Aurora Cartier
O carro chega bem cedo na manhã seguinte, um Cadillac Escalade preto, que é uma escolha típica dos Arnault, e o motorista está vestido com um terno preto parecido com o do segurança que estava no escritório de Nicollas.
A cena me faz revirar os olhos; aquele cara gosta de tudo na cor preta. Descobri depois que o segurança daquele dia era o guarda-costas do Hector Arnault; parece que o Nicollas não exige esse tipo de coisa.
Estou vestida com uma calça social bege e uma blusa de seda rosa escuro, presentes antecipados de aniversario que a minha mãe me mandou; a data é na próxima semana, mas ela enviou antes pra garantir que eu receberia a tempo.
Não comemoro o meu aniversário e a Jolie sabe que nem deve falar sobre ele quando a data se aproxima, então fiquei surpresa com os presentes da minha mãe, porque ela geralmente não manda nada. Por alguma razão, ela mandou esse ano, e eu me sentiria culpada se não usasse.
Não são tão elegantes nem feitas sob medida como as roupas que costumo usar, mas são aceitáveis, e me sinto obrigada a usar pelo menos uma vez, porque sei como devem ter sido caras.
Odeio que ela sentiu a necessidade de comprar coisas assim pra mim. Deve ser algum tipo de remorso materno, sem dúvida. É o estilo dela, não o meu, mas ela tentou. A minha mãe é uma eterna hippie; a futilidade romântica é o seu forte e parte do seu interesse por homens.
Mesmo com quarenta e poucos anos, ela ainda é atraente, e os homens a consideram uma mulher desejável, mas prefiro não pensar no tipo de homem que atrai a minha mãe. Bloqueio essa memória e tento reprimir a repulsa que sinto no meu estômago.
O carro me deixa no já familiar prédio comercial. A manhã está cinzenta e úmida, com um vento frio e cortante. A mudança de estação está chegando em Paris. Passo pelas verificações necessárias da segurança antes de chegar no sexagésimo quinto andar. O prédio está estranhamente silencioso devido ao horário.
Tremendo de frio, fecho ainda mais o meu casaco de lá pra tentar me aquecer, embora o prédio tenha controle de temperatura de ultima geração. A Margot me cumprimenta na porta do escritório junto com uma mulher vestida com roupas de aparência cara, ela é alta e elegante com um ar de sensualidade.
A Margot a apresenta como Dona Inês, a consultora de moda, e me informa que vai tirar as minhas medidas. O Sr. Arnault insiste que os seus funcionários mais próximos tenham esse benefício, já que ele frequentemente é visto nos tapetes vermelhos e no centro do interesse da mídia. Ele espera que qualquer pessoa que o acompanhe nessas situações esteja vestida de acordo, sempre.
O pai dele se aproveitou desde cedo do charme natural do filho, usando-o como rosto da sua linha de produtos de higiene pessoal e loções pós-barba de luxo, o que resultou num interesse interminável da mídia.
Ele é basicamente um supermodelo da sua própria empresa. Até hoje ele é o garoto nos pôsteres ne Paris, que não consegue se mexer sem que apareça um flash de câmera ou uma admiradora fanática do nada.
Fico em pé num banquinho, me sentindo extremamente desconfortável com a forma invasiva com que ela passa uma fita métrica ao redor do meu corpo e me pergunta sobre as roupas que visto, cores que gosto e coisas assim.
Ela pega o celular e tira algumas fotos de mim de todos os ângulos possíveis. Insatisfeita com as imagens, ela insiste pra que eu solte o meu cabelo. Controle a minha impaciência e irritação e faço o que ela pediu. Não vou conseguir prender ele de forma elegante de novo sem muito esforço.
Vai ser mais um dia tendo que aguentar ele na minha cara e todo mundo comentando sobre isso. maravilha!
“É pro meu arquivo, querida, pra me lembrar das suas belas cores e estrutura óssea e de como você fica com os cabelos soltos.” Ela sorri pra mim, com os olhos alegres como os de uma criança no Natal. Não entendo a necessidade disso.
“Adoro o seu cabelo solto”, a Margot interrompe com um tom suave, sorrindo pra mim. “Faz muita diferença, Aurora, de verdade. Suaviza todo o seu rosto.”
Ela me olha com uma expressão carinhosa e atenta, acrescentando outra camada de desconforto ao meu humor.
“Você não acha inadequado para o trabalho?” Pergunto, me sentindo ressentida. Quero que as duas se afastem e parem de me observar; estou ficando nervosa.
"Em nenhum lugar do Código de Vestimenta do escritório diz que o cabelo deve ficar preso como se fossemos professoras de escolas militares”, Margot responde. “Trabalhamos num negócio de luxo que exige uma certa atenção à imagem”, ela continua.
As duas riem de forma espantosa, acabando com toda a imagem de profissionais maduras. O calor nas minhas bochechas aumenta com a irritação por causa das risadas delas e de todo o alvoroço sobre o meu cabelo.
“Aurora, queria, você sabe o quanto essas ondas são lindas? A cor do seu cabeço é maravilhosa, como folhas no outono”, Dona Inês cantarola com entusiasmo demais.
Eu a encaro com indiferença, tentando não lembrar das folhas molhadas, mofadas e com manchas pretas e marrom nas calçadas de Paris no ultimo outona, além de ignorar o quanto me sinto desconfortável em parecer mais suave.
“Ela está certa, Aurora. Acho que você fica muito mais natural e bonita assim. O Nicollas deve ter pensado o mesmo ontem” Margot diz com um brilho nos olhos e um sorriso quase travesso.
