Capítulo 9: Logo de Manhã?

O silêncio da madrugada ainda envolvia o quarto de Luca quando ele abriu os olhos. A escuridão familiar do ambiente lhe trouxe uma sensação de calmaria, e por um breve momento, ele ficou deitado, apenas escutando sua própria respiração. Sentiu uma estranha serenidade por acordar antes do alarme, algo que raramente acontecia. Sem se levantar, tateou o criado-mudo ao lado da cama até encontrar o celular. A tela acendeu, iluminando o ambiente com uma luz fria.

— 05:46 — ele murmurou, observando os números que piscavam na tela.

Seu despertador estava programado para as 06:10, mas decidiu aproveitar o tempo extra. Ele se levantou devagar, ainda com os músculos rígidos pelo sono. Ligou o computador com um toque no botão lateral e o deixou inicializando enquanto pegava sua toalha, pendurada atrás da porta branca de madeira. Com passos lentos e cuidadosos, desceu as escadas em direção ao banheiro para tomar seu banho matinal.

...

Algum tempo depois, Luca retornou ao quarto, com a toalha enrolada em torno da cintura e outra sobre os cabelos ainda úmidos, secando-os com movimentos suaves. A luz do monitor piscava na penumbra do quarto. Ele se inclinou para olhar as horas.

— 06:01... perfeito.

Com pressa moderada, vestiu o uniforme escolar e sentou-se na beirada da cama, pegando o celular novamente. Abriu o Instagram, e a enxurrada de notificações o cumprimentou. Ele navegou rapidamente até a aba de seguidores e viu que havia ganhado mais 26 seguidores, somando agora 94 mil. Não era uma surpresa total, considerando o quanto suas ilustrações haviam ganhado popularidade recentemente, mas ainda assim, ele se sentiu satisfeito.

Descendo pelo feed de sua própria página, parou em uma de suas obras mais recentes. A tela iluminada exibia uma imagem impressionante: uma figura humanoide encurvada em meio a um campo desolado, como se estivesse prestes a desmoronar. A expressão da criatura era um misto de sofrimento e resignação, seus olhos apagados, como se tivessem testemunhado algo profundo e irreversível. O fundo da imagem era sombrio, com tons de cinza e vermelho, transmitindo uma sensação de desespero contido.

Luca passou por alguns comentários elogiando a obra, como de costume. "Incrível", "Como sempre, você manda bem demais!", "Amei essa vibe sombria". Mas um comentário em particular chamou sua atenção. Era de @mikello, um usuário que ele já havia notado em outras postagens, mas esse comentário tinha um tom diferente:

"Às vezes, parece que esse tipo de arte vem de algum lugar que não deveríamos acessar. Você não sente isso? Como se houvesse algo errado na escuridão que você tenta retratar?"

O comentário soava reflexivo e, ao mesmo tempo, um pouco desconfortável. Luca franziu a testa, estranhando a colocação. Era apenas arte, afinal de contas. Um reflexo de sentimentos, pensamentos, talvez algo subconsciente. Mas ainda assim, a mensagem o deixou com uma leve inquietação. Após um breve momento de ponderação, ele apenas deixou o comentário de lado, desligou a tela do celular e foi para a cozinha tomar seu café.

...

Chegando à escola, os corredores já começavam a encher de estudantes, mas Luca, como de costume, caminhava de maneira um pouco distante, sua mente ainda navegando pelas linhas do comentário de @mikello e pela sensação incômoda que ele deixara. No entanto, sua trajetória foi interrompida por uma figura familiar que surgiu em seu caminho.

— Bom dia, Luca! — a voz animada o fez parar.

Era a secretária do Conselho Estudantil, uma jovem de postura impecável e sorriso sereno, sempre atenta aos detalhes. Ela se aproximou com uma simpatia natural, e Luca a cumprimentou com um aceno educado.

— Bom dia — respondeu ele.

Ela sorriu e inclinou levemente a cabeça. — Estava te procurando. Como está indo com o Connor? Vocês já se conhecem melhor?

Luca hesitou por um momento, ponderando sua resposta.

