Capitulo 14: Sob o peso das palavras

O silêncio pairava na sala de reuniões, interrompido apenas pelo som distante de um relógio tic-tacando. Luca, sentado na extremidade da mesa, ainda não conseguia processar o que acabara de ouvir. O que ele sentia era quase uma explosão de sensações contraditórias. De um lado, o peso do choque. Do outro, o olhar firme de Felícia, que parecia carregar uma certeza tão forte que começava a mexer com seus próprios pensamentos. Ele piscou algumas vezes, buscando estabilidade no momento.

— C-como assim eu? — sua voz soou mais fraca do que esperava, como se estivesse se afogando na própria dúvida. — Secretário do conselho? Eu mal sei me comunicar direito…

Felícia o encarou com o olhar suave, mas decidido. Havia uma tranquilidade inabalável em sua postura, como se tudo o que estava acontecendo fosse parte de um plano cuidadosamente calculado.

— Luca, — começou ela, sua voz cortando o silêncio com a precisão de um bisturi — você tem qualidades que muitas vezes passam despercebidas aos olhos de quem procura apenas o óbvio. Sua capacidade de análise, seu comprometimento silencioso e sua postura são exatamente o que o conselho precisa. Não é sempre a voz mais alta que lidera, mas a mais cuidadosa.

Enquanto Felícia falava, Luca tentava absorver suas palavras, mas tudo parecia confuso. Ele sentia como se estivesse em um sonho, onde o peso das expectativas caía sobre ele como uma avalanche. Seu estômago parecia comprimido, e o calor do ambiente aumentava sua ansiedade. Ele queria, mais do que tudo, sair daquela sala.

Antes que ele pudesse formular uma resposta, Garett, a vice-presidente, limpou a garganta, e sua voz atravessou a sala como um vento gelado.

— Felícia, — começou ela, olhando para Luca com um misto de ceticismo e desdém — me desculpe, mas não posso concordar com você.

O tom da voz de Garett era firme, quase cortante. Ela cruzou os braços, inclinando-se ligeiramente para a frente, como se estivesse se preparando para desmontar cada argumento de Felícia.

— Estamos falando de um cargo importante, não de uma vaga qualquer. O secretário do conselho precisa ser alguém ativo, comunicativo, capaz de lidar com várias demandas e interagir com os demais alunos com facilidade. — Ela pausou por um momento, voltando seu olhar para Luca, que sentiu o peso daquela análise fria sobre ele. — E, sinceramente, não vejo essas qualidades no Luca. Ele é... silencioso demais, reservado demais.

A cada palavra de Garett, o ar ao redor de Luca parecia mais denso, mais opressivo. Suas mãos começaram a suar, e ele lutava para manter uma expressão controlada. No entanto, por dentro, ele sentia o chão desaparecer lentamente sob seus pés.

"Ela está certa", pensou. "Eu nunca fiz nada que justificasse isso. Quem eu sou para estar aqui?"

Felícia, por outro lado, não perdeu a compostura. Ela respirou profundamente, organizando seus pensamentos. Quando falou novamente, sua voz era tão firme quanto antes, mas carregava um toque mais assertivo.

— Garett, entendo seu ponto, mas acho que você está simplificando demais o conceito de liderança. Nem todo líder precisa ser extrovertido ou estar sempre em evidência. — Ela olhou para Luca, e por um breve momento, ele sentiu que estava sendo visto de verdade, não apenas como um aluno, mas como alguém com valor. — Luca pode não ser a pessoa que você esperaria ver em um papel como este, mas ele tem uma habilidade única de trabalhar em silêncio, de perceber as sutilezas que muitos ignoram.

Felícia se virou olhando para todos os membros do conselho, para Luca e depois de volta para a vice-presidente Garett.

— Além disso, Luca é meticuloso. Sua capacidade de manter o foco nos detalhes, sua disciplina nos estudos, sua organização — tudo isso são qualidades que fazem dele alguém ideal para o cargo. Ele não precisa ser o mais comunicativo para fazer um trabalho excepcional.

Luca sentiu uma leve corrente de esperança se formar em seu peito, mas ela foi rapidamente esmagada pela réplica afiada de Garett.

— Meticuloso, talvez — concedeu ela, sua voz cortante — mas isso não basta. Ele não demonstra iniciativa. O que precisamos, Felícia, é de alguém que seja proativo, que antecipe problemas antes que eles surjam, e que saiba como navegar em situações difíceis. Como Luca fará isso, se ele mal interage com os outros alunos? — Ela se voltou para Luca novamente, como se exigisse uma resposta direta dele. — Você, Luca, já se imaginou em uma situação onde precisa confrontar um problema diretamente? Ou onde tenha que tomar uma decisão em nome de todos?

A pergunta caiu sobre ele como um golpe. Luca tentou responder, mas a única coisa que conseguiu fazer foi engolir em seco. A pressão na sala parecia ter aumentado dez vezes. Ele sentiu o calor subir até o rosto e o coração acelerar como se quisesse pular do peito. Os olhos de todos os membros do conselho estavam nele agora. A expectativa e o julgamento se misturavam, criando um peso que ele nunca havia experimentado antes. A ideia de falhar em frente a todos parecia inevitável.

