Capítulo 19

Nicollas Arnault

Estou sentado em frente à Aurora no La Fontaine de Mars, um bistrô popular e movimentado, que se tornou meu atual favorito. Sinto seus olhos sobre mim enquanto mexo no celular esperando que nossa refeição seja servida.

“Nicollas?” Ela me interrompe gentilmente.

“Aurora?” Eu respondo, sem olhar pra cima. Estou sendo evasivo de propósito.

“A fusão?” Sei que a sua curiosidade deve estar atormentando-a durante todo o nosso trajeto até aqui.

Solto um suspiro, coloco o celular dentro do blazer e viro meu olhar em sua direção, com uma expressão ilegível. “O meu pai e o Hunter não são mais o que se pode chamar de melhores amigos,” murmuro baixinho, suspirando em resignação por não poder mais adiar essa explicação.

“Não são mais?” Ela repete friamente.

“Sim, Aurora, não são mais. Eles costumavam ser tão próximos quanto eu e o Daniel.” Me inclino pra trás, deslizando um pouco pra baixo na cadeira, movendo os pés pra prender os dela aos pés da mesa, conectando os nossos tornozelos ligeiramente.

Eu gosto de contato físico; sempre preciso ter algum tipo de contato. Hoje, a Aurora não se incomoda mais, mas foi uma batalha até que ela se acostumasse aos meus costumes.

“O que aconteceu?” Ela me observa com atenção; eu sou bom em não deixar nada transparecer, como uma cara de blefe.

“Meu pai teve um caso com a Hanna Hunter.” Mãe do Daniel e esposa do Erick. “Não é um fato muito conhecido.” Suspiro e mexo no copo de água como um ponto de foco.

Odeio falar sobre isso. Esse assunto me deixa inquieto e desconfortável. Fico observando os itens e fico movendo-os pra me distrair.

“Quando?” Ela vai adentrando ainda mais a fundo.

“Eu tinha vinte e poucos anos. Minha mãe o perdoou, mas eu não, não por muito tempo.” Faço uma pausa. “Não tenho certeza se o perdoei até hoje. Ele partiu o coração dela.”

Meu relacionamento com a minha mãe é único. Esse acontecido pode ser o meu gatilho pra carregar tanta raiva do meu pai e porque sou um pouco apreensivo sobre relacionamentos verdadeiros.

“É por isso que você insistiu nessa fusão? Pra se vingar dele?” Aurora cutuca meu tornozelo suavemente com o dela, pra que eu possa encontrar seu olhar.

“Sim... Não... Vai ser bom pra empresa, mas acho que esse sempre foi um fator.” Dou de ombros e evito seu olhar, dando na cara que o dinheiro não foi o principal motivo.

“Como você descobriu?” Ela tenta desviar o olhar do meu corpo, mas eu a pego em flagrante.

“O Erick Hunter encontrou eles juntos na cama, na sua própria casa.” Mantenho meu foco ainda no copo de água, girando-o distraído e incomodado.

“É por isso que fica um clima estranho sempre que o seu pai está por perto?” Aurora fica observando cada movimento meu.

“Acho que nunca vou conseguir perdoa-lo por machucar minha mãe daquele jeito. Ela merece coisa melhor.” Eu sou muito devoto da minha mãe. A visito com frequência e sempre peço à Aurora pra mandar flores todos os meses pra ela.

“Mas ela ficou com ele? Ela poderia ter largado ele se quisesse.” Aurora comenta.

“Tenta largar um bilionário famoso quando ele é pego com o dedo na torta de outra pessoa, bambina. Ela sabia que ele causaria problemas se ela tentasse. Essa é uma das razões dos meus sentimentos por ele. Ele é maníaco por controle e tudo o que importa é a sua reputação.” Não tem como falar sobre meu pai e não sentir raiva dele. Não sou de perder a calma tão facilmente, ainda mais em locais públicos, mas não consigo me conter.

Me remexo na cadeira e respiro fundo, tentando voltar ao controle. Meus olhos permanecem nebulosos, mas a consciência do ambiente ao nosso redor faz com que eles voltem ao normal rapidamente.

“Ele obrigou ela a ficar?” Ela pergunta, surpresa.

“De certa forma, acho que sim.” Olho pro restaurante como se tentasse encontrar a calma interior no mar de rostos desconhecidos ao nosso redor.

“E agora?”

“Ela está com cinquenta e poucos anos e se conformou com o fato de que nunca vai encontrar outra pessoa, e acho que ela ainda tem sentimentos por ele. Ela está presa num casamento sem amor.” Olho pra Aurora, e lanço um pequeno e sarcástico sorriso.

“Um casamento sem amor?” Ela lança um olhar triste.

“Faz muito tempo que ele não a ama, Aurora. Acho que antes mesmo de ter esse caso. O meu pai se casou com ela depois de um mês de relacionamento.” Finalmente paro de olhar em volta de forma evasiva e fixo meus olhos no rosto da mulher à minha frente.