— Bem, estamos nos conhecendo. Ele é... diferente. Estamos nos acostumando um com o outro, acho. Ainda não sei muito sobre ele, mas... estou tentando.

A secretária assentiu com um olhar compreensivo.

— Isso é bom. Faz parte do processo. Só continua sendo paciente. — Ela deu um passo mais próximo, abaixando a voz de maneira conspiratória. — O Conselho quer saber se você já tem alguma informação mais... específica sobre ele. Algo que devamos saber?

Luca piscou, surpreso com a pergunta.

— Ah... ainda não. Ele não fala muito sobre si. Quer dizer, a maior parte das conversas são mais... casuais.

— Entendo — disse a secretária, com uma expressão ponderada. — Bem, qualquer coisa, você nos avisa.

Ela fez uma pausa, mudando de assunto.

— A propósito, o Conselho está organizando uma reunião para a próxima terça-feira. Sua presença será indispensável. Algo importante será discutido, e precisamos que você esteja lá.

Luca franziu o cenho, intrigado.

— Tem algo a ver com o Connor?

— Não exatamente — respondeu ela, com uma voz mais séria. — É algo mais... delicado. Mas não se preocupe. — Ela tentou suavizar o peso de suas palavras com um sorriso tranquilizador. — Tudo vai ser explicado no momento certo.

Luca sentiu um leve nó se formar em seu estômago. Havia algo na maneira como ela falava que lhe causava uma preocupação crescente, mas ele não podia fazer muito além de esperar. A secretária deu um passo para trás e acenou para ele, sugerindo que fosse para a sala antes que a aula começasse.

— Não se atrase para a aula. Vai dar tudo certo — ela disse com um sorriso encorajador antes de seguir seu caminho.

Luca permaneceu por alguns segundos onde estava, assistindo-a desaparecer pelos corredores. A preocupação pairava em sua mente, mas ele sabia que não adiantava tentar adivinhar o que o Conselho poderia estar planejando. Respirou fundo e seguiu para sua sala, ainda com aquela sensação de que algo grande estava prestes a acontecer.

Luca entrou na sala de aula, ainda com o encontro com a secretária do Conselho Estudantil ecoando em sua mente. Ele caminhou até sua carteira, perdido em pensamentos, até que foi interrompido por uma voz familiar.

— Eae, bom dia, Luca. Tudo bem? — Era Brendon, o líder de classe, falando com uma expressão descontraída e um sorriso no rosto. Luca ficou surpreso, não esperava ser abordado dessa forma. Brendon nunca foi do tipo que falava com ele, ainda mais de forma tão amigável.

— Ah, oi... Bom dia. — Luca respondeu de forma um tanto automática, ainda confuso com a súbita mudança de atitude. Brendon, no entanto, continuava sorrindo e parecia genuinamente animado.

— Toma — disse Brendon, estendendo uma caixa de suco de uva para Luca.

Luca hesitou, não sabia bem como reagir. Ele até pensou em recusar educadamente, mas antes que pudesse dizer algo, Brendon insistiu com um gesto de incentivo.

— Fica tranquilo, aceita — disse ele. — Considera como um símbolo de... amizade, talvez?

Luca, sem ver outra saída e ainda sem entender muito a situação, pegou a caixinha de suco com um aceno de cabeça.

— Obrigado... — respondeu, sentindo-se estranhamente deslocado.

Brendon deu um último sorriso antes de se afastar. — Tenha uma boa aula, Luca — disse ele, indo em direção à sua própria carteira.

Luca ficou de pé por mais alguns segundos, olhando para a caixa de suco em sua mão. A cena toda era esquisita. Brendon nunca havia dado sinais de querer ser amigável, e agora, do nada, lhe oferecia uma caixa de suco? Ele soltou um "an?" mental, sem conseguir formular qualquer outra reação.

...

Quando o intervalo finalmente chegou, Luca estava caminhando pelo pátio, ainda com a cabeça cheia de pensamentos desconexos sobre os acontecimentos da manhã. De repente, sentiu um braço pousar de maneira inesperada atrás de sua nuca. O toque o assustou por um segundo, mas logo ouviu a voz familiar de Connor.

