Aurora Cartier
“Mais alguma coisa, Sr. Arnault?” Termino as anotações e enfio a caneta na parte de cima do caderno com um suspiro, me sentindo ainda mais grudenta do que antes.
“Gostaria que enviasse uma cópia pro e-mail do meu pai e gostaria que você me chamasse de Nicollas, como eu pedi.”
Ele coloca os pés em cima da mesa, empurrando a cadeira pra trás pra se reclinar, e me lança um olhar descontraído presunçoso.
“Se você prefere assim.” Não estou acostumada com chefes que não se preocupam com títulos ou que se comportam de maneira tão casual.
Estou decepcionada com a abertura que tenho visto até agora na maneira como Margot e Nicollas se comportam um com o outro, o que também me deixa um pouco desconfortável. Aqui está ele, sentado com os pés sobre a sua mesa de mil dólares, como um adolescente, e a imagem que eu tinha deles se foi.
“Não sou o Sr. Arnault... o meu pai é.” Seus olhos se movem pra foto na sua mesa e percebo algo sombrio neles. Ele desliza os pés de volta pra baixo, como se não estivesse mais tão relaxado ao som daquela pequena palavra, ‘pai’.
A emoção desaparece dos seus olhos antes que eu possa ter certeza do que vi e estremeço por dentro. Homens com olhares sombrios não me agradam; é uma das poucas coisas que me deixa profundamente nervosa, o suficiente pra me fazer suar frio.
“Tudo bem, Nicollas.” É difícil dizer o nome dele, mesmo que ele insista. E é forçado. Ele volta a sorrir, parecendo satisfeito, e eu me levanto pra ir embora.
“Você gosta de trabalhar aqui, Aurora?” Ele me pega desprevenida e se inclina sobre a mesa, apoiando os braços na frente do corpo, interrompendo a minha fuga. Fico paralisada, atordoada com a sua pergunta.
“Sim”, respondo sem pensar, me perguntando por que ele se importa.
“Cinco anos é muito tempo.” A voz dele é gostosa de ouvir, apesar das minhas ressalvas em relação a ele, e percebo como o seu tom muda quando ele não está falando de negócios.
Ele tem um jeito de te conquistar com uma mudança sutil, te atraindo pra ele. a sua voz tranquila é quase sensual, mas no geral é reconfortante e genuína. Ele parece dominar a arte de fazer as pessoas relaxarem de uma forma natural e a arte de fazer as mulheres quererem conversar com ele sem nem fazer esforço.
Muito bom, muito inteligente. Conquistar as mulheres fingindo interesse. Boa jogada. “Acho que sou o tipo de pessoa que gosta de focar em uma coisa e se esforçar nisso. Pra ver onde pode me levar.” Dou batidinhas com o caderno no meu quadril, distraída, tentando não reagir a sua voz.
“Você não se importa em passar os seus vinte e poucos anos perdendo as coisas da vida?” Ele está me avaliando de novo, como ele faz sempre que estou cara a cara com ele, e ainda não me acostumei com isso.
Ele me devora com os olhos como se eu fosse um enigma a ser resolvido. Acho que ele se interessa por mim, de algum jeito.
“É uma questão de perspectiva, Sr. Arnault; esse trabalho me oferece oportunidades que a maioria das mulheres de vinte e seis anos nunca tem a chance de vivenciar,” digo, encolhendo os ombros, na esperança de que aqueles olhos avaliadores olhem pra outro lugar e parem de me atacar.
“Você nunca quis ser alguma coisa diferente?” Ele me observa pensativo, de uma forma um pouco intensa.
“O que, por exemplo?” Me mexo de um pé pro outro. O desconforto causado pela sua atenção está ficando muito alto e estou ficando inquieta.
“Gerente?” Ele sorri; ele acha graça do seu próprio comentário, mas não consigo entender a piada, então sorrio friamente.
“Não tenho as qualificações para um cargo gerencial, Sr. Arnault. Trabalhei muito pra crescer de assistente administrativa até aqui; é onde quero estar”, respondo, irritada com ele mais uma vez.
“Acho que é uma sorte pra mim, então.” Ele me lança o seu sorriso de ‘posso encantar qualquer um’ e eu me arrepio por dentro. Ele obviamente sabe que é atraente e usa isso muito bem a seu favor. Vi como ele seduz as mulheres e parece gostar da reação que causa, mas fica mais ‘mano’ com os homens. Quero sair daqui.
“Talvez.”
“O tempo vai dizer, Srta. Cartier. Pode ir agora; veja se a Margot voltou pra você poder ir. Essa carta não é urgente, então pode almoçar primeiro.”
Ele sorri pra mim com o que imagino ser o seu olhar ‘encantador’, claramente entediado com a minha falta de interesse nele, e me viro pra sair, suspirando de alívio.
