Capítulo 08

Aurora Cartier

Estou de volta à minha mesa depois do almoço e a central telefônica está piscando freneticamente. Vejo que as linhas de Margot e do Nicollas estão ocupadas. Vejo que Sabrina também tem algumas ligações em espera, então peço pra ela passar uma pra mim.

Eu me sento pra atender a primeira ligação e percebo a Margot acenando pra mim, com um sorriso largo. Ela aponta pra cabeça dela, depois pra minha indicando o meu cabelo, e faz um sinal de positivo com o polegar, o que me faz franzir o nariz.

Acho que não usei ele de outro jeito que não fosse num coque durante os cinco anos que trabalho aqui. Sinto que não estou vestida de forma apropriada e isso me incomoda muito mais do que deveria. Me concentro na ligação.

Meia hora depois, estou perdida nos meus pensamentos, imersa numa planilha financeira que o Nicollas precisa pra hoje à noite. Já fiz uma montanha de coisas hoje, o que torna isso um trabalho leve, e não percebo olhos sobre mim até ouvir passos no chão de madeira.

Olho pra cima distraída, mais por reação do que por entendimento, e vejo Nicollas Arnault parado, olhando pra mim. A dois metros da minha mesa. Dou um pulo de medo e o meu rosto fica vermelho de calor e susto.

Merda. “Desculpa, Nicollas, não tinha te visto. Posso fazer alguma coisa por você?” A minha voz sai toda confusa com o pânico e o meu coração está disparado no peito enquanto eu me desmonto com a minha incompetência desajeitada.

Como não percebi que o meu chefe estava rondando a minha mesa? Eu deveria estar sempre atenta a todas as demandas dele; foi uma falha grande da minha parte. Me levanto, tentando forçar o meu sorriso mais amigável eficiente. Não consigo respirar.

É por causa do susto que ele me deu; estou nervosa e tentando me recuperar rápido, com o corpo tremente devido ao choque que tive ao notar a sua presença.

“Aurora...” Ele também parece sem palavras, olhando pra mim de um jeito diferente e com uma expressão desconfortável. “Só vim te dar isso. Você está diferente!” O rosto dele está indecifrável; não consigo nem pensar no que ele pode estar sentindo.

Eu me lembro que o meu cabelo está solto e fico vermelha porque não estou preparada. Me sentindo extremamente vulnerável, eu desabo.

“Não vai acontecer de novo. Tomei banho na hora do almoço por causa do calor de hoje de manhã.” Preciso me recompor e recuperar a Aurora tranquila e controlada. Estou tagarelando. Tento respirar fundo pra não parecer uma completa idiota.

“Você está...” Os seus olhos verdes estão me invadindo e é angustiante. Todas as minhas pequenas inseguranças estão aparecendo de uma vez.

“Desarrumada? Não é assim que eu costumo vir trabalhar.” Estou divagando e mexendo as mãos descontroladamente, incapaz de recuperar o controle. Merda. Merda. Merda. Eu não sou assim.

E ele está agindo de um jeito... estranho. Sei que é porque ele me assustou, porque me sinto nua e porque estou me sentindo perdida por estar fira da minha zona de conforto. A minha respiração está pesada e estou tentando estabilizar ela sem deixar isso muito obvio, mas estou fazendo um péssimo trabalho.

“Eu ia dizer...” Ele para e limpa a garganta, olhando pros papeis na mesa pra mudar o rumo da conversa, provavelmente porque estou deixando ele desconfortável. Muito bem, Aurora!

“Então, aqui, preciso que isso seja copiado, enviado por email e arquivado. Tenho certeza de que você sabe o que fazer.” Ele olha pra cima e desvia o olhar de novo, como se não se sentisse confortável em fazer contato visual agora.

Estendo a mão e pego os papeis dele com pressa, tentando evitar de puxar eles como uma louca. “Sim, senhor.”

“Aurora, você está bonita”, ele interrompe gentilmente, olhando pra mim apenas pra fazer o comentário e depois voltando a sua atenção pro celular na sua mão.

Ignoro o estranho olhar de apreensão no rosto dele e os arrepios que surgem dentro de mim. Me mexendo nervosamente de um pé pro outro, tento firmar minhas mãos na pasta.

Essa situação se intensificou rápido e estou com muita raiva de mim mesma. Perdi a minha imagem calma e capaz em milissegundos, tudo por causa do meu cabelo idiota. Forço uma expressão relaxada e sorrio com firmeza pra tentar manter o meu segredo.

“Obrigada, Sr. Arnault.” As palavras saem da minha boca antes que eu perceba que não chamei ele de Nicollas, o que é mais um motivo pra gemer silenciosamente. Recupere a compostura. Anos de autocontrole, Aurora, e você acaba com tudo em segundos.

Estou mais do que furiosa comigo mesma. A Margot aparece logo depois, carregando uma pasta e um blazer. Fico feliz por ela aparecer de repente e pela sua habilidade de me acalmar instantaneamente.

Olho pro relógio na parede e vejo que ainda não são 14:00h, então me lembro porque eles estão saindo. Eu tinha esquecido que eles têm uma reunião com o Sr. Arnault Sênior do outro lado da cidade, em outro prédio da empresa, a Sede Arnault Tower, alguma coisa sobre finanças trimestrais, e vão me deixar responsável pelo escritório.

O Rei Arnault na sua torre de marfim. Ele prefere governar o seu império separado do Nicollas, num prédio a vários quarteirões de distância. Imagino se a frieza e distância entre eles é o motivo.

“Aurora, desvie todas as ligações importantes e me mande mensagem se precisar de alguma coisa”, Margot me passa as instruções. “Deixei uma pilha de documentos aqui.”

Ela dá um tapinha na pequena montanha de pastas que ela colocou sobre a mesa, sem perceber como eu estava fazendo papel de boba. “Trabalhe nisso e pode ir embora às quatro e meia.”

Ela sorri, prendendo uma mecha solta do meu cabeço atrás da minha orelha, me pegando de surpresa. “Gostei assim; é mais suave. Você fica muito mais bonita, parece despreocupada e mais jovem.” Ela sorri de novo, com os olhos cheios de afeto sincero.

Tento sorrir e reprimir uma careta, estou desconfortável com a atenção que essa ligeira mudança está atraindo pra mim e tenho certeza de que isso nunca mais vai acontecer. Também não estou confortável com a maneira como Nicollas ainda está olhando pra mim enquanto ela mexe no meu cabeço.

Passo a mão por ele, afastando a mão dela gentilmente, e balanço a cabeça com uma expressão vazia pra evitar comentários. Suspiro de alívio quando eles se despedem e saem. Ainda bem que acabou.

Carrego as pastas até a frente da minha mesa e jogo o cabeço pra trás com raiva. Estou com raiva de mim mesma. Estou brava porque o Nicolas me fez perder a calma, mesmo sem querer. Estou com raiva porque, por uma fração de segundo, a antiga Aurora voltou, a Aurora adolescente, estúpida, idiota, nervosa e inquieta. Agi como uma completa idiota.

Passei anos empurrando-a para as profundezas e tentando substitui-la por alguém mais capaz e confiante. Não preciso da presença dela ou da sua ansiedade e insegurança perto de mim.

Ela é uma garotinha machucada que não me deixava evoluir e a ultima coisa que preciso é vê-la de novo.

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