— Ei, Luca! — disse Connor de forma animada.

Ao lado de Connor estavam Joshua e Emett, ambos com sorrisos largos e uma energia contagiante. Os três pareciam estar incrivelmente animados, e Luca, mesmo um pouco surpreso com a abordagem repentina, os cumprimentou de volta.

Do outro lado do pátio, Thomáz e seus amigos observavam a cena. O grupo olhava para Luca e seus novos amigos com olhares de desdém. Thomáz murmurou algo para os outros, em um tom cheio de desagrado.

— Agora ele é o protegido do representante... até uma caixa de suco o Brendon deu pra ele hoje — comentou Thomáz, seu tom envenenado de sarcasmo.

Um de seus amigos riu, balançando a cabeça. — Ninguém dava bola pra ele até agora... E agora tá fazendo amizade até com o pessoal do conselho estudantil.

O grupo continuou a murmurar e cochichar sobre Luca, suas palavras carregadas de inveja disfarçada de desprezo.

Enquanto isso, do outro lado do pátio, Connor, Joshua e Emett estavam animados contando para Luca sobre o fim de semana que haviam passado juntos.

— Cara, foi incrível! Fizemos um acampamento fora da cidade, de sexta à noite até domingo — Connor dizia, gesticulando com entusiasmo.

— A trilha noturna foi sensacional! — Joshua adicionou, sua linguagem cheia de gírias de skatista. — A gente tava no meio da escuridão, e o Emett começou a imitar umas celebridades... quase me fez cair da trilha de tanto rir!

Emett riu alto. — Foi hilário, mano! Imagina a cara deles vendo eu imitar o Johnny Depp em plena floresta, enquanto o vento soprava.

Luca, apesar de estar ouvindo a história com interesse, se sentia um pouco desconfortável com a maneira como os três estavam tão animados. Ele não estava acostumado a esse tipo de interação, e por mais que estivesse tentando se abrir para novas experiências, ainda era algo fora de sua zona de conforto.

De repente, Joshua parou a conversa e olhou para Luca com um sorriso cheio de intenções.

— Ei, a gente tá planejando outro acampamento no próximo fim de semana. Quer ir com a gente?

Luca ficou hesitante, sua primeira reação foi recusar. — Ah, eu não sei... Acampamento não é muito minha vibe.

Mas os três começaram a tentar convencê-lo com todo tipo de argumentos.

— Vai ser super tranquilo — Joshua disse, com aquele jeito descontraído. — A gente faz uma trilha, depois senta em volta da fogueira, fala besteira, e curte a natureza. É bom pra espairecer!

— Eu posso até fazer umas imitações exclusivas pra você! — Emett brincou, com uma risada, tentando arrancar uma resposta positiva.

Mesmo assim, Luca ainda não estava totalmente convencido, sentindo o peso de se aventurar em algo tão fora de sua rotina. Até que Connor, com um tom mais sério e persuasivo, fez um comentário que pegou Luca de surpresa.

— Além do mais, cara... às vezes, se isolar ajuda a clarear a mente. Acho que seria bom pra você sair um pouco, respirar ar puro, sabe?

Ele pensou na ideia, ponderando se não seria realmente bom para ele. Afinal, ele vinha se sentindo preso em alguns de seus pensamentos, especialmente com o crescimento de sua popularidade nas redes e a pressão da escola, lembrando ainda dá pergunta que a secretária do conselho perguntou a ele sobre informações a respeito de Connor. Talvez, esse acampamento pudesse ser uma chance de se reconectar consigo mesmo, longe de tudo e todos.

— Bom... talvez eu vá — disse Luca, finalmente, ainda cauteloso. — Só preciso pensar um pouco.

Os três se animaram imediatamente, comemorando o fato de que ele ao menos considerava a possibilidade de ir.

— Isso aí, cara! Você não vai se arrepender — disse Connor, dando um leve tapa nas costas de Luca.

Luca sorriu de volta, um pouco tímido, mas genuinamente tocado pela animação deles. Mesmo que estivesse hesitante, o convite deles começava a parecer uma oportunidade para algo novo.

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