"Por que eu? Eu nunca pedi isso…" pensou Luca, tentando manter a calma. Mas sua mente estava a mil, buscando qualquer justificativa, qualquer forma de se livrar daquela responsabilidade.

Antes que ele pudesse falar, Felícia retomou a palavra, sem hesitar. Sua voz era ainda mais calma, mas agora com uma força subjacente que desarmava a crítica de Garett.

— Luca pode não ter tido ainda a chance de demonstrar todas essas qualidades, Garett, — ela começou, sua voz soando quase como uma defesa em um tribunal — mas isso não significa que ele não as tenha. Muitos líderes emergem apenas quando colocados à prova, e é isso que eu vejo nele. Ele ainda não teve a oportunidade de ser desafiado, mas tenho certeza de que, quando for, Luca mostrará o que é capaz.

Ela virou-se para Luca, com um olhar encorajador, como se soubesse exatamente o que ele estava passando naquele momento.

— E é por isso, Luca, que acredito que você pode se destacar aqui. Não estou te pedindo para ser perfeito, ou para se transformar em outra pessoa da noite para o dia. Estou pedindo para você confiar no que já é, e para desenvolver essas qualidades com o tempo. O conselho estudantil pode se beneficiar muito de alguém como você. Discreto, focado e comprometido.

Luca, ainda sem palavras, sentiu uma mistura de gratidão e medo crescendo dentro de si. Por um lado, era revigorante ouvir alguém como Felícia acreditar tanto em seu potencial. Por outro, a responsabilidade que vinha com essa confiança era esmagadora. Ele não sabia se estava pronto para carregar esse fardo, mas havia algo na forma como Felícia falava que o fazia sentir que talvez fosse possível. Talvez ele pudesse fazer isso.

Mas Garett, embora aparentemente sem mais argumentos, não parecia completamente convencida. Ela soltou um leve suspiro, descruzando os braços e inclinando-se para trás na cadeira.

— Espero que você esteja certa, Felícia, — disse ela, finalmente. — Porque esse é um risco, e um risco que não podemos bancar à toa. Luca, — ela olhou diretamente para ele, seu olhar severo — espero que você prove que merece essa oportunidade.

O silêncio tomou conta da sala novamente, mas desta vez, Luca sentiu que havia algo diferente. A pressão ainda estava lá, mas agora, havia também uma pequena chama de determinação queimando dentro dele. Uma parte de si, mesmo que pequena, começava a acreditar que talvez, apenas talvez, ele pudesse fazer isso.

"Talvez eu realmente possa ser o que Felícia vê em mim…"

Luca estava imóvel na cadeira, sentindo como se o ar ao redor tivesse se tornado denso e opressor. O som abafado das vozes na sala parecia distante, como se ele estivesse submerso em água, e cada palavra de Garett ecoava com um peso crescente. A surpresa ainda palpitava em seu peito, mas o embate que se seguia entre Felícia e a vice-presidente agora ocupava sua mente.

Felícia, no entanto, permanecia inabalável, seu olhar fixo em Garett, que por sua vez mantinha uma postura rígida, uma sobrancelha arqueada em sinal de ceticismo.

— Acho que todos concordamos que Luca, de fato, demonstra habilidades acadêmicas notáveis — começou Garett, sua voz controlada, mas carregada de dúvida. — Mas competência acadêmica não é sinônimo de liderança, Felícia. Muito menos de responsabilidade frente ao conselho.

Felícia inclinou-se levemente à frente, sua expressão tranquila, mas com um brilho de convicção nos olhos.

— Não estou aqui para sugerir que Luca seja um líder nato — respondeu Felícia, cada palavra cuidadosamente escolhida. — Mas quero destacar que ele tem demonstrado uma capacidade que muitos não possuem: ele sabe ouvir, refletir e agir com sensatez. Qualidades que, em minha opinião, são ainda mais importantes.

Garett balançou a cabeça, a impaciência começando a transparecer.

— Refletir? Agir com sensatez? — Garett lançou um olhar crítico para Luca, que apertou as mãos sob a mesa, tentando disfarçar o nervosismo que agora crescia em seu peito. — Felícia, estamos falando de um adolescente que sequer tem uma participação ativa no conselho estudantil. Como você pode confiar responsabilidades tão grandes a alguém que nunca sequer esteve à frente de um grupo?

Felícia inspirou fundo, mas manteve seu tom calmo.

— Concordo que Luca não tem experiência formal aqui no conselho, mas você está esquecendo de uma peça importante nesse quebra-cabeça. — Ela pausou por um momento, buscando o olhar de Luca, que ainda tentava processar a avalanche de informações. — Connor.

Ao ouvir o nome, Luca sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Não esperava que Felícia fosse mencionar Connor, mas, ao mesmo tempo, entendeu imediatamente aonde ela queria chegar.