“Tudo bem, Nicollas.” Du um sorriso tenso e percebo uma faísca de diversão nos seus olhos agora que ele sabe o quanto não gosto dessa informalidade. Muito bom, Arnault; parece que estou aqui pra te divertir.
Caminho em direção à porta pesada, com mau humor devido a sua expressão presunçosa e um calor borbulhando dentro do meu estômago.
“Espera. Você pode fazer uma reserva de uma mesa pra dois hoje às nove no Guy Savoy no meu nome?” ele acrescenta e me viro pra acenar indicando que o ouvi, com o rosto inexpressivo. Quem será a garota que vai jantar e ser jantada hoje à noite?
Eu me acostumei com as anotações de encontros na agenda dele e com a lista de companheiras atuais que enfeitam a sua cama. Tenho certeza de que ele ficou sem espaço pra manter um registro das suas conquistas há muito tempo e esse é só mais um motivo pelo qual nunca vou ser próxima dele. Ele é um prostituto.
“Sim, senhor.” Fecho a porta atrás de mim e faço uma careta através da madeira densa. A vontade de levantar o dedo do meio com ódio me surpreende.
Parece que ele tem a capacidade de me irritar sem esforço ou motivo, e nem quero entender isso. acho que vou ter que me acostumar com as reações que ele provoca em mim e me esforçar mais pra continuar inabalável.
A Margot ainda demora vinte minutos pra voltar e estou livre pra sair no momento em que o ar-condicionado finalmente sopra o ar fresco sobre nós, como uma onda de alívio. Estou grudenta, quente e corada e preciso trocar de roupa.
Vou para o banheiro me refrescar rapidamente e vejo no espelho mal iluminado na parede que estou vermelho brilhante. As minhas bochechas estão coradas, a minha nuca está vermelha e a minha pele está com manchas de maquiagem onde suei.
O meu cabelo não está mais liso e esticado no coque, mas está se soltando, apesar dos produtos que uso pra fixar o penteado. Aliso o meu cabelo ondulado pra deixá-lo sempre no lugar. Estou uma bagunça.
Droga, não posso continuar o dia assim. Parece que fui pra academia com as minhas roupas de trabalho e que estou derretendo. Pareço um panda porque o meu delineador se acumulou embaixo dos meus cílios inferiores e o meu batom, sempre tão desenhado na minha boca, está manchado e grudento.
Lavo o meu rosto e solto o meu cabelo pra minimizar os danos. A umidade e o calor fizerem com que ele voltasse a ficar ondulado e ficasse com marcas dos elásticos no cabelo.
Sem a minha chapinha, ele não vai ficar bonito a não ser que eu lave. Tem alguns chuveiros no quarto andar, na academia da empresa; talvez eu devesse sacrificar o almoço pra tomar um banho rápido pra me refrescar depois de ter suado como se estivesse num país tropical.
Olho pro meu relógio, calculo quanto tempo tenho e decido seguir com essa ideia. A minha pausa pro almoço é de quarenta e cinco minutos e consigo tomar banho em menos da metade desse tempo. Por sorte, guardo uma troca de roupa no escritório, uma sugestão da Margot pro caso algum dia eu precise fazer uma viagem curta em cima da hora. Também tenho produtos de higiene pessoal na bolsa.
Com o cabelo preso num rabo de cavalo frouxo, volto e pego a bolsa, e fico feliz que a Margot esteja concentrada no seu notebook enquanto fala ao telefone e não me vê. Sabrina, a recepcionista externa, me olha de um jeito engraçado, mas não diz nada.
Trabalho numa empresa que investe em hotéis, academias e spas. Esses serviços são padrão nos Edifícios Arnault, com acesso disponível a todos os funcionários, o que é outra vantagem desse trabalho. Desço de elevador até o andar da academia dos funcionários com a minha bolsa.
Quando saio do banho, pareço mais alegre e arrumada, os resíduos de maquiagem desapareceram, as roupas estão limpas e o cabelo seco com secador está caindo em ondas longas e naturais.
Infelizmente não tem chapinha pra alisar o cabelo no vestiário feminino, mas pelo menos me refresquei. Ficar com o cabelo solto me incomoda. O meu penteado faz parte do meu uniforme, parte da minha defesa; ter ele arrumado e preso me ajuda a me sentir mais no controle e faz parte da imagem que quero apresentar.
Deixar o cabelo solto assim me deixa nervosa. Sei como eu puxo e torço ele quando estou em casa nos fins de semana, outra mania nervosa da antiga Aurora que não consigo controlar, é infantil e demonstra ansiedade. Não tem nada que eu possa fazer; prender ele sem alisar e sem os produtos certos vai ficar bagunçado. Preciso lidar com ele assim pelo resto do dia.
Repito pra mim mesma que eu consigo fazer isso enquanto vou pro refeitório almoçar, ignorando as pessoas que olham pra mim como se não me reconhecessem, o que me deixa desconfortável.
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Atualizado até capítulo 27
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