“Você acha que Hanna foi a única?” Ela pergunta.

“Provavelmente, não, mas foi a única que fiquei sabendo.”

“Isso explica por que você está sempre de cara fechada pra ele. Seus pais parecem bem quando encontro eles em eventos.”

Ela não está mentindo. Uma linda mulher e o seu adorável marido, eles ficam muito bem juntos pessoalmente. É triste saber que a realidade seja tão diferente.

“Um truque cuidadosamente executado, Aurora. O meu pai só se preocupa com as aparências; a minha mãe conhece o seu lugar e sabe como desempenhar o seu papel.”

“E o seu comportamento quando era mais novo? Se rebelar foi um ato de vingança?” Essa mulher é curiosa e não está deixando passar nada.

Dou de ombros e tomo meu vinho, imerso em pensamentos. “Mais ou menos... tive outros motivos também.” Olho pra qualquer lugar, menos pra Aurora, não querendo que ela descubra o que se passa na minha mente.

“Como?” Ela cutuca de novo, com um sorriso gentil nos lábios, não se dando por vencida. Em resposta, dou um sorriso malicioso, tentando me livrar da pergunta.

Agradeço mentalmente quando nossos pratos chegam e ficamos sentados em silêncio enquanto a garçonete coloca os pratos na mesa. Dou a ela um sorriso em agradecimento e vejo que ela ficou ruborizada.

Quando encontro o olhar de Aurora, ela está com a testa franzida pra mim, numa bronca silenciosa. “Ela pode não conseguir terminar o turno dela agora”, ela me repreende depois que a mulher se afasta.

“Está com ciúmes?” pisco pra ela, mas ela me encara com frieza.

“A sua libido sem fim sempre me impressiona”, ela retruca com sarcasmo.

“Pelo menos eu tenho uma vida sexual.” Como uma garfada de comida e levanto uma sobrancelha provocadora pra ela.

“O que você quer dizer?” Ela pega seu garfo e limpa no guardanapo antes de comer sua salada, ainda me observando com uma expressão séria.

“Quero dizer que passei muitas horas com você e ainda não vi nenhum sinal de um namorado ou amigo colorido pra te fazer feliz.” Levanto as sobrancelhas e como outra garfada.

Ela engole em seco. “Tenho coisas mais importantes pra fazer e não tenho vontade de namorar ou de ter um amigo colorido.” Ela faz uma careta com esse termo, franzindo as sobrancelhas pra mim, completamente incomodada com o rumo da nossa conversa.

“Pode te ajudar a colocar um sorriso no rosto.” Sorrio de forma irônica. Ela levanta o queixo em minha direção e dá o maior sorriso forçado que consegue.

“Aqui. Viu. Não preciso de homem nenhum pra isso”, ela prova seu ponto enquanto rio e balanço a cabeça pra ela, me divertindo.

“Como você pode nunca sair com ninguém?”, pergunto. “Quero dizer, você não é feia. Pode conseguir alguém fácil. Já vi a maneira como os homens olham pra você. Você está esperando que eu me aposente da vida de playboy e queira me estabilizar com alguém?” Eu rio.

“Já tenho que lidar com testosterona mais do que o suficiente com você grudado em mim todos os dias, Arnault. E não, não imagino que um dia você vai se aposentar dessa vida e ser feliz com uma só mulher.”

Ela tenta manter o foco em sua comida enquanto suas bochechas vão adquirindo um tom rosado. É perceptível que ela não se sente confortável com esse meu interesse pelo fato de que ela não tenha um namorado.

“Aurora?” Olho pra ela incisivamente, com um pouco de seriedade aparecendo, “As mulheres também têm necessidades.”

“Você deve saber, é claro, sendo um cara completamente sexual.” Ela ri de mim, levantando uma sobrancelha pra mim.

“Já fui pra cama com mulheres o suficiente pra saber que não só os homens que tem desejo por sexo. Não tem como você me convencer de que não tem desejos.” Estou um pouco focado demais nela, interessado nesse assunto.

“Nicollas, podemos conversar sobre outra coisa? Acho que não quero falar sobre sexo com o meu chefe durante o almoço.”

“Quer que eu arranje alguém pra você? Você é tímida com homens? Ou talvez eu possa te mostrar como é um homem de verdade.” Pisco pra ela e ela revira os olhos, reprimindo uma risada pra essa piada.

“Como se eu fosse confiar na sua escolha de um homem... ou em você! Caras tipo Daniel Hunter não fazem o meu tipo.” Ela sorri graciosamente.

“Então qual é o seu tipo de homem?” pergunto curioso, me concentrando nela em vez da minha comida. Ela me lança um olhar sombrio, indicando que o assunto encerrou.

“Tudo bem, tudo bem. Quando você vai visitar a sua mãe?” pergunto, tentando um novo assunto, mas ela larga o garfo enquanto o mau humor toma conta de seu semblante.

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