— Connor? — Garett repetiu, com uma pitada de desprezo. — Você quer usar Connor como exemplo? O aluno que foi expulso do anexo fundamental por suas travessuras e má conduta? Felícia, isso só prova minha tese. Se Luca estivesse realmente capacitado, Connor não estaria causando problemas até hoje.

Felícia manteve-se firme.

— Você está certa ao mencionar o histórico de Connor, Garett. Ele sempre foi um aluno problemático, mas Luca, sem ser obrigado, se ofereceu para ajudar a lidar com ele. — Felícia fez uma pausa dramática, seu olhar firme e decidido. — Desde que Connor voltou à escola, Luca tem atuado como um mediador. Connor está se reintegrando ao colégio graças ao cuidado e à paciência de Luca. Você viu as brigas no anexo médio diminuírem, não viu?

Garett cruzou os braços, visivelmente incomodada.

— Brigas diminuírem? — retrucou ela, a voz mais dura agora. — Felícia, Connor voltou há menos de dois meses e já causou um confronto com o 3°Ano. no anexo fundamental ele quase quebrou a perna de um dos alunos! , e esses dias atrás rolou murmúrio sobre uma suposta briga de Connor com os mesmos alunos do 3°Ano, que foram o time de basquete. Isso é um bom exemplo do sucesso de Luca? — Ela se inclinou um pouco à frente, deixando sua rigidez transparecer. — Luca pode estar "ajudando", mas é inegável que ainda há muito a se questionar sobre sua capacidade de lidar com situações difíceis. Não podemos confiar um cargo tão importante nas mãos de alguém tão... verde.

Luca sentiu uma nova onda de pressão esmagar seus ombros. A menção ao incidente recente com Connor trouxe à tona a insegurança que ele tanto tentava controlar.

"Será que estou mesmo preparado para isso?" pensou, enquanto tentava manter uma expressão neutra. O peso das palavras de Garett, carregadas de desconfiança, tornava tudo ainda mais sufocante.

Felícia, no entanto, estava longe de ceder. Ela olhou para Luca por um momento, talvez tentando oferecer algum conforto silencioso, antes de voltar sua atenção à vice-presidente.

— Connor tem sido um desafio, não nego — disse Felícia, seu tom mais firme. — Mas, para sua informação, o incidente que você mencionou foi justamente o momento em que Luca interveio, e evitou que as coisas saíssem ainda mais do controle. A situação só não foi pior por causa dele.

Garett descruzou os braços, inclinando-se levemente para frente.

— E o que você sugere, Felícia? Que façamos vista grossa para o comportamento de Connor simplesmente porque Luca "evitou o pior"? Isso não me parece um argumento forte o suficiente.

Felícia abriu um pequeno sorriso, como se estivesse esperando por aquela resposta.

— Não sugiro que ignoremos os problemas — disse ela, sua voz agora mais assertiva. — O que estou dizendo, Garett, é que Luca demonstrou, mais uma vez, a capacidade de manter a calma sob pressão. Ele não só lidou com Connor, mas conseguiu impedir uma briga de escalar a níveis mais graves. Isso é liderança. E é algo que poucos no conselho, incluindo os veteranos, possuem.

A sala ficou em silêncio por um momento, o som do relógio ecoando fracamente ao fundo. Luca sentia seu coração acelerar, como se cada batida estivesse sincronizada com o tique-taque. Ele podia sentir o olhar de Garett perfurando-o, mas também a confiança inabalável de Felícia, que parecia segurá-lo por um fio invisível.

Garett permaneceu em silêncio por um tempo, seus olhos avaliando Felícia com mais cuidado.

— Felícia, você realmente está disposta a apostar tudo em Luca? — perguntou ela, sua voz agora mais controlada, mas ainda carregada de ceticismo. — Se ele falhar, você entende que será responsável por ele?

Felícia manteve sua postura firme.

— Estou. E sim, me responsabilizo integralmente. Luca tem o que é necessário para crescer nesse cargo. Ele já provou isso, mesmo sem ter a experiência que você mencionou. — Ela olhou novamente para Luca, antes de voltar a falar. — Se ele falhar, falha comigo. Mas eu acredito que ele vai se superar, assim como tem feito todos os dias.

Garett recostou-se na cadeira, pensativa, e por um momento Luca quase acreditou que a vice-presidente havia aceitado o argumento de Felícia. Mas então ela falou, em um tom mais suave, porém ainda incrédulo:

— Muito bem. Você assume a responsabilidade, Felícia. Mas ainda mantenho minhas reservas.

O silêncio voltou a tomar conta da sala. Luca, ainda sentindo o peso do debate, agora tinha um turbilhão de pensamentos correndo por sua mente. Sentia o suor em suas mãos e a pressão constante em seus ombros, mas também havia algo mais,uma centelha de determinação, algo que talvez estivesse crescendo dentro dele pela primeira vez.

A reunião não tinha acabado, mas ele sabia que algo tinha mudado.

Ele tinha sido testado. E, de alguma forma, passou no primeiro desafio.

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