaço, respirando fundo.
- Prontos pra ver o pior lugar da casa?
Os três ficaram tensos. Joshua, Emett e Luca não responderam, mas seus olhares ansiosos e inseguros diziam o bastante. Sem mais esperar, Connor chutou um grande tapete no chão, revelando uma porta de madeira oculta.
Os garotos olharam para aquilo com surpresa, sem acreditar que havia mais um lugar escondido.
Connor se abaixou e abriu a porta. O cheiro que subiu de lá foi imediatamente pior, e de onde estavam, eles já podiam ver a bagunça que os aguardava lá embaixo.
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Atualizado até capítulo 21
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