“Ele pensou?” Franzo a testa com um leve sarcasmo, encontrando os olhares divertidos delas enquanto ignoro a sensação de calor do fundo do meu estômago.
“Ah, adoro seu humor! Você é adorável”, Inês diz e eu suspiro, percebendo que não vale a pena discutir.
A Dona Inês está sorrindo pra mim como se fosse uma mãe coruja e noto as rugas ao redor dos seus olhos, revelando a sua idade. A Margot a encoraja. Ela está me bajulando.
“Aurora, eu só quis dizer que você parece um pouco severa e rígida quando seu cabelo está pra trás. Sei que é irônico, considerando como uso o meu cabelo, mas você é jovem e bonita. Você tem uma beleza natural que não deveria ser escondida. E isso não te faz parecer menos capaz.”
“Pareço uma criança assim”, eu digo. O meu humor está péssimo, porque sei muito bem como o cabelo solto me faz parecer uma criança.
“Bem, se você fizer isso, vai parecer mesmo!” A Margot tira uma mecha de cabelo dos meus dedos e percebo que eu estava puxando-a na frente das duas mulheres autoritárias.
Eu fico irritada e um pouco envergonhada por ter sido presa em flagrante. Merda de ansiedade. Elas estão fazendo com que eu me sinta pressionada, me colocando em destaque e me bajulando, me deixando fora de mim. Deixar o meu cabelo solto é como ficar nua.
“Isso mesmo, Margot! É só não fazer isso de enrolar o cabeço nos dedos nem beicinho com os lábios”, Dona Inês concorda, balançando a cabeça e me analisando com um dedo no queixo. “Você é uma mulher com alma de menina; é surpreendente”.
Nas profundezas da minha mente, a Aurora adolescente corre pra se esconder da minha fúria.
“Ah, ser tão jovem e tão bonita!” Dona Inês suspira, mas a Margot lança um olhar chocado pra ela, afirmando que ela é linda e elas começam uma conversa em que cada uma diz como a outra é fabulosa. É cansativo.
“Tudo bem, vou começar a trabalhar no seu guarda-roupa, querida. A Margot me deu uma lista dos eventos em que você terá de participar e de algumas peças básicas para o escritório. Volto no final do dia.” Ela acena animada.
“Confiamos no seu julgamento, Dona Inês”, Margot diz e observamos enquanto ela vai embora, como uma onda de chiffon vermelho e de salto alto. A energia do ambiente abaixa e quase desabo de alívio.
“Isso tudo é mesmo necessário?” Desço do banco, aliviada por estar livre depois de me sentir como uma Barbie de tamanho real.
“Receio que sim, queria. A imagem do Nicollas é importante; o nome Arnault remete ao luxo e à riqueza. Se você vai participar de eventos com ele, precisa representar a mesma imagem.” Ela sorri pra mim com um toque de solidariedade.
“O Nicollas sabe que pedir pra sua equipe gastar milhares de dólares dos seus suados salários pra manter uma imagem é ridículo, então, aproveite o benefício.”
Margot tenta tranquilizar as minhas dúvidas enquanto eu tento acalmar a minha irritação interna e a vontade de recusar.
“Não gosto que outras pessoas escolham o que eu visto.” Isso tudo se deve à minha necessidade de estar no controle de cada detalhe da minha vida. É como eu funciono, como me mantenho equilibrada.
“Fica tranquila. A Dona Inês foi quem me ajudou a descobrir a minha deusa interior e me fez ficar assim.” A Margot gira como uma adolescente.
Hoje ela está vestindo um terno preto com uma saia justa na altura dos joelhos, um blazer abotoado sobre uma blusa de seda prata e sapatos de salto alto pretos. O seu cabelo loiro está num coque francês impecável. Ela está incrível.
“Sério?” Estou um pouco aliviada. Ela é a imagem da sofisticação e do controle que desejo alcançar; talvez a Dona Inês não seja tão ruim assim.
“Ah, sim. O meu estilo era péssimo quando comecei aqui. Quinze anos depois e essa sou eu.” Ela sorri pra mim.
“Quinze anos?” O choque é evidente na minha voz. Isso significa que ela começou a trabalhar aqui antes do Nicollas ter idade suficiente pra ajudar a administrar a empresa. Ele tinha treze anos.
“Sim, eu era assistente do Sr. Arnault Sênior.” Ela agora está arrumando os papeis que a Dona Inês deixou bagunçados na minha mesa.
“Como ele é?” Sempre fui intrigada pelo homem mais velho e conhece-lo no ano passado não diminuiu o meu interesse. Ele pareceu ser uma força da natureza, aterrorizante e frio.
“Ele é alguém que você nunca gostaria de conhecer”, diz uma voz profunda, conhecida e suave, tão próxima quanto inesperada. Pulo e me viro para ver o Nicollas entrando casualmente pela porta.
As palpitações no meu estômago voltam com força total, me lembrando que ainda estou parada no meio da sala. Vou até a minha mesa e me sento, com o nervosismo se instalando de novo.
Ele está vestindo jeans de grife em uma lavagem desbotada, uma camiseta branca com uma estampa de grafite que fica um pouco elegante demais nele, uma jaqueta de couro moderna e óculos escuros, que são a sua marca registrada.
Ele não parece um cara que veio passar o dia no escritório. Não tenho certeza se estou impressionada, ainda que esse estilo bad boy e motoqueiro combinem com ele. Mas não é exatamente profissional.
“Sr. Arnault, quero dizer, Nicollas. Bom dia!” a Aurora controlada está de volta, apesar dos cabelos fazendo cócegas no meu rosto e da falta de ar devido a aparência dele com essa roupa.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 27
Comments